sábado, 16 de maio de 2020

Vale a pena viver?


Queiramos ou não, uns mais, outros menos, estamos sendo levados por uma pandemia a pensar mais longamente na vida e na morte.
A instabilidade do “estar vivo” está nas conversas diárias, com tantas diversas opiniões quantas são as crenças, saberes e modos de vida presentes na sociedade. Há aquele fatalista, que se recusa a tomar cuidados básicos de proteção, porque a morte é condição que escapa ao homem e chegará cedo ou tarde, queira-se ou não. Há outro, mais ponderado, a objetar que a vida, em si, qualquer que seja sua duração ou feição, é importante demais para ser desprotegida ou desperdiçada.
De qualquer modo, relatos diários reforçam nossa aflição atual. Por exemplo, na Folha de São Paulo1, li três títulos penosos:
'Me vejo atormentada com pensamentos de morte', diz médica indiana
'Se for infectada, estarei no grupo dos que morrem ou dos que sobrevivem?', pergunta médica sul-africana
'É muita responsabilidade ser a última pessoa que alguém vê antes de morrer', conta enfermeiro na Itália
Enfim, quando um grande sofrimento chega para nós, ou para pessoa próxima; quando assistimos a relatos dramáticos sobre alguém que passa por progressivo declínio vital, e cujo corpo parece lutar, sem sucesso, apesar dos tratamentos, contra a doença, é difícil não se perguntar: valerá a pena viver?
Ou, nas palavras de Jan Olav, personagem de A garota das Laranjas2:
Quanto vale um ser humano? Será que nós somos apenas poeira que qualquer ventania levanta e espalha?
Nesse romance de Jostein Gaarder, o questionamento sobre a vida está posto de modo objetivo, mas, ao mesmo tempo, sensível e comovente. Jan Olav, doente de câncer e sabendo da morte próxima, escreve uma carta a seu filho Georg, então, muito criança. É como se o pai deixasse um testamento afetivo, com lições e reflexões sobre a vida para o filho receber na adolescência. A carta permanece escondida e é descoberta somente 11 anos depois. Nas palavras de Georg:
Na época, meu pai decidiu que era impossível conversar para valer com um garotinho de três anos e meio. Hoje eu entendo isso. [...] Escreveu a história da “garota das laranjas”, para que eu a lesse quando estivesse crescido o bastante para compreendê-la. Escreveu uma carta para o futuro.
Na carta, Jan Olav narra seu amor pela “garota das laranjas”, que é, em suma, a história da formação de uma família feliz (Jan Olav, Veronika e Georg), desde os encontros e desencontros dos namorados, a decisão de ficarem juntos, o nascimento do filho e a breve convivência familiar, até a doença fatal que motiva Jan Olav a escrever a carta.
Pela beleza e profundidade do texto e pela adequação ao momento difícil que vivemos, quero compartilhar o principal das indagações de Jan Olav sobre vida e morte, no trecho da carta em que ele relembra uma “conversa-monólogo” sobre o universo e a vida, que tivera com o filho criança.
Os negritos são por minha conta.

