sábado, 13 de junho de 2020

O que pode a Literatura?



Tempos de ficar em casa... Para mim, antes de tudo o mais, tempos de ler, ler, ler. É o que me acalma, corrige o prumo do meu dia, dá-me ânimo para encontrar objetivos e não cair na rotina.
Não dispenso um bom filme, muito menos a Divina Música, minha companheira desde que aprendi a pensar por mim mesma. A música me aquece, embala, desencadeia sentidos e memórias. Não, não fico sem ela, nunca fiquei. Mas ler, ler muito, principalmente obras literárias, sempre fez parte de minha rotina e de meu trabalho, e agora me tem ajudado a entender este mundo conturbado e este momento angustiante pelo qual passamos.
Michèle Petit, em seu livro A arte de ler ou como resistir à adversidade1, dá vários exemplos de como a literatura pode ajudar na reconstrução da vida emocional e psíquica de populações em sofrimento por guerras, epidemias, situações de violência física, fome, etc. Diz, citando a escritora Leslie Kaplan:
Trata-se, [...] não de uma evasão do mundo, mas de ‘inventar um ponto de apoio para lidar com o mundo aqui e agora’, de introduzir um canto na realidade.
E continua:
De fato, o que os leitores descrevem quando se referem a esse salto para fora de suas realidades cotidianas provocado por um texto não é tanto uma fuga, como é dito frequentemente, de maneira um pouco depreciativa (acreditando-se que seria mais honrável se dedicar totalmente à sua dor ou ao seu tédio), mas uma verdadeira abertura para outro lugar, onde o devaneio e, portanto, o pensamento, a lembrança, a imaginação de um futuro tornam-se possíveis.
Completo com Todorov2:
A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos de outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro.
Eu também entendo assim o papel que a ficção e a poesia podem desempenhar para nós, reclusos compulsoriamente pela pandemia. Penso que, se os pais, justamente preocupados com os filhos (hoje privados de escolas e demais atividades), se dispusessem a ler com e para eles; se estabelecessem horários para rodas de leitura, em que cada membro da família lesse, contasse, recitasse poemas, os ganhos para a saúde emocional da família toda seriam inestimáveis.
A literatura serve de ponte para alcançarmos o outro; de reflexão para atingirmos, com maior abrangência, a realidade presente e, a partir dela e de nosso próprio passado, projetar o futuro. Se vivida em grupo, deflagra o desejo de compartilhar ideias e sentimentos, tornando-nos mais transparentes e abertos à compreensão de nosso próximo.
Às vezes, uma simples frase, um pequeno texto de aparência descompromissada, cola em certa lembrança escondida, desperta aquele sentimento, traz à luz determinado fato de ontem, de hoje, de tempos atrás... e lá vamos nós significar ou ressignificar o vivido.
1 PETIT, Michèle. A arte de ler – ou como resistir à adversidade.  São Paulo: Ed. 34, 2009.
2 TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.


Lições de Galeano
Foi com esse pensamento que selecionei e trago, hoje, textos de Galeano3 que podem insinuar aspectos de acontecimentos de agora – e, didática e amorosamente, atiçar nosso olhar compreensivo e compassivo.
Entre colchetes, registro o pensamento que orientou minha escolha. Ao leitor e à leitora, certamente, surgirão outras reverberações, de acordo com sua própria vivência e realidade.

° Celebração das contradições
[Somos nossas contradições: medo e coragem, dúvidas e certezas, sonhos e pesadelos, vida e morte.]
Desamarrar as vozes, dessonhar os sonhos: escrevo querendo revelar o real maravilhoso, e descubro o real maravilhoso no exato centro do real horroroso da América.
Nestas terras, a cabeça do deus Eleguá leva a morte na nuca e a vida na cara. Cada promessa é uma ameaça; cada perda, um encontro. Dos medos nascem as coragens; e das dúvidas, as certezas. Os sonhos anunciam uma outra realidade possível, e os delírios, outra razão.
Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia.
Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido, mas sagrado, e com a louca aventura de viver no mundo.

