sábado, 25 de agosto de 2018

Agosto, sem desgosto



Agosto, mês de desgosto... Que nada, isso é folclore!
Isso mesmo: agosto, mês do folclore, hoje em dia pouco lembrado, a não ser em escolas. Nosso ambiente intelectualizado e tecnológico não se importa com o tema...
No entanto, os saberes da cultura popular tradicional englobam histórias, maneiras de plantar e colher, pratos regionais, artes, simpatias, remédios caseiros e inúmeros hábitos incorporados à nossa vida cotidiana.
Ainda hoje acreditamos (e fingimos não acreditar...) que passar embaixo da escada dá azar; que pular fogueira de São João dá sorte; que levantar da cama tem de ser, sempre, com o pé direito, para o dia correr bem; que pular sete ondinhas, na passagem do ano, assegura felicidade o ano todo. Nós, citadinos, recontamos lendas urbanas, preservamos as festas juninas e o carnaval. Recebemos visitas com o cafezinho nunca rejeitado, degustamos gostosamente a feijoada, o arroz de carreteiro, o vatapá, a couve à mineira... Ufa! Impossível citar tudo!
Há alguns dias, eu, paulista, relatei a uma amiga baiana a simpatia que fazíamos na adolescência, quando chovia seguidamente na praia ou nos dias de passeios e jogos ao ar livre. Era preciso espantar a chuva indesejada! Então, colocávamos um ovo no chão e ficávamos em volta, cantando para Santa Clara: “Santa Clara clareou / São Domingo alumiou / Vai chuva, vem sol / Vai chuva, vem sol”.
Havia quem colocasse o ovo no muro da casa; havia quem colocasse apenas a clara do ovo: essas variações de conduta espelhavam o aprendizado familiar, grupal ou regional.
Minha interlocutora conhecia – e usava, em sua terra – um modo diferente de pedir a Santa Clara, ainda mais que o objetivo era bem outro: secar a roupa lavada. Quero partilhar essa e outras duas receitas que ouvi dela, com a certeza de que levarão a memória do leitor até experiências parecidas e igualmente interessantes. O reconto é de minha responsabilidade, com algumas falas que anotei de minha amiga, que preferiu não ter o nome publicado.

Receitas que “dão certo”
Para cessar a chuva
Quem vive em zona rural, sabe muito bem como o sol é amigo da lavadeira. Quando ele não vem, o jeito é recorrer a Santa Clara. Para isso, é preciso arranjar uma barra de sabão virgem (isto é, sem uso) e colocá-lo na ponta de um pau de cerca, recitando:
“Santa Clara, eu preciso secar minhas roupas e você precisa lavar as suas. Eu lhe dou o sabão pra você lavar as suas, e você me dá o sol, pra eu secar as minhas.”
Diz a informante: “Já fiz em São Paulo, com o sabão em cima do muro, e deu certo!”
Para curar terçol
Em muitas regiões, essa inflamação dos olhos é conhecida como “três sol” – o que parece explicar a própria simpatia. É preciso esfregar três caroços de milho no terçol, sendo um em cada sexta-feira, ao nascer do sol, dizendo: “Assim como este sol nasce, há de sair este três sol dos meus olhos.”
Explicando melhor: “Tem que fazer três sextas-feiras em seguida: cada sexta, um caroço de milho. E jogar o caroço fora, no sentido que o sol nasce.”
Para menino cambota
Se um menino nasce de pernas tortas (cambota, cambaio, cambuta, de “perna de xis”), é bom esperar as festas de São João ou de São Pedro. Nessas datas, nas cidades ou no terreiro da roça, é “plantada” (fincada, na verdade) uma pequena árvore, com tronco razoavelmente grosso, num buraco ao centro de onde se realizará a festa.  
Na primeira sexta-feira depois que acabar a festa, tira-se a árvore do buraco e coloca-se a perninha torta da criança no buraco, por três vezes. “Enfiar bem, mas o tanto que o menino aguente, sem machucar. Demora uns meses. No ano que vem, na festa, a perna já está certinha.”

