quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Janelas

 


Ah, se puséssemos olhar pelas janelas dos vizinhos, agora que ainda (ainda!) muitos de nós estamos compulsoriamente recolhidos em nossas casas, talvez cada vez mais cansados do isolamento e de nós mesmos!

De minha janela, vejo movimento em algumas outras: a moça da janela em frente passa bom tempo a brincar com um lindo gato cinza. Mais acima, a senhora de cabelos brancos tenta se comunicar, aos gritos, com alguém embaixo, no pátio do prédio... Imagino que viva só e já esteja farta deste confinamento a que a pandemia nos obriga.

Agora mesmo, outra cabeça apareceu lá adiante, em andar bem alto; não consigo saber se é jovem ou velho, homem ou mulher. Em um pequeno terraço, alguém anda de lá para cá, como a contar passos de caminhada. São vários mundos em um mundo, neste nosso isolamento forçado. Tornamo-nos meio bisbilhoteiros, pela janela espiando outras janelas e, virtualmente, monitorando outros cantos da cidade, do país, do mundo.

Eu, você, a garota da frente, a senhora de cabelos brancos, os que se põem à janela, vez ou outra, os que não se expõem... Em que pensam? Com o que sonham? Como serão suas vidas, neste momento tão atípico, que nos assombra com sua “realidade irreal”, beirando o fantástico?

Um poema de João Cabral de Melo Neto consegue levar-nos, imaginativamente, a algumas respostas. É uma visão onírica, quase surrealista, mas, por isso mesmo, representativa da multiplicidade de seres (tão vários, mas, em essência, tão semelhantes...), com seus afazeres e pensares, que se podem vislumbrar de janelas.


As janelas oníricas de João Cabral

Vamos à leitura, antes dos comentários.

Janelas

Há um homem sonhando
numa praia; um outro
que nunca sabe as datas;
há um homem fugindo
de uma árvore; outro que perdeu
seu barco ou seu chapéu;
há um homem que é soldado;
outro que faz de avião;
outro que vai esquecendo
sua hora seu mistério
seu medo da palavra véu;
e em forma de navio
há ainda um que adormeceu.

[MELO NETO, João Cabral de. In LOANDA, Fernando Ferreira de. Antologia da Moderna Poesia Brasileira. Rio de Janeiro: Edições Orfeu, 1967.]

No poema, o eu lírico aparece como voyeur, observando “por dentro”, flagrando a intimidade e relatando o que vê. Seu olhar percorre um caminho entre “um” (homem) e “outro”, desvelando várias cenas, todas elas janelas de sonho, ou seja, de quem se descolou da realidade: vale tudo, até animizar a árvore ou fazer equivaler barco e chapéu:

Há um homem sonhando
numa praia; um outro
que nunca sabe as datas;
há um homem fugindo
de uma árvore
; outro que perdeu
seu barco ou seu chapéu

A referência ao soldado, pura e simplesmente, parece sinalizar ao leitor uma volta ao normal. No entanto, é apenas a contrapartida para o transporte onírico se fazer mais denso com o que vem depois:

há um homem que é soldado;
outro que faz de avião;
outro que vai esquecendo
sua hora seu mistério
seu medo da palavra véu
;
e em forma de navio
há ainda um que adormeceu.

Com o último verso (“há ainda um que adormeceu”), o poema faz-se cíclico e indicia uma volta ao início – “Há um homem sonhando” – dando a sensação de múltiplos eventos que se repetem no tempo, como, por exemplo, a sucessão de dias, semanas, meses.

Essa volta ao início, esse retorno a si próprio e às cenas esboçadas sugere, acima de tudo, o adentrar o mais íntimo do ser, para a contemplação da pluralidade de vivências que se encadeiam e se mesclam no interior do eu poético e do leitor – que se encontra e se reconhece nas imagens. O poema torna-se, assim, um terreno fecundo para o leitor criativo multiplicar suas leituras, juntando, como co-criador, suas próprias experiências interiores.


Outras janelas, outros pensares

Quando, neste isolamento imposto pela pandemia, deixamos de lado a festiva companhia (muitas vezes ilusória) das redes sociais e mergulhamos em nossa própria interioridade, qual é nossa reação? Tédio? Melancolia? Inquietude? Ou, ao contrário, paz de espírito e serenidade? Principalmente as pessoas de grupos de risco, sujeitas a ficar mais tempo confinadas, será que nem veem “o tempo passar na janela”, à semelhança da Carolina de Chico Buarque?1

Se, de minha janela, eu pudesse adentrar outras janelas e saber, por exemplo, parte da história daquele homem da casa mais à frente, ou daqueles moços do prédio ao lado, que estão sempre conversando debruçados, será que me depararia com tristeza e solidão, ou com um universo de sorrisos e rostos pacificados, com a edificação de vidas harmoniosas?

Quem está do lado de dentro, sem poder sair, não precisa, necessariamente, entregar-se à passividade e à depressão. Há cores e sensações para se viver lá dentro, assim como as há para se ver lá fora, mesmo que através de janelas... Que nos inspire e incentive o olhar sorridente e lúdico da poesia de Mário Quintana.

1 Carolina é a conhecida canção de Chico Buarque de Holanda, composta em 1967 e apresentada no II Festival Internacional da Canção Popular (FIC),do mesmo ano.


As janelas lúdicas de Quintana

No poema a seguir, o eu poético plasma o fazer do poeta às cores e formas que vê de sua janela. Por meio das palavras, tudo se funde, como numa aquarela (o dentro e o fora, as cores, a natureza, os objetos, o poeta e seu ato), e de tal modo, que já não há escritor separado da escrita e da cena: tudo se faz uma só paisagem e se transforma em sonho. Entretanto, não é o sonho denso e interiorizado que vimos em João Cabral, mas outro, mais leve, transparente, afetuoso, que se abre para o acolhimento da vida lá fora.

Escrevo diante da janela aberta


Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas…

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando!

[QUINTANA, Mário. Poesias. Porto Alegre: Globo, 1983. Disponível em: www.escritas.org.]

Neste outro poema, Quintana nos oferece um “modelo” de personagem que aceita o que vem, seja o que for, dentro ou fora de seu lugar de aconchego, e que dribla a realidade mediante a transformação dela pela imaginação criadora.

O poeta começa o dia


Pela janela atiro meus sapatos, meu ouro, minha alma ao meio da rua.
Como Harum-al-Raschid, eu saio incógnito, feliz de desperdício...
Me espera o ônibus, o horário, a morte – que importa?
Eu sei me teleportar: estou agora
Em um Mercado Estelar... e olha!
Acabo de trocar
– em meio aos ruídos da rua –
alheio aos risos da rua –
todas as jubas do Sol

por uma trança da Lua!

[QUINTANA, Mário. Nova antologia poética. Rio de Janeiro: Globo, 1985.]


Você que me lê...

... Se está mantendo o isolamento, como vem lidando com o dia a dia solitário, tendo, em grande parte do tempo, seu próprio Eu como companheiro?

Os poemas aqui registrados podem-nos conduzir à magia de sair de nosso mundinho e olhar, sentir, pensar a vida de outras maneiras, pois essa é uma das funções da Poesia. Talvez, até, alguém se tenha visto espelhado neste ou naquele texto. Porque, usando, ainda, a palavra de Mário Quintana:

Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... e não a gente a ele.

Meu abraço a todos.