terça-feira, 12 de maio de 2020

Luta do Bem e do Mal?



Não há como negar: em consequência da COVID-19, nós, habitantes da Terra, vemo-nos entre dois perigosos abismos: de uma parte, a ameaça de morte em massa; de outra, a iminência de caos financeiro. Diante disso, alguns países optam por privilegiar a preservação da vida, outros pela preservação da economia.

Há quem defenda, é certo, ser possível (e necessário) abraçar e proteger ambos os aspectos; mas há também quem afirme que tal harmonização é impossível, pois as opções são mutuamente excludentes.

Tal dilema ético ­– preservar a vida, mesmo que em detrimento de bens materiais, ou proteger os bens, mesmo que à custa da vida –, bastante comum à sociedade contemporânea, levou-me a relembrar o belo conto japonês O velho que fazia florescer árvores.

A seguir, transcrevo uma de suas versões. Em negrito, destaco a caracterização de duas personagens.


Hanasaka-Jiji – O velho que fazia florescer as árvores mortas

Há muito, muito tempo, havia um bom velhinho e sua esposa, que tinham como companhia um cão muito estimado por eles. Um dia, aquele cão foi para o jardim e, em determinado ponto, começou a latir e a sacudir a cauda, insistentemente. Os velhinhos puseram-se a cavar ali e encontraram ouro e prata e muitas outras coisas preciosas.

Tinham eles vizinhos que eram perversos e cobiçosos. Quando esses vizinhos tiveram notícia do ocorrido, pediram o cão emprestado. Levaram-no para sua casa, ofereceram-lhe várias gulodices e pediram-lhe que lhes mostrasse um lugar onde houvesse tesouros.

Mas o cão, que fora perversamente tratado por eles em tempos idos, não quis comer coisa alguma. Os velhos ficaram zangados, amarraram-no com uma corda, pelo pescoço, e puxaram-no para o jardim. Tudo em vão. Finalmente, porém, o cão parou e pôs-se a cheirar determinado ponto. Os ambiciosos mais que depressa desataram a cavar a terra ali, mas só encontraram imundície e carniça, a ponto de precisarem fugir, tapando o nariz. Furiosos com aquele desapontamento, mataram o cão.

O bom ancião que o emprestara, não o vendo voltar, foi indagar sobre o paradeiro do animal, recebendo como resposta que ele fora morto e estava enterrado junto às raízes de um pinheiro. Tomado de grande tristeza, o pobre homem, que muito amava seu cão, foi levar comida à sepultura dele, queimando ali incenso e adornando-a com flores.

Mas sua honestidade e virtude depressa foram recompensadas, pois o cachorro apareceu-lhe em sonhos e disse-lhe:

"Faze com que o pinheiro, sob o qual estou enterrado, seja posto abaixo, e da madeira dele fabrica um almofariz, que usarás."

O velho fez o que lhe recomendava seu cão, e – que espanto! – quando socava seu arroz naquele almofariz, os grãos transformavam-se em moedas de ouro, pequenas e grandes.

Claro está que os maldosos vizinhos logo tiveram conhecimento do caso e mais que depressa pediram o almofariz emprestado. Quando foram usá-lo, porém, todo o seu arroz transformou-se em imundície. Furiosos, partiram o objeto precioso, queimando-o depois.

Pela segunda vez o cão apareceu em sonhos ao velho dono; contou-lhe o que acontecera ao almofariz. Disse-lhe, porém, que se ele conseguisse reunir as cinzas do objeto tão vilmente destruído, poderia, atirando uma pitada daquela cinza sobre uma árvore murcha, devolver-lhe a vida, fazendo-a desabrochar e frutificar novamente.

Tendo conseguido trazer para a sua casa um punhado das cinzas mágicas, o velho experimentou atirar uma pitada sobre a cerejeira morta de seu pomar. Imediatamente ela começou a brotar, cobriu-se de flores cor-de-rosa, anunciando a proximidade dos belos frutos tão queridos. Diante daquilo o velho começou a percorrer a região, fazendo-se conhecer como o ancião que tinha o poder de restituir a vida às árvores mortas.

Certo daimyo – barão feudal – teve conhecimento daquilo e mandou chamar o velho, que lhe mostrou seu poder, fazendo desabrochar uma ameixeira morta e cobrindo de flores várias cerejeiras murchas. Vendo aquilo, o daimyo deu-lhe altas recompensas, e o ancião voltou para casa, muito feliz e próspero.

