sábado, 13 de junho de 2020

O que pode a Literatura?



Tempos de ficar em casa... Para mim, antes de tudo o mais, tempos de ler, ler, ler. É o que me acalma, corrige o prumo do meu dia, dá-me ânimo para encontrar objetivos e não cair na rotina.
Não dispenso um bom filme, muito menos a Divina Música, minha companheira desde que aprendi a pensar por mim mesma. A música me aquece, embala, desencadeia sentidos e memórias. Não, não fico sem ela, nunca fiquei. Mas ler, ler muito, principalmente obras literárias, sempre fez parte de minha rotina e de meu trabalho, e agora me tem ajudado a entender este mundo conturbado e este momento angustiante pelo qual passamos.
Michèle Petit, em seu livro A arte de ler ou como resistir à adversidade1, dá vários exemplos de como a literatura pode ajudar na reconstrução da vida emocional e psíquica de populações em sofrimento por guerras, epidemias, situações de violência física, fome, etc. Diz, citando a escritora Leslie Kaplan:
Trata-se, [...] não de uma evasão do mundo, mas de ‘inventar um ponto de apoio para lidar com o mundo aqui e agora’, de introduzir um canto na realidade.
E continua:
De fato, o que os leitores descrevem quando se referem a esse salto para fora de suas realidades cotidianas provocado por um texto não é tanto uma fuga, como é dito frequentemente, de maneira um pouco depreciativa (acreditando-se que seria mais honrável se dedicar totalmente à sua dor ou ao seu tédio), mas uma verdadeira abertura para outro lugar, onde o devaneio e, portanto, o pensamento, a lembrança, a imaginação de um futuro tornam-se possíveis.
Completo com Todorov2:
A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos de outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro.
Eu também entendo assim o papel que a ficção e a poesia podem desempenhar para nós, reclusos compulsoriamente pela pandemia. Penso que, se os pais, justamente preocupados com os filhos (hoje privados de escolas e demais atividades), se dispusessem a ler com e para eles; se estabelecessem horários para rodas de leitura, em que cada membro da família lesse, contasse, recitasse poemas, os ganhos para a saúde emocional da família toda seriam inestimáveis.
A literatura serve de ponte para alcançarmos o outro; de reflexão para atingirmos, com maior abrangência, a realidade presente e, a partir dela e de nosso próprio passado, projetar o futuro. Se vivida em grupo, deflagra o desejo de compartilhar ideias e sentimentos, tornando-nos mais transparentes e abertos à compreensão de nosso próximo.
Às vezes, uma simples frase, um pequeno texto de aparência descompromissada, cola em certa lembrança escondida, desperta aquele sentimento, traz à luz determinado fato de ontem, de hoje, de tempos atrás... e lá vamos nós significar ou ressignificar o vivido.
1 PETIT, Michèle. A arte de ler – ou como resistir à adversidade.  São Paulo: Ed. 34, 2009.
2 TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.


Lições de Galeano
Foi com esse pensamento que selecionei e trago, hoje, textos de Galeano3 que podem insinuar aspectos de acontecimentos de agora – e, didática e amorosamente, atiçar nosso olhar compreensivo e compassivo.
Entre colchetes, registro o pensamento que orientou minha escolha. Ao leitor e à leitora, certamente, surgirão outras reverberações, de acordo com sua própria vivência e realidade.

° Celebração das contradições
[Somos nossas contradições: medo e coragem, dúvidas e certezas, sonhos e pesadelos, vida e morte.]
Desamarrar as vozes, dessonhar os sonhos: escrevo querendo revelar o real maravilhoso, e descubro o real maravilhoso no exato centro do real horroroso da América.
Nestas terras, a cabeça do deus Eleguá leva a morte na nuca e a vida na cara. Cada promessa é uma ameaça; cada perda, um encontro. Dos medos nascem as coragens; e das dúvidas, as certezas. Os sonhos anunciam uma outra realidade possível, e os delírios, outra razão.
Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia.
Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido, mas sagrado, e com a louca aventura de viver no mundo.