° Os filhos
[Lição de compreensão e solidariedade. Mais do que em qualquer outra circunstância, a pandemia nos aparelhou para compreender a dor pelo sofrimento do outro, que o texto revela.]
Há onze anos, em Montevidéu, eu estava esperando Florência na porta de casa. Ela era muito pequena: caminhava como ursinho. Eu a encontrava pouco. Ficava no jornal até qualquer hora e pelas manhãs trabalhava na universidade. Pouco sabia da vida dela. Beijava-a adormecida; às vezes levava chocolate ou brinquedos para ela.
A mãe não estava, aquela tarde, e eu esperava na porta o ônibus que trazia Florência do jardim de infância.
Chegou muito triste. No elevador fez beicinho. Depois deixou que o leite esfriasse na xícara. Olhava o chão.
Sentei-a em meus joelhos e pedi que me contasse. Ela negou com a cabeça. Acariciei-a, beijei sua testa. Deixou escapar uma lágrima. Com o lenço sequei sua cara e assoei seu nariz. Então, pedi outra vez:
– Vamos, conta.
Contou-me que sua melhor amiga tinha dito que não gostava dela.
Choramos juntos, não sei quanto tempo, abraçados os dois, ali na cadeira.
Eu sentia as mágoas que Florência ia sofrer pelos anos afora e quisera que Deus existisse e não fosse surdo, para poder rogar que me desse toda a dor que tinha reservado para ela.

° Chorar
[Não vale a pena postergar a demonstração de nosso amor: ele faz sentido e é necessário, agora. Depois, quem sabe o que acontecerá?]
Foi na selva, na Amazônia equatoriana. Os índios shuar estavam chorando a avó moribunda. Choravam sentados, na margem de sua agonia. Uma pessoa, vinda de outros mundos, perguntou:
– Por que choram na frente dela, se ela ainda está viva? E os que choravam responderam:
– Para que ela saiba que gostamos muito dela.

° Abril, 5: Dia da luz
[É preciso que nossa esperança seja como a luz da vela: simples e única, mas com poder de iluminar todos os cantos da vida.]
Aconteceu na África, em Ifé, cidade sagrada do reino dos iorubas, talvez num dia como hoje, ou quem sabe quando.
Um velho, já muito enfermo, reuniu os três filhos e anunciou:
– Minhas coisas mais queridas serão de quem conseguir encher esta sala completamente.
E esperou lá fora, sentado, enquanto a noite caía.
Um dos filhos trouxe toda a palha que conseguiu juntar, mas a sala só ficou cheia até a metade.
Outro filho trouxe toda a areia que conseguiu reunir, mas metade da sala ficou vazia.
O terceiro filho acendeu uma vela.
E a sala se encheu.
  
° Profissão de fé
[Nestes tempos, nós nos encontramos universalmente unidos pela dor. E a importância de nosso estar no mundo é proporcional ao que possamos fazer – material e espiritualmente – pelo outro.]
Sim, sim, por mais machucada e fodida que a gente possa estar, sempre é possível encontrar contemporâneos em qualquer lugar do tempo, e compatriotas em qualquer lugar do mundo. E sempre que isso acontece, e enquanto isso dura, a gente tem a sorte de sentir que é algo na infinita solidão do universo: alguma coisa a mais que uma ridícula partícula de pó, alguma coisa além de um momentinho fugaz.

Uma certeza...
Uma certeza me move: a de que, partilhando histórias e experiências, estaremos menos sós.
Meu abraço, distante ou próximo, mas sempre solidário!

3:Textos 1, 2, 4: GALEANO, Eduardo. Amares. Porto Alegre: L&PM, 2019.
   Textos 3 e 5: GALEANO, Eduardo. O Livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 2002. Disponível também para download, pela Internet.


