quinta-feira, 23 de julho de 2020

Tempo, tempo, tempo...




Tempo de espera, tempo presente, tempo de acontecer, tempo...
Em uma dessas longas conversas à distância que andam substituindo nossas visitas presenciais, uma queridíssima irmã fez sábias reflexões sobre o tempo e sobre “dar tempo ao tempo”.
Como exemplo, contou-me que, em sua mudança do Rio para o interior de São Paulo, um lírio branco, de que gostava especialmente, murchou e secou. Entretanto, minha irmã não o descartou nem desistiu dele. E, além de ter ainda, seu lírio, tirou da experiência conclusões importantes para os dias que correm.
Pedi a ela que me desse detalhes, e ela me escreveu, detalhando todo o caminho de recuperação de sua plantinha. Sua sensibilidade produziu um belo relato que partilho aqui, pois nos servirá, tenho certeza, para aprofundar pensamentos, entender os próprios sentimentos, intensificar nossa esperança.

História de um lírio
Ele veio de meu apartamento do Rio de Janeiro em 2015, quando mudei para outra cidade.
Sua flor surge uma vez por ano, em abril. Em 2018 e 2019, a flor não apareceu, ao contrário dos outros anos. E, neste meio de tempo, a plantinha padeceu e, por várias vezes, quase morreu.
Eu persistia, porém...
No começo do ano passado, estava apenas com três folhas murchas. Achei que dessa vez não sobreviveria. Levei a coitadinha a uma UTI, uma floricultura de um amigo, na qual ela foi replantada e cuidada por algum tempo.
A planta se reanimou, reviveu.
Como eu tive que voltar, por algum tempo, ao Rio, minha filha passou a cuidar dela. Regava a planta, que estava num lugarzinho muito especial da casa, um aconchegante pergolado. E foram nascendo mais folhas. E ela voltou a ficar bonita. E voltei para casa...
De repente, num certo dia, neste abril, vi uma pontinha saindo da terra, que não parecia ser uma folha, e sim a flor! Vibrei! Depois de tanto tempo, a flor que quase tinha morrido ia florescer novamente!
Daí em diante, todo dia, eu ia vê-la, ansiosa! Queria que, de um dia para outro, aparecessem todos os lírios de uma vez, como num passe de mágica.
E aí vinha aquela voz interior me dizendo. “Calma! Tudo tem seu tempo!” E eu fui apreciando, dia a dia, o crescimento da flor e sua beleza.
E fiz a comparação com o que estamos vivendo.
Estamos vivendo agora uma situação complicada! Tempos difíceis de Coronavírus, de muita incerteza, sem saber se vamos sobreviver, principalmente nós, do grupo de risco. E todo dia acordamos, estamos vivos, e vamos aproveitando momento a momento, da melhor forma possível. Queremos que, num passe de mágica, tudo isso já tenha passado, com um tempo lá na frente, com vacina para nos proteger deste mal.
Mas tudo tem seu tempo e a espera faz parte!


A poesia da história, a poesia da vida, a poesia do tempo
Esta matéria tem a colaboração e inspiração de minha irmã, Suely Arradi. O próprio título é de seu relato, e eu o roubei, com seu consentimento.
Sua sensibilidade poética está na delicadeza e importância que dá à recuperação e evolução de uma plantinha que alguns teriam jogado fora.
Seu espírito de historiadora está no detalhamento das etapas da planta e no cuidado que teve em documentar sua evolução. Disso me aproveitei, inserindo algumas fotos do lírio neste artigo.
Quero acompanhar seu delicioso relato com alguns poemas sobre o tempo. São textos que, embora não sendo de hoje, conservam sua atualidade por recriarem, de modos poéticos peculiares, aspectos da vida humana.

Tudo tem seu tempo
Estamos diante de um tempo de angústia, qual noite dolorosa sem fim, de espera ansiosa pelo término de um sofrimento e pela volta ao equilíbrio (mesmo que precário) anterior.
Ricardo Reis, heterônimo de Pessoa, em uma das Odes, dá a palavra ao eu lírico para um conselho a Lídia que vale para nós, agora: ante a “noite” que nos envolve, o melhor é acalmar o “ardor que o dia nos pedia” e dar ensejo a que “com mais sossego amemos / a nossa incerta vida”.
Por ora, não exijamos demais de nós ou de outros, porque é “a hora dos cansaços”. Por enquanto, em vez de ações forçadas e de preocupações quanto ao futuro, recordemos e ressignifiquemos, em pequenas doses, acontecimentos idos – ainda que nos tome esse avassalador “desassossego que o descanso / nos traz às vidas”.

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do Sol).

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.

[PESSOA, Fernando. Odes de Ricardo Reis. In Fernando Pessoa – Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.]

O tempo inevitável
O poema seguinte, de Cassiano Ricardo, reforça o conselho para que não nos desesperemos e vai mais fundo, pois toca na inevitabilidade dessa “coisa tão doída” que sempre espera o ser humano: seu caminhar em direção à morte. O sofrimento, pois, qualquer que seja, fará parte do trajeto do “ser” rumo ao “não ser”.
No entanto, se o eu lírico não traz refrigério, em contrapartida, exorta o homem a uma atitude serena – estoica – ante acontecimentos irremediáveis.

O Relógio

Diante de coisa tão doída
Conservemo-nos serenos

Cada minuto da vida
Nunca é mais, é sempre menos

Ser é apenas uma face
Do não ser, e não do ser

Desde o instante em que se nasce
Já se começa a morrer.

[RICARDO, Cassiano. Seleta em prosa e verso. Coelho, Novaes, comp. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, INL, 1972.]

O tempo e a vida
Entre o ser e o não ser... há a vida, como ensina o poema de Whitman (retomando a célebre frase – carpe diem – do poeta romano Horácio). Cada cantinho dela – “deserto” ou “oásis” – é digno de ser bem aproveitado. E “ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, [pois] tu podes trocar uma estrofe”.
Portanto:

[Carpe diem!]

Aproveita o dia.
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias, sim, podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, nem fujas.
Valoriza a beleza das coisas simples, se podes fazer poesia bela sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda adiante.
Procura vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprende com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida passe sem teres vivido…

[WHITMAN, Walt. Disponível em: www.pensarcontemporaneo.com/3561-2/]

Tudo passa
Com Leminski, encerro, desejando que tudo o que temos sofrido nesta época de pandemia passe logo, logo. Depois, quando tudo tiver passado, teremos uma importante história para lembrar, contar e recontar, dela extraindo inúmeras lições.

Que tudo passe

passe a noite
passe a peste
passe o verão
passe o inverno
passe a guerra
e passe a paz

passe o que nasce
passe o que nem
passe o que faz
passe o que faz-se

que tudo passe
e passe muito bem

[LEMINSKI, Paulo. Caprichos e Relaxos. São Paulo: Ed. Brasiliense,3ª ed.]

Recado final
Sobretudo, não esqueçamos Whitman:
Não deixes de crer que as palavras e as poesias, sim, podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.

Meu abraço, em qualquer tempo.

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