segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Para encarar o presente



Em 29/12/2015, comentei e publiquei alguns poemas de Drummond. Ao relembrar seu nascimento (o poeta itabirano, brasileiro e universal nasceu em 29/10/1902), permito-me repetir um daqueles poemas (e o comentário), pela sua atualidade e pertinência ao hoje brasileiro e mundial. Na época, escrevi:
A insegurança – nacional e universal – em que vivemos torna bastante atual o poema que Drummond publicou em 1945. O leitor é defrontado com a palavra medo, inúmeras vezes repetida, como uma sirene a alertar para o perigo da fixação do terror.
No entanto, que sejamos conduzidos, tal como o eu poético sugere, por caminhos mais abrangentes que aquele da angústia paralisante, pois: “O medo, com sua física, / tanto produz: carcereiros, / edifícios, escritores, / este poema; outras vidas”.1
Referia-me ao poema que vem a seguir.

O medo

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

Nós e nossos filhos, herdeiros do medo...
Deixo aqui minha esperança de que o medo, que tudo é capaz de produzir, também produza ações afirmativas e vidas solidárias.
Porque, se “em verdade temos medo”, nossa realidade coletiva pode e deve fazer brotar a flor da vida construtiva. Uma flor que, mesmo sendo, por enquanto, mirrada e feia, tem em seu miolo-coração a força das sinceras intenções e dos grandes destinos. Como aquela cantada por Drummond, em outro lugar: É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
E não podemos nos esquecer do alerta drummondiano, contido em outro de seus poemas:

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.

Abraços fraternos, esperançosos e sem medo.

1 Os poemas aqui citados encontram-se em: ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1963; e Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

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