sexta-feira, 29 de maio de 2020

Medo, velho conhecido

Munch. O Grito - litogravura


Você tem medo? Já teve? Tem agora, mais que antes?
Se tem, de quê? Do presente? Do futuro? Do isolamento? De doenças? Da perigosa (virose) COVID 19?
De fato, o medo acompanha o homem: é fator de preservação da vida, é sinal de perigo... “Em verdade temos medo. / Nascemos escuro”, diz Drummond.
Entretanto, antigamente (confesso, sou do tempo do “antigamente”), parece-me que não havia tanta desconfiança – nem com relação à vida, nem com relação ao próximo; era possível, até, olhar nosso vizinho como amigo e entregar-lhe a chave de nossa casa. Alguns de nós dormíamos de janelas abertas e deixávamos a porta da frente escancarada, mesmo em cidades mais povoadas. Hoje, nem em pequenas cidades se vê muito disso. O medo do crime e da violência cortou-nos essas liberdades.
A esse medo generalizado, soma-se, neste ano de 2020, o pavor de um inimigo universal, o Novo Coronavírus. Frente a ele, até os medos antigos, até os provenientes da cidade grande tornaram-se quase irrelevantes.
Nossa sociedade já viveu outras grandes ameaças – terrorismo, derrocada financeira de países, epidemias, crises políticas e morais, catástrofes naturais. Entretanto, parece que todas as tensões juntaram-se e tornaram-se universais, desencadeadas pela pandemia de COVID 19. Como ouvi de uma educadora:
“Esse vírus invisível gerou um medo generalizado e sem fronteiras da morte, [instaurou] insegurança, gerada pela perda das certezas e pela nossa própria dificuldade e do Estado de entender e estender causas, de realizar mudanças.”
O medo, agora, nos une. Bem por isso, comecei perguntando: de que você tem medo?
Às vezes, é difícil até esmiuçar essa sensação. A insegurança e a angústia aparecem difusas, impregnando-nos cada pensamento, cada atitude ou falta dela. Ainda a educadora:
"Também, nunca vivemos momento grave e de crise tão séria e drástica assim. Fomos obrigados a nos recolher, quando nem sabíamos o que era voltar para nós mesmos, nos interiorizarmos."
No entanto, aquilo que não compreendemos muito bem, os artistas delineiam, mapeiam e revelam. Quem não se lembra de O Grito, de Munch, que tão bem escancara o sentimento de angústia do homem?
Poetas também se debruçaram sobre o medo. Já citei Drummond e o início de seu poema O medo. Vale a pena deter-me no texto integral. Proponho sua leitura; após, tecerei alguns comentários.

O medo
A Antonio Candido

 "Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é o do medo."

Antonio Candido, Plataforma de Uma Geração.

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

[ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo, in Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]


O medo de Drummond
O Medo é dedicado ao crítico e sociólogo Antonio Candido, que comentara o medo, em texto publicado em 1943. Era o tempo angustiante da 2ª Guerra Mundial e, no Brasil, tempo do Estado Novo. Como tantos outros, os dois intelectuais – Candido e Drummond – faziam-se atuantes, mediante seus escritos corajosos.
O poema (para o qual apresento uma leitura possível, mas não única, nem definitiva) começa com uma afirmação: “Em verdade temos medo. / Nascemos escuro”. Note-se, “escuro”, no singular: não somos qualificados de escuros, mas somos sujeitos que nascem escuramente, nosso tempo é de escuridão. E, mais que isso, somos o próprio escuro, sua essência e concretização viva.
Assim, o eu lírico drummondiano nos aponta o termo “escuro” em sua conotação de angústia e medo, porque relacionado, na memória coletiva, à ausência de luz e, em decorrência, à impossibilidade de enxergar e à insegurança ante o que poderá advir. Mais que isso, liga tais sentimentos à própria natureza do homem – que é medo e está por ele cercado:
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.
O mapeamento do medo continua, para mostrar que tudo é maior que nós e nos vence, pois “somos apenas uns homens” aos quais até “o amor faltou” – não somente o amor do outro, mas também o amor pelo outro, o que nos torna solitários, afastados dos demais, frios, egoístas, encerrados em nós próprios:
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Porém, o eu poético drummondiano não aceita passivamente o destino que limita e amedronta; que nos torna medrosos, burgueses, fadados a viver e morrer em conjunto:
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Assim, compreende e propõe, como contrapartida, tomar o próprio medo como apoio e matéria de construção, ainda que possa produzir objetos díspares e até conflitantes (“carcereiros, edifícios, escritores, este poema”).
É impossível não notar a ironia amarga com que é feita essa proposição:
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
No entanto, embora compreenda os que se paralisaram pelo medo, o eu lírico escolhe a ação, consciente dos perigos – vamos para a frente / recuando de olhos acesos e sabendo que será em meio ao medo, nosso e de nossos filhos:

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.