° Os filhos
[Lição de compreensão e solidariedade. Mais do que em qualquer outra circunstância, a pandemia nos aparelhou para compreender a dor pelo sofrimento do outro, que o texto revela.]
Há onze anos, em Montevidéu, eu estava esperando Florência na porta de casa. Ela era muito pequena: caminhava como ursinho. Eu a encontrava pouco. Ficava no jornal até qualquer hora e pelas manhãs trabalhava na universidade. Pouco sabia da vida dela. Beijava-a adormecida; às vezes levava chocolate ou brinquedos para ela.
A mãe não estava, aquela tarde, e eu esperava na porta o ônibus que trazia Florência do jardim de infância.
Chegou muito triste. No elevador fez beicinho. Depois deixou que o leite esfriasse na xícara. Olhava o chão.
Sentei-a em meus joelhos e pedi que me contasse. Ela negou com a cabeça. Acariciei-a, beijei sua testa. Deixou escapar uma lágrima. Com o lenço sequei sua cara e assoei seu nariz. Então, pedi outra vez:
– Vamos, conta.
Contou-me que sua melhor amiga tinha dito que não gostava dela.
Choramos juntos, não sei quanto tempo, abraçados os dois, ali na cadeira.
Eu sentia as mágoas que Florência ia sofrer pelos anos afora e quisera que Deus existisse e não fosse surdo, para poder rogar que me desse toda a dor que tinha reservado para ela.

° Chorar
[Não vale a pena postergar a demonstração de nosso amor: ele faz sentido e é necessário, agora. Depois, quem sabe o que acontecerá?]
Foi na selva, na Amazônia equatoriana. Os índios shuar estavam chorando a avó moribunda. Choravam sentados, na margem de sua agonia. Uma pessoa, vinda de outros mundos, perguntou:
– Por que choram na frente dela, se ela ainda está viva? E os que choravam responderam:
– Para que ela saiba que gostamos muito dela.

° Abril, 5: Dia da luz
[É preciso que nossa esperança seja como a luz da vela: simples e única, mas com poder de iluminar todos os cantos da vida.]
Aconteceu na África, em Ifé, cidade sagrada do reino dos iorubas, talvez num dia como hoje, ou quem sabe quando.
Um velho, já muito enfermo, reuniu os três filhos e anunciou:
– Minhas coisas mais queridas serão de quem conseguir encher esta sala completamente.
E esperou lá fora, sentado, enquanto a noite caía.
Um dos filhos trouxe toda a palha que conseguiu juntar, mas a sala só ficou cheia até a metade.
Outro filho trouxe toda a areia que conseguiu reunir, mas metade da sala ficou vazia.
O terceiro filho acendeu uma vela.
E a sala se encheu.
  
° Profissão de fé
[Nestes tempos, nós nos encontramos universalmente unidos pela dor. E a importância de nosso estar no mundo é proporcional ao que possamos fazer – material e espiritualmente – pelo outro.]
Sim, sim, por mais machucada e fodida que a gente possa estar, sempre é possível encontrar contemporâneos em qualquer lugar do tempo, e compatriotas em qualquer lugar do mundo. E sempre que isso acontece, e enquanto isso dura, a gente tem a sorte de sentir que é algo na infinita solidão do universo: alguma coisa a mais que uma ridícula partícula de pó, alguma coisa além de um momentinho fugaz.

Uma certeza...
Uma certeza me move: a de que, partilhando histórias e experiências, estaremos menos sós.
Meu abraço, distante ou próximo, mas sempre solidário!

3:Textos 1, 2, 4: GALEANO, Eduardo. Amares. Porto Alegre: L&PM, 2019.
   Textos 3 e 5: GALEANO, Eduardo. O Livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 2002. Disponível também para download, pela Internet.