sábado, 29 de setembro de 2018

Uma crônica... moralizante (?)


A literatura diz a vida, no sentido de que nos faz abrir os olhos (com espanto ou indagação) ante iluminações de obscuros recantos de nossos pensamentos e alma. Poetas e prosadores, com sua sensibilidade, chegam a flagrar as outras intenções, por trás daquelas que desejamos mostrar. Foi o que pensei, por estes dias (uma vez mais...), ao ouvir e ler falas de políticos à cata de votos para as próximas eleições. 
Leitor ou leitora, sossegue: não pretendo chegar à generalização, sempre desaconselhável e indevida. Contudo, você não se pergunta o quanto de verdade haverá em certos discursos que pregam ética e moral, ou que delineiam projetos a serem executados?  Creio que sim, como eu. Por isso, duvidamos, criticamos, tornamo-nos desconfiados e até descrentes, diante do que este ou aquele candidato diz.
No entanto, seríamos nós, pobres mortais eleitores, diferentes? Éticos, moralistas, verdadeiros – eternamente? Sem deslizes?
Uma crônica de Luis Fernando Veríssimo expõe o que todos sabemos: o ser humano tende a buscar proveito e vantagem para se colocar confortavelmente no mundo. (Bem, se assim não fosse, seríamos anjos e não homens; e nossa morada não seria este planeta, concorda?)

No texto, sob a aparente intenção de preservação de laços conjugais, sucedem-se argumentos e contra-argumentos que...
Vou parar por aqui, pois, melhor que explicar, é ler a narrativa do cronista, com seu costumeiro humor e ironia – e, quem sabe, reconhecermo-nos nela.
Ah! Não deixem de prestar atenção ao título...

Os Moralistas
— Você pensou bem no que vai fazer, Paulo?
— Pensei. Já estou decidido. Agora não volto atrás.
— Olhe lá, hein, rapaz...
Paulo está ao mesmo tempo comovido e surpreso com os três amigos. Assim que souberam do seu divórcio iminente, correram para visitá-lo no hotel. A solidariedade lhe faz bem. Mas não entende aquela insistência deles em dissuadi-lo. Afinal, todos sabiam que ele não se acertava com a mulher.
— Pense um pouco mais, Paulo. Reflita. Essas decisões súbitas...
— Mas que súbitas? Estamos praticamente separados há um ano!
— Dê outra chance ao seu casamento, Paulo.
— A Margarida é uma ótima mulher.
— Espera um pouquinho. Você mesmo deixou de frequentar nossa casa por causa da Margarida. Depois que ela chamou vocês de bêbados e expulsou todo mundo.
— E fez muito bem. Nós estávamos bêbados e tínhamos que ser expulsos.
— Outra coisa, Paulo. O divórcio. Sei lá.
— Eu não entendo mais nada. Você sempre defendeu o divórcio!
— É. Mas quando acontece com um amigo...
— Olha, Paulo. Eu não sou moralista. Mas acho a família uma coisa importantíssima. Acho que a família merece qualquer sacrifício.
— Pense nas crianças, Paulo. No trauma.
— Mas nós não temos filhos!
— Nos filhos dos outros, então. No mau exemplo.
— Mas isto é um absurdo! Vocês estão falando como se fosse o fim do mundo. Hoje, o divórcio é uma coisa comum. Não vai mudar nada.
— Como, não muda nada?
— Muda tudo!
— Você não sabe o que está dizendo, Paulo! Muda tudo.
— Muda o quê?
— Bom, pra começar, você não vai poder mais frequentar as nossas casas.
— As mulheres não vão tolerar.
— Você se transformará num pária social, Paulo.
— O quê?!
— Fora de brincadeira. Um reprobo.
— Puxa. Eu nunca pensei que vocês...
— Pense bem, Paulo. Dê tempo ao tempo.
— Deixe pra decidir depois. Passado o verão.
— Reflita, Paulo. É uma decisão seriíssima. Deixe para mais tarde.
— Está bem. Se vocês insistem...
Na saída, os três amigos conversam:
— Será que ele se convenceu?
— Acho que sim. Pelo menos vai adiar.
— E no solteiros contra casados da praia, este ano, ainda teremos ele no gol.
— Também, a ideia dele. Largar o gol dos casados logo agora. Em cima da hora. Quando não dava mais para arranjar substituto.
— Os casados nunca terão um goleiro como ele.
— Se insistirmos bastante, ele desiste definitivamente do divórcio.
— Vai aguentar a Margarida pelo resto da vida.
— Pelo time dos casados, qualquer sacrifício serve.
— Me diz uma coisa. Como divorciado, ele podia jogar no time dos solteiros?
— Podia.
— Impensável.
— É.
— Outra coisa.
— O quê?
— Não é reprobo. É réprobo. Acento no "e".
— Mas funcionou, não funcionou?
[VERÍSSIMO, Luis Fernando. As Mentiras que os Homens Contam. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2000.]

Ridendo castigat mores...
Após a leitura, dá para sentir uma pontinha de semelhança com alguma atitude nossa, ou de alguém conhecido, não? Pode-se aplicar à crônica de Veríssimo a frase-título, acima: rindo, castiga / critica os costumes, pois que a crônica humorística presta-se bem a isso.
Reforço e amplio: a crônica literária em geral – e a de humor, em particular –, muitas vezes, diz-nos o mundo e a vida, talvez mais que o conto, por exemplo. É que “no conto, inventam-se histórias; na crônica, predominantemente, evidenciam-se histórias 1” – as nossas histórias, não, querido leitor?
Até outro dia.
Abraços. (Sinceros!)
CARDOSO, J. A. Crônica Literária no Jornal: História, Estrutura e Funcionamento. 2010. Disponível em:
www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=157333


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