quarta-feira, 27 de março de 2019

Quando a palavra põe em xeque o poder



Alguém duvida de que a palavra, quando bem aplicada, pode mexer com reputações e com nosso mundinho?
Respondo com Millôr. Fazendo uso da lição fabular, com humor e leveza, sua narrativa desmonta o pretensamente poderoso, que só o é, até encontrar alguém que o enfrente.

O Rei dos Animais
Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar. Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses.
Assim, o Leão encontrou o macaco e perguntou: "Hei, você aí, macaco – quem é o rei dos animais?" O macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: "Claro que é você, Leão, claro que é você!".
Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: "Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?" E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: "Currupaco... não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?".
Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade. Encontrou a coruja e perguntou: "Coruja, não sou eu o maioral da mata?" "Sim, és tu", disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. "Tigre – disse em voz de estertor –, eu sou o rei da floresta. Certo?" O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: "Sim". E rugiu, ainda mais mal-humorado e já arrependido, quando o Leão se afastou.
Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: "Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?" O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensanguentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou: "Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado".
M O R A L: Cada um tira dos acontecimentos a conclusão que bem entende.
[FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: José Álvaro Ed.1964.]

Mas algo não está certo...
... Dirá o leitor.  E argumentará que o título da matéria traz um equívoco, pois quem desmoralizou o falso poder foi a força bruta do elefante, não palavra ou palavras! Verdade, leitor. No universo da narrativa – do enunciado, daquilo que é contado –, a força venceu a empáfia e conseguiu calar a fala do supostamente poderoso Leão.
Entretanto, no universo do narrador – da enunciação, da escrita –, a palavra organiza-se de modo a tangenciar a realidade e denunciar os pés de barro de supostos ídolos que não resistem a uma análise aprofundada, a um olhar mais objetivo. É nesta esfera do “como se diz” que a palavra do narrador – irônica, ferina, contundente – toma para si o poder e, por meio do ridículo, arrasa poderes débeis ou falsificados.
Desse modo, o narrador nos apresenta personagens que confirmam a superioridade do leão não por convicção, mas por motivos particulares: o macaco o adula por medo; o papagaio repete o que ouviu do próprio leão, pelo hábito de concordar sem refletir; a coruja concorda por ser esperta, e o tigre o faz por covardia ou impotência.
Já o elefante “fica na sua” e – grande ironia! – “amansa” o pretenso rei, que não consegue revidar à única linguagem que ele próprio usa e compreende: a da força bruta.
Mas não é só o uso da força que fere o leão; também, e talvez mais potente, seja o silêncio desdenhoso, a humilhação do oponente pela negação do diálogo.
Fica o modelo, para entendermos nossa própria realidade: a palavra, dita ou silenciada no momento certo pode ser força preciosa para tirar a máscara – desvestir e desmontar – indivíduos que usam o poder insensível e despoticamente.
Concluo, devolvendo a palavra a Millôr, que aclara a função didática da fábula e do texto de humor: “O último refúgio do oprimido é a ironia, e nenhum tirano, por mais violento que seja, escapa a ela. O tirano pode evitar uma fotografia, não pode impedir uma caricatura. A mordaça aumenta a mordacidade.”

Abraços.

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