E por falar em receitas... 
De passagem, mais acima, toquei no costume brasileiro de receber visitas com o nosso cafezinho. Volto a ele.
Do cultivo à colheita e aos rituais do consumo em horas determinadas, o café está presente em nossa cultura. Em certos recantos, está, até, na medicina popular. Há quem diga que, para aliviar dor de cabeça, o melhor é fazer um mistura de manteiga e café e aplicá-la à testa. Minha avó materna jurava (e já ouvi de outras pessoas, ainda hoje) que beber café era um santo remédio para sua dor de cabeça...
E quanto ao prazer da bebida em si?
Na década de setenta, Maria Stella Libânio Christo, especialista em culinária, pesquisadora sábia e atenta, escreveu o livro Fogão de Lenha, com receitas e costumes alimentares da família mineira. Mais que simples catalogação de receitas, a escritora mostra a maneira como este ou aquele tipo de alimento era preparado ou servido, além da visão de autores consagrados, sobre a culinária mineira (Autran Dourado, Cora Coralina, Guimarães, Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e outros). Do livro, extraí este texto de Aníbal Machado, que ilustra bem o espírito do café entre nós:
Ó Estrangeiro, ó peregrino, ó passante de pouca esperança – nada tenho para te dar, também sou pobre e essas terras não são minhas. Mas aceita um cafezinho.
A poeira é muita, e só Deus sabe aonde vão dar esses caminhos. Um cafezinho, eu sei, não resolve o teu destino; nem faz esquecer tua cicatriz.
Mas prova... Bota a trouxa no chão, abanca-te nesta pedra e vai preparando o teu cigarro...
Um minuto apenas, que a água já está fervendo e as xícaras já tilintam na bandeja. Vai sair bem coado e quentinho.
Não é nada, não é nada, mas tu vais ver: serão mais alguns quilômetros de boa caminhada... E talvez uma pausa em teu gemido!
Um minutinho, estrangeiro, que teu café já vem cheirando...
[MACHADO, Aníbal. Cadernos de João. Rio de Janeiro, 19557. In: LIBÂNIO Christo, Maria Stella. Fogão de Lenha. Petrópolis: Ed. Vozes, 1977.]

Da importância do saber popular
A multiplicação de saberes expõe a vasta experiência de cada povo e de cada região. Conhecê-los torna-nos mais ricos em conhecimento e mais profundos em humanidade. Como disse Leonardo Boff:
Há um casamento que ainda não foi feito no Brasil: entre o saber acadêmico e o saber popular. O saber popular nasce da experiência sofrida, dos mil jeitos de sobreviver com poucos recursos. O saber acadêmico nasce do estudo, bebendo de muitas fontes. Quando esses dois saberes se unirem, seremos invencíveis.
Ah! Não me animo a terminar sem a voz saborosa de Maria Stella Libânio:
Na chapa quente do fogão, o bule passa o dia vigilante, sempre solícito a mais um gole.
 Café na hora e sem adoçar previamente, é só quando há visita de cerimônia. A caneca esmaltada, então, cede lugar à xícara de louça ou porcelana, e o açucareiro soleniza o gesto hospitaleiro.
[...]
Na cidade ou no campo, e, Minas, há sempre um aviso não escrito: cheguem-se, a casa é sua!
Uai! Desculpem alguma coisa...
[LIBÂNIO CHRISTO, Maria Stella. Fogão de Lenha. Petrópolis: Ed. Vozes, 1977.]


Companheiro leitor, que tal brindar-nos com algum costume ou receita de seu conhecimento, que revele um pouco mais de nossa multifacetada cultura?
Fico à espera e envio meu abraço.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Uma lenda para agosto, contada por Clarice


