domingo, 16 de dezembro de 2018

Natal com leveza


Passamos por momentos tensos e difíceis, neste ano. Concordam, meus amigos?
Penso que alguns responderão que nem tanto, pois todo ano é assim; outros, como eu, afirmarão que 2018 foi mais pesado, difícil de carregar: nós, brasileiros, confrontamo-nos com nossas próprias contradições e angústias; até com a qualidade e sinceridade de nossos relacionamentos; até, ainda, com nossa própria identidade enquanto cidadãos, sociedade e povo.
Por tudo isso, decidi-me por um texto bem-humorado para marcar este Natal. Trago Drummond, com sua ótica inteligente e brincalhona, mas, ao mesmo tempo, agudamente crítica. Seu “Papai Noel” comparece em cena brasileira e com hábitos modernos – mas, digamos, não muito recomendáveis...
Papai Noel às Avessas
Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papais-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças.
Papai entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celuloide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por
causa do aperto.
Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.
Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.

[ANDRADE, Carlos Drummond de.  Alguma poesia. In Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

Ao leitor não devem ter passado despercebidos os toques mordazes de Drummond, em sua história de um Natal adaptado à realidade brasileira. Aponto alguns.
Em primeiro lugar, o cenário.  Não é um Natal mágico, este que o poeta descreve. Nada se ilumina ou ganha vida; ao contrário, as “coisas” continuam, conformadamente, a ser simples coisas no mistério do Natal.
Em segundo lugar, a personagem. O velhinho não pode ser chamado de “bom”, mas pode, com justeza, ser chamado de esperto: entra sorrateiro – pela porta dos fundos; cauteloso que nem marido depois da farra – e logo vai fartar-se, na cozinha, com o queijo que encontra (é bem o rato-gatuno roubando um queijo). Em seguida, quase acende um cigarro, e não o faz, apenas por medo de incendiar as falsas barbas – as quais, aliás, apontam para o hábito de importarmos costumes estrangeiros, como o Papai Noel barbudo e bem agasalhado dos países frios.
Agora, o enredo, em seu ponto principal. O clímax (toda narrativa tem um clímax e, aqui, temos exatamente uma narrativa poética1) vem com a ação no quarto dos meninos, onde e quando o Papai Noel, em vez de presentear, rouba todos os brinquedos. Pronto, está, de vez, desfeita a magia, e destruído o mito do bom velhinho.
Alongando um pouco mais nossa leitura, poderemos ver a confirmação do avesso do mito em outros detalhes. Notem que a barba postiça não é mais que um disfarce para não mostrar a face verdadeira – a “cara raspada” – de quem tem algo a esconder.
Os próprios brinquedos (qual a criança que não os espera?) são presentes indesejáveis, pois os meninos sonham com outros natais. Releiam esta estrofe e reparem na conjunção adversativa, além da falta de pontuação, que parece embolar todos os objetos nos sapatos. Todos, menos o presidente de república, destacado pela conjunção aditiva, mas rebaixado a ser de celuloide:
Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celuloide.

O emaranhado todo parece mais um pesadelo que um sonho, e um pesadelo que retrata uma realidade na qual todos, indiscriminadamente (coisas, pessoas, autoridades), são postos a brigar no mesmo “saco”.  Que não é propriamente saco, mas um grande “lenço de alcobaça”, que se adivinha não ser muito limpo, por sua utilidade, pois é “também [...] chamado [de] lenço tabaqueiro, por ser usado principalmente pelas pessoas que cheiravam rapé (tabaco em pó), para limpar a secreção nasal provocada pela inalação da substância”2.
A crítica, a esta altura, parece mais dura e menos sorridente. Parece que também o poeta usou o disfarce brincalhão, a palavra velada, para apontar problemas mais sérios...
O eu poético só deixa como verdade o nascimento de Cristo. No mais, não há anjos nem cânticos. E o luar de Natal abençoa, tão só e prosaicamente, os legumes da horta.
Bem, nesse caso, onde está o Natal com leveza, que prometi? – devem estar-se perguntando os leitores. E eu respondo: a leveza está na crítica certeira e séria, mas sem ferocidade raivosa e aniquiladora. Ridendo castigat mores... lembram-se?
1 Ou, se quiserem, um poema narrativo.
2 Mais detalhes em Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Len%C3%A7o_de_Alcoba%C3%A7a.

Um convite
Drummond, em outro poema, revela-se ainda crítico, mas um pouco nostálgico, ao descrever a modernização do Natal de sua época. (Lembremos: Drummond viveu de 1902 a 1987, e o poema foi publicado em livro de 1930.)
Que tal, após a leitura, cada um de nós meditar – e, quem sabe, escrever – sobre seu próprio sentimento, em relação à data? Indiferença? Expectativa? Melancolia? Nostalgia?...
Ah!, e não deixem de notar como a repetição da palavra “Natal”, isolada nos versos, faz lembrar o toque do sino natalino. (Há outros detalhes interessantes que deixo à leitura de cada um.)

O Que Fizeram do Natal
Natal.
O sino longe toca fino,
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mas as filhas das beatas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.
[ANDRADE, Carlos Drummond de.  Alguma poesia. In Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

Com meu abraço fraterno, desejo a todos os amigos
um bom – e verdadeiro! – Natal.

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