Mais uma vez os maldosos vizinhos quiseram compartilhar da boa sorte dele. O homem mau reuniu todo o resto da cinza do almofariz que havia ficado em casa e levou-a numa cesta para a cidade mais próxima, anunciando-se como o velho que tinha o poder de restituir a vida às árvores mortas e cobri-las de flores.

Vendo o senhor das terras que vinha pelo caminho, acompanhado de seu séquito, subiu depressa a uma árvore morta que ficava à beira da estrada. Os homens do séquito do senhor daquela cidade vieram à frente, exigindo que o ancião descesse da árvore, pois ninguém devia olhar para seu senhor de uma posição mais alta do que a dele.

O velho, contudo, insistiu em sua mentira, dando-se como mágico das árvores, o verdadeiro Hanasaka-Jiji e, assim, permitiram-lhe que mostrasse sua habilidade.

Quando ele espalhou a cinza, porém, nem um só renovo ou gomo apareceu. Entretanto, tendo o vento soprado a cinza, eis que ela entra pelos olhos e pela boca do daimyo. 

Furiosos, os homens da comitiva apoderaram-se do ambicioso velho intrujão e deram-lhe tremenda surra.

[Disponível em: www.consciencia.org/hanasaka-jiji-o-velho-que-fazia-florescer-as-arvores-mortas.]


Bem X Mal

Qualidades, ações, estados que formam pares de opostos – mocidade e velhice, esperteza e inocência, arrogância e humildade, vida e morte, atividade e inércia – são muitas vezes considerados excludentes e em luta, como bem os representam os contos de fada, os mitos, as lendas, as fábulas. (Neles, há sempre uma qualidade e/ou uma personagem positiva que sai vencedora sobre seu oposto negativo.).

Tais pares de oposição não são, em si, necessariamente antagônicos, nem irreconciliáveis. Tome-se, por exemplo, o par “esperteza/ inocência”, e facilmente se verá que certa dose de ambas as qualidades pode conviver em uma mesma pessoa e ser-lhe útil em determinadas ocasiões. No entanto, cada uma delas pode ser avaliada, dependendo de circunstâncias e interesses, como negativa ou como positiva: um religioso avaliará positivamente a inocência e não a esperteza, ao passo que um executivo poderá valorizar a esperteza, mas nunca a inocência, por não funcionar a contento no mundo dos negócios...

Assim é, também, com outros pares construídos dicotomicamente pela sociedade: individualismo/coletivismo, branco/negro, ariano/judeu, belicista/pacifista, direita/esquerda. O pensamento maniqueísta escolhe um lado para ser luz ou bem, e outro lado para ser trevas ou mal. É a eterna divisão entre Bem e Mal... E a classificação do que está do lado do Bem ou do Mal é de cada homem e de cada sociedade. Como já se disse, “o Bem e o Mal dependem da perspectiva e dos interesses de quem julga1".

No conto que lemos, não há possibilidade de equívoco, pois as personagens são descritas e avaliadas claramente como boas ou como más (destaques em negrito). Ao final, o Bem é recompensado e o Mal, castigado.

Seria assim, também, em nossa realidade pandêmica atual? Quais ações de governantes e nações estarão do lado do Bem, quais estarão do lado do Mal? Voltando ao início de nossa conversa: será o Bem privilegiar a vida e deixar para depois a economia? Ou privilegiar a economia é que será o Bem, o correto, o necessário para preservar vidas futuras, mesmo que à custa de algumas vidas a mais, agora?

Que monumental impasse ético se colocou para a Humanidade, não é mesmo? Ah, como seria bom, nestes nossos momentos difíceis, escapar um pouco e ser apenas personagem de algum conto de fada!

Mas, como não é possível, deleitemo-nos com sua leitura: contos populares, de fada, fábulas, mitos, lendas têm muito a ensinar ao homem, pois revelam aspectos humanos e podem conduzir a reflexões importantes e proveitosas.

Meu abraço.

1GALVÃO, Antônio Mesquita.O bem e o mal - Objetos de estudo da ética. Disponível em: https://www.recantodasletras.com.br/artigos-de-religiao-e-teologia.



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