Mês de agosto, mês do folclore, recorri a uma contadora de histórias especialíssima  – Clarice Lispector –  à lenda que, um dia, reescreveu. 
(Triste lenda, que ainda serve de contundente advertência a nós, nestes tempos.)
O negrinho do pastoreio
Como é mês de agosto e faz um pouco de frio, vou contar uma história que aconteceu nos pampas do sul do país, talvez em Pelotas. Começa não muito bem, pois nesses pampas havia um homem muito rico, mau e sovina: nem restos de comida ele dava. Seu filho era um guri que herdara sua ruindade.  Esqueci de dizer que a história se passa no tempo da escravidão. E vou falar de um escravinho mais negro que carvão chamado exatamente de Negrinho. Não conhecia pai ou mãe e dizia que Nossa Senhora era sua madrinha. Apanhava do patrão e do filho que não era brincadeira. O homem ruim tinha um cavalo baio muito bonito e veloz, e um estancieiro vizinho desafiou-o dizendo: será que esse cavalo baio é bom na corrida? Já se sabe quem ia montar o baio sem sela: o Negrinho, é claro. Mas infelizmente o baio perdeu na corrida e o Negrinho levou uma surra que eu vou te contar. E como se não bastasse, mandaram-no tomar conta da tropilha do patrão. Era de noite, Negrinho estava todo machucado e com medo dos bichos que pudessem se achegar. Mas Nossa Senhora ajudou-o a adormecer. Eis senão quando ouviu-se um tiro de espingarda no ar: os animais se assustaram e se dispersaram pelas campinas. O estampido partira do filho do patrão. Mas quem levou nova surra foi o Negrinho. Mandaram-no procurar os cavalos. Enquanto isso, a noite estava ainda mais fechada. E não se via cavalo nenhum. Aí o Negrinho pegou um toco de vela que iluminava sua madrinha no oratório do homem ruim. E correu pelas coxilhas montado no baio, à procura dos cavalos dispersos. Aconteceu um pequeno milagre: cada vez que a vela abençoada pingava cera no chão, milhares de velinhas iam aparecendo para iluminar a noite. Com esse grande auxílio, o Negrinho encontrou os cavalos. E cansado adormeceu. O homem ruim tinha raiva até do sono do Negrinho e mandou um outro escravo dar chicotadas no garoto e colocá-lo junto de um formigueiro, só para chatear o menino.
Depois o patrão quis ver o moleque que devia estar todo roído de formigas. Mas junto do formigueiro estava o Negrinho perfeitamente sadio, com o baio e a tropilha. Espantado, o homem ruim mais espantado ficou, porque viu junto do escravinho a Nossa Senhora protegendo o Negrinho. O homem ruim se ajoelhou de medo e não de bondade. Quanto ao Negrinho, montado no baio, seguia corrida com a tropilha para sempre. Para sempre quer dizer que até hoje continua a corrida. E quem quiser, pode vê-lo. Quero dizer: se quiser muito mesmo. Só que durante uns dias de cada ano Negrinho some. Deve estar conversando com suas amigas formigas.
Qualquer gaúcho conhece esta história e muitos acham que o Negrinho ajuda a encontrar o que se perdeu, seja objeto, seja amor, seja felicidade sumida. Será que a moral desta história é que o bem sempre vence? Bom, nós todos sabemos que nem sempre. Mas o melhor é a gente ir-se arranjando como pode e dar um jeito de ser bom e ficar com a consciência calminha.
[LISPECTOR, Clarice. Como Nasceram as Estrelas: Doze lendas brasileiras. Editora Nova Fronteira, 1996.]


Repararam?

O negrinho do pastoreio era "chamado exatamente de Negrinho": um nome que não é bem nome, porque não identifica, não individualiza, não valoriza a pessoa em si. 

Nome genérico, como tantos outros usados por quem se julga superior, para marcar raça, cor, origem, classe social, condição física (tanto quanto "pobre", "gringo", "coxo", "estranja", "forasteiro", etc.) e manter distância entre pessoas, ainda hoje. 

Será que algum dia aprenderemos a lição da humildade, de que somos todos UM, e que só ações compassivas e generosas melhorarão nossa espécie?

Cético, Millôr Fernandes flagrou muito bem o ridículo presente no ser humano: "Dizem que quando o Criador criou o homem, os animais todos em volta não caíram na gargalhada apenas por uma questão de respeito".

Meu abraço, embora envergonhado e dolorido.