Enfrentar e agir; evitar e fugir
Não seria o Drummond combativo, se seu poema propusesse apenas fugir. Embora revele um mundo aflitivo, porque dominado pelo medo, o eu poético acaba por sugerir ação e enfrentamento, não inércia.
Em contraponto, quero registrar outro poema sobre o medo, agora do poeta surrealista português, Alexandre O'Neill.
Assim como Drummond, Alexandre O'Neill (1924-1986) vivenciou e criticou, poeticamente, o medo gerado pelas amarras de regimes totalitários e de convenções – sociais, políticas, culturais, literárias – que tolhem a liberdade do indivíduo.
A maneira de apresentar o quanto o medo é (ou tornou-se) corriqueiro é a listagem exaustiva de circunstâncias que mostram e/ou são decorrentes do medo (perceba: não há vírgulas ou pontos).
No poema há apenas um verbo: é a locução verbal “vai ter”, cujo único sujeito é “o medo”. Esse sintagma, reiterado, reforça que nosso dia a dia se desenrola sob o comando do medo. (Em meio à leitura, procederei a alguns comentários, para detalhar tal aspecto.)

O Poema pouco original do Medo
[Aqui, o medo nas ruas.]
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

[Aqui, o medo personificado, no interior de casas e aposentos.]
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

 [Agora, o medo invade mente, coração e alma; abala estruturas psíquicas e emocionais, levando o indivíduo a recorrer a ajudas externas e justificando a aceitação de tudo o que se apresentar. Aí cabem, até, “poemas originais” e os outros, “como este”; “projetos altamente porcos” e... “heróis”.]
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
[Após a ampla listagem, vem o resumo do resumo: “o medo vai ter tudo tudo”.]
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

[Ao final, o que começa como uma espécie de luz no fim do túnel, sugerindo uma saída para o terror paralisante – “O medo vai ter... quase tudo” –, termina por tirar toda a ilusão do leitor. Porque, se movimento houver, será o de fuga, como o de ratos.]
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

[Alexandre O'Neill. Disponível em: www.jornaldepoesia.jor.br/alexan03.html]


Os caminhos
Os dois poemas lidos sugerem caminhos; se o medo não paralisar, levará a algum movimento: ou ao enfrentamento, ou à fuga.
Seguramente, muitos de nós já experimentamos todas essas sensações, e não apenas uma delas: o terror que inibe a vontade e anula a liberdade de ação; o ânimo de ir adiante, substituir o medo pela coragem e lutar; ou o impulso para dar meia-volta e fugir.
Então, qual é / será a posição de cada um de nós – nesse exato instante e no futuro próximo –, com tudo o que precisamos enfrentar neste ano de 2020?
No fundo de meu coração, já respondi: quero acreditar que o medo, ainda que nos deixe bloqueados no primeiro instante, será o estopim de novas atitudes do ser humano. Tenho observado isso todos os dias, diretamente, perto de mim, ou indiretamente, pelos meios de comunicação: ações solidárias que dão testemunho de respeito e de amor ao próximo; pessoas e grupos criativos, que despertaram para a premência de mudança nas formas materiais e egoístas de viver e começaram a desenvolver projetos para o bem coletivo.
Termino com uma questão instigadora que ouvi um dia desses:
"Nós, que conseguimos a proeza de parar o mundo (de pararmos a nós próprios, de mudar os ares e os mares), não conseguiremos olhar para ele de outra forma?"
Deixo meu abraço, com a esperança de que nosso medo de hoje seja o despertar de nossa energia transformadora do amanhã.

sábado, 16 de maio de 2020

Vale a pena viver?


