segunda-feira, 5 de novembro de 2018

... Minha vã filosofia



Caro leitor, caríssima leitora, chega de análises!
Debruçar-me sobre questões de literatura, de língua, de gramática, de textos, é minha vida e meu prazer  (embora não seja toda minha vida e todo meu prazer).
Entretanto, há dias em que me dá vontade de pausar estudos, pesquisas, escritos. Sentem o mesmo, em certos momentos da vida? Sentem desejo incontrolável de não trabalhar, mudar de rumo, ficar à toa na vida?
Creio que a resposta é sim. E estamos, eu e vocês, em boa companhia: a de escritores renomados. (Claro que eu poderia falar de outras personalidades, mas, como este é um espaço primordialmente para leitura e escrita, cito apenas escritores.)
Os motivos para o desejo de inércia são variados. Começo por recordar, aqui, os de dois escritores, Drummond e Rubem Braga, citados em matéria antiga (05/08/2014).
Rubem Braga, na crônica Ao respeitável público, faz-se de mal-humorado e, cansado do ofício de cronista, sem a menor cerimônia, revolta-se contra os leitores, como aqui:
Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!
Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que vem aí no fim da semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante [...]
Portanto, meu distinto leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. Não leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos; que vocês todos são pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo sinceramente que todos tenham um péssimo Carnaval, uma horrível quaresma, um infelicíssimo ano de 1934, uma vida toda atrapalhada, uma morte estúpida!
Sem tanto ímpeto, mas com rebeldia parecida, Drummond escreve sobre o desânimo que o leva a não escrever, em Hoje não escrevo, e se autocensura por, além de perder o mundo lá fora, julgar-se maior ou melhor que os demais seres humanos:
Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.
[...]
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara de pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo [...].
A nós, tão acostumados ao trabalho, parece pecado entregarmo-nos à preguiça. Dói a consciência, acostumada à disciplina; dói o cérebro, habituado à concentração, doem (ironia...) os músculos do corpo, não acostumados ao relaxamento, e libertos, enfim, da servidão diária do tempo e da pressa. Além do mais, parar o trabalho significa deixar de correr em busca de tantos objetivos e ter de esquecer tantas ambições!
Diante disso tudo, senti que precisava de um argumento convincente para os dias ou semanas em que me entregasse ao nada fazer.
E encontrei, amigos e amigas deste cantinho que chamo de nosso! Foi em Rubem Alves: descobri, em seu bom humor e em sua argumentação docemente filosófica, o elogio da preguiça que me faltava.
Por isso, sem demora – e sem preguiça –, eu os convido a ler o texto de Rubem Alves que salvou minha vã e precária filosofia de justificação de um far niente verdadeiramente dolce e sem culpas.

Filosofia do gato
Olho para o meu gato e medito. Medito teologias. Diziam os teólogos de séculos atrás que a harmonia da natureza deve ser o espelho onde os seres humanos devem buscar suas perfeições. O gato é um ser da natureza. Olho para o gato como um espelho. Não percebo nele nenhuma desarmonia. Sinto que devo imitá-lo.
Camus observou que o que caracteriza os seres humanos é a sua recusa a serem o que são. Eles não estão felizes com o que são. Querem ser outros, diferentes. Por isso somos neuróticos, revolucionários e artistas. Do sentimento de revolta surgem as criações que nos fazem grandes. Mas nesse momento eu não quero ser grande. Quero simplesmente ter a saúde de corpo e de alma que tem o meu gato. Ele está feliz com a sua condição de gato. Não pensa em criações que o farão grande.
Ele dorme. Nesse momento ele é um monge budista: nenhum desejo o perturba. Desejos são tremores na placidez da alma. Ter um desejo é estar infeliz: falta-me alguma coisa, por isso desejo... Do desejo nasce a insônia. Não tenho sono porque o desejo não me deixa dormir. Mas para o meu gato nada falta. Ele é um ser completo. Por isso ele pode se entregar ao calor do momento presente, sem desejar nada. E esse “entregar-se ao momento presente sem desejar nada” tem o nome de preguiça. Preguiça é a virtude dos seres que estão em paz com a vida.
Por pura brincadeira, escrevi um livrinho sobre demônios e pecados. Os demônios continuam soltos pelo mundo do jeito como sempre estiveram. Só que agora fazem uso de disfarces. Até se rebatizaram com nomes diferentes, científicos. Lidando com os demônios, eu usei palavras filosóficas e psicanalíticas de exorcismo. Lidando com os pecados, eu usei palavras éticas de condenação.
Tudo ia muito bem até que cheguei ao pecado da preguiça, que deveria ser condenado. Preguiça é fazer nada. Nossa tradição religiosa nada sabe da espiritualidade oriental do Taoísmo que faz do “fazer nada”, “wu-wei”, a virtude suprema.
E aí, então, aquilo que deveria ser uma condenação do pecado da preguiça virou um elogio às delícias e virtudes da preguiça.
Alguém disse que preferia os gatos aos cachorros, porque há cães com vocação e profissão policiais, mas não há gatos policiais nem por vocação nem por profissão. Policiais existem para fazer cumprir a lei, o dever. Dentro de mim, desgraçadamente, mora aquele cão policial a que Freud deu o nome de “superego”: ele rosna ameaças e culpas, todas as vezes em que me deito na rede.
Meu gato, na sua imperturbável preguiça, me dá uma lição de filosofia. Não me dá ordens. Ele deve ter aprendido do Tao-Te-Ching que diz que o homem verdadeiramente bom não faz coisa alguma...
Estou velho e quero que me seja dado o privilégio de me entregar à filosofia do meu gato: fazer nada. Com consciência limpa, repetir com Fernando Pessoa: “Ai que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer...”
Assim, proponho que se acrescente aos direitos humanos já escritos, um outro, para os velhos: “Todos os velhos têm o direito à felicidade da preguiça”. Pois, como o Riobaldo disse: “Ah, a gente, na velhice, carece de ter uma aragem de descanso...”
Assim, “vou descansar meu fardo no chão,
À margem do rio...
Não vou mais me preocupar com a guerra...
Vou pôr no chão minha espada e meu escudo,
À margem do rio...
Como o está fazendo agora o meu gato, dormindo deitado sobre a minha mesa de trabalho.
ALVES, Rubem. Disponível em: http://zelmar.blogspot.com/2009/10/filosofia-do-gato.html.

Confessem...
Quais os motivos que cada um de vocês – velhos, moços, mais ou menos velhos, mais ou menos moços – tem para trocar as obrigações por um dolce far niente?
Não deixem de me dizer, para que eu colecione mais razões para minhas preguiças...
Um abraço, relaxado e caloroso (não, nunca preguiçoso).