O tempo, Georg, o que é o tempo?
Continuei falando — embora soubesse que você já não conseguia entender aquilo tudo.
O cosmo é muito velho, eu disse, talvez tenha 15 bilhões de anos. E, apesar disso, ninguém conseguiu descobrir como ele surgiu. Nós vivemos dentro de um grande conto de fadas, do qual ninguém faz realmente ideia. A gente dança e brinca e bate papo e ri num mundo cujo surgimento ninguém pode entender. Essa dança e esse brinquedo são a música da vida, eu disse. A gente os encontra em todos os lugares em que há seres humanos, assim como em todo telefone há o sinal de linha.
Então você inclinou a cabeça para trás e olhou para mim. Entendeu pelo menos a parte do sinal de discar no telefone. Você adora tirar o fone do gancho só para ouvi-lo. Logo depois, Georg, eu lhe fiz uma pergunta, aliás, a mesma que quero fazer agora que você finalmente pode compreendê-la. Foi por causa dessa pergunta que lhe contei a longa história da garota das laranjas.
Eu disse: “Imagine que, há muitos bilhões de anos, no momento em que tudo foi criado, você estivesse no umbral desse conto de fadas. E tivesse a opção de nascer neste planeta se quisesse. Não saberia quando ia viver nem quanto tempo passaria aqui, mas, fosse como fosse, seria apenas questão de alguns anos. Só saberia que, se decidisse um dia nascer neste mundo, quando chegasse a hora ou, como se diz, quando ‘o ciclo se completasse’, teria de deixá-lo e a tudo quanto nele existe. Talvez isso o contrariasse bastante, pois muita gente acha a vida neste grande conto de fadas tão maravilhosa que chega a ficar com lágrimas nos olhos só de pensar que isso vai acabar. Tudo aqui pode ser tão bom que dói pensar que um dia não haverá outros dias”.
Você ficou caladíssimo no meu colo. E eu disse: “O que você escolheria, Georg, se um poder superior lhe desse a possibilidade de escolher? A gente pode imaginar, quem sabe, uma fada cósmica nesta grande e enigmática aventura. Você teria optado por uma vida nesta Terra, breve ou longa, dentro de cem mil ou cem milhões de anos?”.
Eu devo ter respirado fundo duas vezes, antes de continuar falando; então, prossegui com voz firme: “Ou teria se recusado a participar deste jogo por não poder aceitar as regras?”.
Você continuou em silêncio no meu colo. Eu queria muito saber no que estava pensando. Você era um milagre vivo. Achei que o seu cabelo louro como o trigo cheirava a tangerina. Um anjo de carne e osso, cheio de vida.
Você não tinha adormecido. Mas não disse nada.
Estou certo de que ouviu as minhas palavras, inclusive é possível que tenha prestado muita atenção. Mas eu não tinha a menor ideia do que se passava dentro de você. Nós estávamos tão perto um do outro. E, mesmo assim, de repente, ficamos terrivelmente distantes.
Eu o abracei com mais força, talvez você tenha pensado que era para aquecê-lo. Mas eu o traí, Georg, porque comecei a chorar. Isso eu não queria, e tratei de me recompor o mais depressa possível. Mas não consegui conter as lágrimas.
Nas últimas semanas, eu me fiz essa pergunta várias vezes. Teria optado por uma vida na Terra se soubesse que um dia seria arrancado tão subitamente daqui, talvez no momento mais feliz da minha existência? Ou será que teria agradecido e rejeitado de pronto esse jogo absurdo do “dá e toma”? Porque a gente vem uma única vez a este mundo. É entregue a essa grande aventura. E então chega um ratinho e o conto de fadas se acaba.
Não, juro que não sei qual seria a minha escolha. Acredito que teria repelido essas condições. Talvez respondesse com um delicado “não” à oferta de participar dessa grande aventura, se fosse apenas em uma visita breve, e talvez o meu “não” nem fosse tão delicado assim. Pode ser que gritasse que não queria ouvir mais nenhuma palavra sobre esse maldito dilema. Foi o que imaginei; no momento em que estava na varanda, com você no colo, tive plena certeza de que recusaria totalmente a oferta.
Se eu tivesse optado por não meter o nariz nesta grande aventura, nunca saberia o que estava perdendo. Você entende o que quero dizer? Para nós, seres humanos, às vezes é muito pior perder uma coisa que amamos do que nunca ter tido essa coisa. Pense bem: se a garota das laranjas não houvesse cumprido a promessa de passar seis meses se encontrando comigo todos os dias quando voltasse da Espanha, para mim seria melhor nunca tê-la conhecido. Também é assim nos outros contos de fada. Você acha que a Gata Borralheira teria voltado ao palácio com o príncipe se lhe dissessem que só poderia passar uma semana lá? O que você acha que ela sentiria se tivesse de retornar à sua vida de outrora, ao fogão e às cinzas, à madrasta malvada e às irmãs invejosas?
Agora é a sua vez de responder, Georg, agora você tem a palavra. Pois foi quando nós dois estávamos contemplando o firmamento, na varanda, que eu tomei a decisão de lhe escrever esta longa carta. Aliás, foi justamente no momento em que chorei. E não chorei só por saber que talvez muito em breve me separaria de você e da garota das laranjas. Chorei porque você era tão pequeno. Chorei porque nós dois não podíamos conversar de verdade.
Vou perguntar mais uma vez. Qual seria a sua decisão se você tivesse a possibilidade de escolher? Optaria por uma vida breve aqui na Terra, para depois de poucos anos separar-se de tudo e nunca mais voltar? Ou diria “não, obrigado”?
Você só tem essas alternativas. É a regra. Se optar pela vida, também está optando pela morte.
Mas, olhe: prometa que vai refletir muito antes de responder.
Talvez eu tenha ido longe demais. Talvez esteja fazendo você sofrer. E talvez não tenha esse direito. Mas para mim é importantíssimo saber que resposta você daria à minha pergunta, porque eu sou diretamente responsável pelo fato de você estar aqui. Você não estaria no mundo se eu tivesse me recusado a ele.
Estou com uma espécie de sentimento de culpa por haver contribuído para pôr você neste mundo. De certo modo, eu lhe dei a vida, junto com a garota das laranjas, é claro. Mas, por outro lado, também somos nós que um dia tornaremos a tomá-la. Dar a vida a uma criancinha não significa apenas lhe dar o mundo de presente. Também significa um dia tomar dela esse presente inconcebível.
Tenho de ser franco com você, Georg. Pois digo que rejeitaria delicadamente a oferta de uma rápida viagem à grande aventura. Assim me parece. E se essa também for a sua opinião, fico com remorso ao pensar na besteira que fiz.
Eu me deixei seduzir pela garota das laranjas, deixei-me atrair pelo amor, achei irresistível a ideia de ter um filho. “Onde foi que errei?”, pergunto. Para mim, essa pergunta significa um conflito brutal de consciência. E ela traz consigo a necessidade de deixar um pouco de ordem atrás de mim.
Mas, Georg, agora pode surgir um novo dilema, e um dilema que talvez não seja tão difícil – ou maligno – quanto o primeiro. Se você responder que, apesar de tudo, teria optado pela vida, ainda que fosse por um momento brevíssimo, eu não posso desejar nunca ter nascido.
Desse modo a equação ainda pode dar certo, desse modo pode ser que se estabeleça um equilíbrio. E essa, naturalmente, é a minha esperança. Sim, por isso escrevo.
Você não pode responder diretamente a minha grande pergunta. Mas indiretamente pode. Pode responder pelo modo como quer viver essa vida que começou quando Veronika, eu e um médico meio irresponsável brindamos com champanhe à sua chegada, Esse médico do champanhe era a sua fada protetora, tenho certeza disso.
Agora você pode deixar de lado esta minha saudação. Agora é a sua vez de viver.
[...]
Georg! Uma última pergunta ainda: posso mesmo ter certeza de que não há outra existência depois desta? Posso ficar convencido de que não estarei em algum lugar quando você ler esta carta? Não, certeza absoluta eu não posso ter. Pois, se o mundo existe, todos os limites da improbabilidade já foram ultrapassados. Entende o que eu quero dizer? Já estou tão assombrado com o fato de existir um mundo, que não tenho lugar para mais assombro se constatar que existe outro depois dele.
Lembro que, há dois dias, nós passamos algumas horas às voltas com um jogo de computador. Talvez esse jogo tenha sido especialmente bom para mim, eu estava precisando muito de algo que me distraísse dos tantos pensamentos que me perseguiam. Mas sempre que a gente “morria” nesse jogo, aparecia um novo cenário onde recomeçar. Quem garante que não há um novo “cenário” para a alma? Eu não acredito, palavra que não. Mas o sonho do improvável tem nome. Chama-se “esperança.