Queiramos ou não, uns mais, outros menos, estamos sendo levados por uma pandemia a pensar mais longamente na vida e na morte.
A instabilidade do “estar vivo” está nas conversas diárias, com tantas diversas opiniões quantas são as crenças, saberes e modos de vida presentes na sociedade. Há aquele fatalista, que se recusa a tomar cuidados básicos de proteção, porque a morte é condição que escapa ao homem e chegará cedo ou tarde, queira-se ou não. Há outro, mais ponderado, a objetar que a vida, em si, qualquer que seja sua duração ou feição, é importante demais para ser desprotegida ou desperdiçada.
De qualquer modo, relatos diários reforçam nossa aflição atual. Por exemplo, na Folha de São Paulo1, li três títulos penosos:
'Me vejo atormentada com pensamentos de morte', diz médica indiana
'Se for infectada, estarei no grupo dos que morrem ou dos que sobrevivem?', pergunta médica sul-africana
'É muita responsabilidade ser a última pessoa que alguém vê antes de morrer', conta enfermeiro na Itália
Enfim, quando um grande sofrimento chega para nós, ou para pessoa próxima; quando assistimos a relatos dramáticos sobre alguém que passa por progressivo declínio vital, e cujo corpo parece lutar, sem sucesso, apesar dos tratamentos, contra a doença, é difícil não se perguntar: valerá a pena viver?
Ou, nas palavras de Jan Olav, personagem de A garota das Laranjas2:
Quanto vale um ser humano? Será que nós somos apenas poeira que qualquer ventania levanta e espalha?
Nesse romance de Jostein Gaarder, o questionamento sobre a vida está posto de modo objetivo, mas, ao mesmo tempo, sensível e comovente. Jan Olav, doente de câncer e sabendo da morte próxima, escreve uma carta a seu filho Georg, então, muito criança. É como se o pai deixasse um testamento afetivo, com lições e reflexões sobre a vida para o filho receber na adolescência. A carta permanece escondida e é descoberta somente 11 anos depois. Nas palavras de Georg:
Na época, meu pai decidiu que era impossível conversar para valer com um garotinho de três anos e meio. Hoje eu entendo isso. [...] Escreveu a história da “garota das laranjas”, para que eu a lesse quando estivesse crescido o bastante para compreendê-la. Escreveu uma carta para o futuro.
Na carta, Jan Olav narra seu amor pela “garota das laranjas”, que é, em suma, a história da formação de uma família feliz (Jan Olav, Veronika e Georg), desde os encontros e desencontros dos namorados, a decisão de ficarem juntos, o nascimento do filho e a breve convivência familiar, até a doença fatal que motiva Jan Olav a escrever a carta.
Pela beleza e profundidade do texto e pela adequação ao momento difícil que vivemos, quero compartilhar o principal das indagações de Jan Olav sobre vida e morte, no trecho da carta em que ele relembra uma “conversa-monólogo” sobre o universo e a vida, que tivera com o filho criança.
Os negritos são por minha conta.

