sexta-feira, 29 de maio de 2020

Medo, velho conhecido

Munch. O Grito - litogravura


Você tem medo? Já teve? Tem agora, mais que antes?
Se tem, de quê? Do presente? Do futuro? Do isolamento? De doenças? Da perigosa (virose) COVID 19?
De fato, o medo acompanha o homem: é fator de preservação da vida, é sinal de perigo... “Em verdade temos medo. / Nascemos escuro”, diz Drummond.
Entretanto, antigamente (confesso, sou do tempo do “antigamente”), parece-me que não havia tanta desconfiança – nem com relação à vida, nem com relação ao próximo; era possível, até, olhar nosso vizinho como amigo e entregar-lhe a chave de nossa casa. Alguns de nós dormíamos de janelas abertas e deixávamos a porta da frente escancarada, mesmo em cidades mais povoadas. Hoje, nem em pequenas cidades se vê muito disso. O medo do crime e da violência cortou-nos essas liberdades.
A esse medo generalizado, soma-se, neste ano de 2020, o pavor de um inimigo universal, o Novo Coronavírus. Frente a ele, até os medos antigos, até os provenientes da cidade grande tornaram-se quase irrelevantes.
Nossa sociedade já viveu outras grandes ameaças – terrorismo, derrocada financeira de países, epidemias, crises políticas e morais, catástrofes naturais. Entretanto, parece que todas as tensões juntaram-se e tornaram-se universais, desencadeadas pela pandemia de COVID 19. Como ouvi de uma educadora:
“Esse vírus invisível gerou um medo generalizado e sem fronteiras da morte, [instaurou] insegurança, gerada pela perda das certezas e pela nossa própria dificuldade e do Estado de entender e estender causas, de realizar mudanças.”
O medo, agora, nos une. Bem por isso, comecei perguntando: de que você tem medo?
Às vezes, é difícil até esmiuçar essa sensação. A insegurança e a angústia aparecem difusas, impregnando-nos cada pensamento, cada atitude ou falta dela. Ainda a educadora:
"Também, nunca vivemos momento grave e de crise tão séria e drástica assim. Fomos obrigados a nos recolher, quando nem sabíamos o que era voltar para nós mesmos, nos interiorizarmos."
No entanto, aquilo que não compreendemos muito bem, os artistas delineiam, mapeiam e revelam. Quem não se lembra de O Grito, de Munch, que tão bem escancara o sentimento de angústia do homem?
Poetas também se debruçaram sobre o medo. Já citei Drummond e o início de seu poema O medo. Vale a pena deter-me no texto integral. Proponho sua leitura; após, tecerei alguns comentários.

O medo
A Antonio Candido

 "Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é o do medo."

Antonio Candido, Plataforma de Uma Geração.

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

[ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo, in Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]


O medo de Drummond
O Medo é dedicado ao crítico e sociólogo Antonio Candido, que comentara o medo, em texto publicado em 1943. Era o tempo angustiante da 2ª Guerra Mundial e, no Brasil, tempo do Estado Novo. Como tantos outros, os dois intelectuais – Candido e Drummond – faziam-se atuantes, mediante seus escritos corajosos.
O poema (para o qual apresento uma leitura possível, mas não única, nem definitiva) começa com uma afirmação: “Em verdade temos medo. / Nascemos escuro”. Note-se, “escuro”, no singular: não somos qualificados de escuros, mas somos sujeitos que nascem escuramente, nosso tempo é de escuridão. E, mais que isso, somos o próprio escuro, sua essência e concretização viva.
Assim, o eu lírico drummondiano nos aponta o termo “escuro” em sua conotação de angústia e medo, porque relacionado, na memória coletiva, à ausência de luz e, em decorrência, à impossibilidade de enxergar e à insegurança ante o que poderá advir. Mais que isso, liga tais sentimentos à própria natureza do homem – que é medo e está por ele cercado:
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.
O mapeamento do medo continua, para mostrar que tudo é maior que nós e nos vence, pois “somos apenas uns homens” aos quais até “o amor faltou” – não somente o amor do outro, mas também o amor pelo outro, o que nos torna solitários, afastados dos demais, frios, egoístas, encerrados em nós próprios:
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Porém, o eu poético drummondiano não aceita passivamente o destino que limita e amedronta; que nos torna medrosos, burgueses, fadados a viver e morrer em conjunto:
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Assim, compreende e propõe, como contrapartida, tomar o próprio medo como apoio e matéria de construção, ainda que possa produzir objetos díspares e até conflitantes (“carcereiros, edifícios, escritores, este poema”).
É impossível não notar a ironia amarga com que é feita essa proposição:
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
No entanto, embora compreenda os que se paralisaram pelo medo, o eu lírico escolhe a ação, consciente dos perigos – vamos para a frente / recuando de olhos acesos e sabendo que será em meio ao medo, nosso e de nossos filhos:

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.


Enfrentar e agir; evitar e fugir
Não seria o Drummond combativo, se seu poema propusesse apenas fugir. Embora revele um mundo aflitivo, porque dominado pelo medo, o eu poético acaba por sugerir ação e enfrentamento, não inércia.
Em contraponto, quero registrar outro poema sobre o medo, agora do poeta surrealista português, Alexandre O'Neill.
Assim como Drummond, Alexandre O'Neill (1924-1986) vivenciou e criticou, poeticamente, o medo gerado pelas amarras de regimes totalitários e de convenções – sociais, políticas, culturais, literárias – que tolhem a liberdade do indivíduo.
A maneira de apresentar o quanto o medo é (ou tornou-se) corriqueiro é a listagem exaustiva de circunstâncias que mostram e/ou são decorrentes do medo (perceba: não há vírgulas ou pontos).
No poema há apenas um verbo: é a locução verbal “vai ter”, cujo único sujeito é “o medo”. Esse sintagma, reiterado, reforça que nosso dia a dia se desenrola sob o comando do medo. (Em meio à leitura, procederei a alguns comentários, para detalhar tal aspecto.)

O Poema pouco original do Medo
[Aqui, o medo nas ruas.]
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

[Aqui, o medo personificado, no interior de casas e aposentos.]
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

 [Agora, o medo invade mente, coração e alma; abala estruturas psíquicas e emocionais, levando o indivíduo a recorrer a ajudas externas e justificando a aceitação de tudo o que se apresentar. Aí cabem, até, “poemas originais” e os outros, “como este”; “projetos altamente porcos” e... “heróis”.]
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
[Após a ampla listagem, vem o resumo do resumo: “o medo vai ter tudo tudo”.]
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

[Ao final, o que começa como uma espécie de luz no fim do túnel, sugerindo uma saída para o terror paralisante – “O medo vai ter... quase tudo” –, termina por tirar toda a ilusão do leitor. Porque, se movimento houver, será o de fuga, como o de ratos.]
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

[Alexandre O'Neill. Disponível em: www.jornaldepoesia.jor.br/alexan03.html]


Os caminhos
Os dois poemas lidos sugerem caminhos; se o medo não paralisar, levará a algum movimento: ou ao enfrentamento, ou à fuga.
Seguramente, muitos de nós já experimentamos todas essas sensações, e não apenas uma delas: o terror que inibe a vontade e anula a liberdade de ação; o ânimo de ir adiante, substituir o medo pela coragem e lutar; ou o impulso para dar meia-volta e fugir.
Então, qual é / será a posição de cada um de nós – nesse exato instante e no futuro próximo –, com tudo o que precisamos enfrentar neste ano de 2020?
No fundo de meu coração, já respondi: quero acreditar que o medo, ainda que nos deixe bloqueados no primeiro instante, será o estopim de novas atitudes do ser humano. Tenho observado isso todos os dias, diretamente, perto de mim, ou indiretamente, pelos meios de comunicação: ações solidárias que dão testemunho de respeito e de amor ao próximo; pessoas e grupos criativos, que despertaram para a premência de mudança nas formas materiais e egoístas de viver e começaram a desenvolver projetos para o bem coletivo.
Termino com uma questão instigadora que ouvi um dia desses:
"Nós, que conseguimos a proeza de parar o mundo (de pararmos a nós próprios, de mudar os ares e os mares), não conseguiremos olhar para ele de outra forma?"
Deixo meu abraço, com a esperança de que nosso medo de hoje seja o despertar de nossa energia transformadora do amanhã.

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