A Literatura e a vida
Não me canso de afirmar que a literatura me propõe motivos para mergulhar em questões existenciais. Todorov, em A Literatura em Perigo3, discorre belamente sobre essa relação entre arte literária e vida:
...não posso dispensar as palavras dos poetas, as narrativas dos romancistas. Elas me permitem dar forma aos sentimentos que experimento, ordenar o fluxo de pequenos eventos que constituem minha vida. Elas me fazem sonhar, tremer de inquietude ou me desesperar.
Penso que Jostein Gaarder, escritor e professor de Filosofia, escreva ficção (muitos conhecem seu livro O Mundo de Sofia) para tornar mais compreensíveis e acessíveis os temas filosóficos, ao aproximá-los da concretude da vida: assim, fabulando experiências e vivências, alimenta a reflexão filosófica do leitor. Cito, ainda, Todorov:
Seja por monólogo poético ou pela narrativa, a literatura faz viver as experiências singulares; já a filosofia maneja conceitos. Uma preserva a riqueza e a diversidade do vivido, e a outra favorece a abstração, o que lhe permite formular leis gerais. É o que faz com que um texto seja absorvido com maior ou menor grau de dificuldade.
A você, companheiro/a de leitura, a carta de Jan Olav serviu para refletir ou argumentar sobre algum aspecto concreto que vive ou viveu? Já se viu às voltas com indagações como as ali colocadas? Encontrou respostas? Ou, apenas, evita pensar sobre aquelas questões?
Nós, humanos, construímos laços amorosos fortes, desde o nascimento. Por isso, admitamos, é tão difícil encarar a morte, nossa ou de quem quer que seja.
Despeço-me, com mais um pouco da carta de Jan Olav (grifei o que mais me toca):
Ninguém se despede chorando da geometria euclidiana nem da tabela periódica dos átomos. Ninguém derrama uma lágrima que seja por estar se separando da internet ou da tabuada. É de um mundo que nos despedimos, é da vida, é do conto de fadas e da aventura. E, além disso, temos de nos despedir de um pequeno número de pessoas que realmente amamos.
Mas não nos esqueçamos, também, que:
...o sonho do improvável tem nome. Chama-se “esperança.
Meu abraço.
1 www.folha.uol.com.br/, 23/04/2020.
2 GAARDER, Jostein. A garota das laranjas. São Paulo: Companhia das letras, 2005.
3 TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

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