O tempo, Georg, o que é o tempo?
Continuei falando — embora soubesse que você já não conseguia entender aquilo tudo.
O cosmo é muito velho, eu disse, talvez tenha 15 bilhões de anos. E, apesar disso, ninguém conseguiu descobrir como ele surgiu. Nós vivemos dentro de um grande conto de fadas, do qual ninguém faz realmente ideia. A gente dança e brinca e bate papo e ri num mundo cujo surgimento ninguém pode entender. Essa dança e esse brinquedo são a música da vida, eu disse. A gente os encontra em todos os lugares em que há seres humanos, assim como em todo telefone há o sinal de linha.
Então você inclinou a cabeça para trás e olhou para mim. Entendeu pelo menos a parte do sinal de discar no telefone. Você adora tirar o fone do gancho só para ouvi-lo. Logo depois, Georg, eu lhe fiz uma pergunta, aliás, a mesma que quero fazer agora que você finalmente pode compreendê-la. Foi por causa dessa pergunta que lhe contei a longa história da garota das laranjas.
Eu disse: “Imagine que, há muitos bilhões de anos, no momento em que tudo foi criado, você estivesse no umbral desse conto de fadas. E tivesse a opção de nascer neste planeta se quisesse. Não saberia quando ia viver nem quanto tempo passaria aqui, mas, fosse como fosse, seria apenas questão de alguns anos. Só saberia que, se decidisse um dia nascer neste mundo, quando chegasse a hora ou, como se diz, quando ‘o ciclo se completasse’, teria de deixá-lo e a tudo quanto nele existe. Talvez isso o contrariasse bastante, pois muita gente acha a vida neste grande conto de fadas tão maravilhosa que chega a ficar com lágrimas nos olhos só de pensar que isso vai acabar. Tudo aqui pode ser tão bom que dói pensar que um dia não haverá outros dias”.
Você ficou caladíssimo no meu colo. E eu disse: “O que você escolheria, Georg, se um poder superior lhe desse a possibilidade de escolher? A gente pode imaginar, quem sabe, uma fada cósmica nesta grande e enigmática aventura. Você teria optado por uma vida nesta Terra, breve ou longa, dentro de cem mil ou cem milhões de anos?”.
Eu devo ter respirado fundo duas vezes, antes de continuar falando; então, prossegui com voz firme: “Ou teria se recusado a participar deste jogo por não poder aceitar as regras?”.
Você continuou em silêncio no meu colo. Eu queria muito saber no que estava pensando. Você era um milagre vivo. Achei que o seu cabelo louro como o trigo cheirava a tangerina. Um anjo de carne e osso, cheio de vida.
Você não tinha adormecido. Mas não disse nada.
Estou certo de que ouviu as minhas palavras, inclusive é possível que tenha prestado muita atenção. Mas eu não tinha a menor ideia do que se passava dentro de você. Nós estávamos tão perto um do outro. E, mesmo assim, de repente, ficamos terrivelmente distantes.
Eu o abracei com mais força, talvez você tenha pensado que era para aquecê-lo. Mas eu o traí, Georg, porque comecei a chorar. Isso eu não queria, e tratei de me recompor o mais depressa possível. Mas não consegui conter as lágrimas.
Nas últimas semanas, eu me fiz essa pergunta várias vezes. Teria optado por uma vida na Terra se soubesse que um dia seria arrancado tão subitamente daqui, talvez no momento mais feliz da minha existência? Ou será que teria agradecido e rejeitado de pronto esse jogo absurdo do “dá e toma”? Porque a gente vem uma única vez a este mundo. É entregue a essa grande aventura. E então chega um ratinho e o conto de fadas se acaba.
Não, juro que não sei qual seria a minha escolha. Acredito que teria repelido essas condições. Talvez respondesse com um delicado “não” à oferta de participar dessa grande aventura, se fosse apenas em uma visita breve, e talvez o meu “não” nem fosse tão delicado assim. Pode ser que gritasse que não queria ouvir mais nenhuma palavra sobre esse maldito dilema. Foi o que imaginei; no momento em que estava na varanda, com você no colo, tive plena certeza de que recusaria totalmente a oferta.
Se eu tivesse optado por não meter o nariz nesta grande aventura, nunca saberia o que estava perdendo. Você entende o que quero dizer? Para nós, seres humanos, às vezes é muito pior perder uma coisa que amamos do que nunca ter tido essa coisa. Pense bem: se a garota das laranjas não houvesse cumprido a promessa de passar seis meses se encontrando comigo todos os dias quando voltasse da Espanha, para mim seria melhor nunca tê-la conhecido. Também é assim nos outros contos de fada. Você acha que a Gata Borralheira teria voltado ao palácio com o príncipe se lhe dissessem que só poderia passar uma semana lá? O que você acha que ela sentiria se tivesse de retornar à sua vida de outrora, ao fogão e às cinzas, à madrasta malvada e às irmãs invejosas?
Agora é a sua vez de responder, Georg, agora você tem a palavra. Pois foi quando nós dois estávamos contemplando o firmamento, na varanda, que eu tomei a decisão de lhe escrever esta longa carta. Aliás, foi justamente no momento em que chorei. E não chorei só por saber que talvez muito em breve me separaria de você e da garota das laranjas. Chorei porque você era tão pequeno. Chorei porque nós dois não podíamos conversar de verdade.
Vou perguntar mais uma vez. Qual seria a sua decisão se você tivesse a possibilidade de escolher? Optaria por uma vida breve aqui na Terra, para depois de poucos anos separar-se de tudo e nunca mais voltar? Ou diria “não, obrigado”?
Você só tem essas alternativas. É a regra. Se optar pela vida, também está optando pela morte.
Mas, olhe: prometa que vai refletir muito antes de responder.
Talvez eu tenha ido longe demais. Talvez esteja fazendo você sofrer. E talvez não tenha esse direito. Mas para mim é importantíssimo saber que resposta você daria à minha pergunta, porque eu sou diretamente responsável pelo fato de você estar aqui. Você não estaria no mundo se eu tivesse me recusado a ele.
Estou com uma espécie de sentimento de culpa por haver contribuído para pôr você neste mundo. De certo modo, eu lhe dei a vida, junto com a garota das laranjas, é claro. Mas, por outro lado, também somos nós que um dia tornaremos a tomá-la. Dar a vida a uma criancinha não significa apenas lhe dar o mundo de presente. Também significa um dia tomar dela esse presente inconcebível.
Tenho de ser franco com você, Georg. Pois digo que rejeitaria delicadamente a oferta de uma rápida viagem à grande aventura. Assim me parece. E se essa também for a sua opinião, fico com remorso ao pensar na besteira que fiz.
Eu me deixei seduzir pela garota das laranjas, deixei-me atrair pelo amor, achei irresistível a ideia de ter um filho. “Onde foi que errei?”, pergunto. Para mim, essa pergunta significa um conflito brutal de consciência. E ela traz consigo a necessidade de deixar um pouco de ordem atrás de mim.
Mas, Georg, agora pode surgir um novo dilema, e um dilema que talvez não seja tão difícil – ou maligno – quanto o primeiro. Se você responder que, apesar de tudo, teria optado pela vida, ainda que fosse por um momento brevíssimo, eu não posso desejar nunca ter nascido.
Desse modo a equação ainda pode dar certo, desse modo pode ser que se estabeleça um equilíbrio. E essa, naturalmente, é a minha esperança. Sim, por isso escrevo.
Você não pode responder diretamente a minha grande pergunta. Mas indiretamente pode. Pode responder pelo modo como quer viver essa vida que começou quando Veronika, eu e um médico meio irresponsável brindamos com champanhe à sua chegada, Esse médico do champanhe era a sua fada protetora, tenho certeza disso.
Agora você pode deixar de lado esta minha saudação. Agora é a sua vez de viver.
[...]
Georg! Uma última pergunta ainda: posso mesmo ter certeza de que não há outra existência depois desta? Posso ficar convencido de que não estarei em algum lugar quando você ler esta carta? Não, certeza absoluta eu não posso ter. Pois, se o mundo existe, todos os limites da improbabilidade já foram ultrapassados. Entende o que eu quero dizer? Já estou tão assombrado com o fato de existir um mundo, que não tenho lugar para mais assombro se constatar que existe outro depois dele.
Lembro que, há dois dias, nós passamos algumas horas às voltas com um jogo de computador. Talvez esse jogo tenha sido especialmente bom para mim, eu estava precisando muito de algo que me distraísse dos tantos pensamentos que me perseguiam. Mas sempre que a gente “morria” nesse jogo, aparecia um novo cenário onde recomeçar. Quem garante que não há um novo “cenário” para a alma? Eu não acredito, palavra que não. Mas o sonho do improvável tem nome. Chama-se “esperança.

A Literatura e a vida
Não me canso de afirmar que a literatura me propõe motivos para mergulhar em questões existenciais. Todorov, em A Literatura em Perigo3, discorre belamente sobre essa relação entre arte literária e vida:
...não posso dispensar as palavras dos poetas, as narrativas dos romancistas. Elas me permitem dar forma aos sentimentos que experimento, ordenar o fluxo de pequenos eventos que constituem minha vida. Elas me fazem sonhar, tremer de inquietude ou me desesperar.
Penso que Jostein Gaarder, escritor e professor de Filosofia, escreva ficção (muitos conhecem seu livro O Mundo de Sofia) para tornar mais compreensíveis e acessíveis os temas filosóficos, ao aproximá-los da concretude da vida: assim, fabulando experiências e vivências, alimenta a reflexão filosófica do leitor. Cito, ainda, Todorov:
Seja por monólogo poético ou pela narrativa, a literatura faz viver as experiências singulares; já a filosofia maneja conceitos. Uma preserva a riqueza e a diversidade do vivido, e a outra favorece a abstração, o que lhe permite formular leis gerais. É o que faz com que um texto seja absorvido com maior ou menor grau de dificuldade.
A você, companheiro/a de leitura, a carta de Jan Olav serviu para refletir ou argumentar sobre algum aspecto concreto que vive ou viveu? Já se viu às voltas com indagações como as ali colocadas? Encontrou respostas? Ou, apenas, evita pensar sobre aquelas questões?
Nós, humanos, construímos laços amorosos fortes, desde o nascimento. Por isso, admitamos, é tão difícil encarar a morte, nossa ou de quem quer que seja.
Despeço-me, com mais um pouco da carta de Jan Olav (grifei o que mais me toca):
Ninguém se despede chorando da geometria euclidiana nem da tabela periódica dos átomos. Ninguém derrama uma lágrima que seja por estar se separando da internet ou da tabuada. É de um mundo que nos despedimos, é da vida, é do conto de fadas e da aventura. E, além disso, temos de nos despedir de um pequeno número de pessoas que realmente amamos.
Mas não nos esqueçamos, também, que:
...o sonho do improvável tem nome. Chama-se “esperança.
Meu abraço.
1 www.folha.uol.com.br/, 23/04/2020.
2 GAARDER, Jostein. A garota das laranjas. São Paulo: Companhia das letras, 2005.
3 TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.