terça-feira, 10 de julho de 2018

Receita para escrever um texto... ou não (2)

Norman Rockwell
Promessa é dívida, e tarefa iniciada deve ser tarefa concluída. Portanto, devo completar a Receita (para escrever um texto), crônica de Antonio Prata, que publiquei em parte, no dia 30/06/2018.
Naquela ocasião, comentei, de sua longa e bem-humorada crônica, a introdução e as partes I e II, referentes: à escolha de palavras no dicionário (tal qual ingredientes para uma sopa, que escolhemos no mercado); às condições dessa escolha: “ritmo” e “adequação”, adaptados à receita da sopa – não, leitor, perdoe! – do texto.

A parte III ficou, também, ali registrada, com sua abordagem da pontuação como o condimento das palavras, responsável, conforme o cronista, por conferir sabor peculiar a cada texto.
Resta a quarta e última parte, um pouco mais extensa que as anteriores e que, talvez, exija atenção mais cuidadosa. Vamos, pois, a ela.
(Aqui, como na matéria anterior, assinalo em cor os trechos melhor ligados ao que comento.)

Receita
(Continuação)

Parte IV: Prosa e poesia
[A notar, neste início, um preconceito comum, em nossas escolas e sociedade: a prosa é considerada mais “consistente” que a poesia, e a esta convém dedicarem-se... o apressado ou o preguiçoso! Quanto à mancha do texto na página,  com a qual o escritor brinca, não é tão desimportante assim, não; ao contrário, é pista de leitura valiosa, principalmente aos que estão em processo de alfabetização.]
Tendo os ingredientes e os temperos todos à frente, é chegado um momento muito importante, a hora de se decidir que tipo de texto se quer escrever. Há somente dois, prosa e poesia. É muito fácil diferenciar um do outro: os de poesia são fininhos e as frases se colocam umas sob as outras, formando pequenos blocos. Ao final de cada um desses tijolinhos, pula-se uma linha e começa-se um novo. Os textos de prosa são mais consistentes, e as linhas ocupam toda a extensão da página, desde a margem esquerda até a direita. Se o autor é preguiçoso ou está terrivelmente atrasado para algum compromisso, convém fazer uma poesia. Nesse caso, vale a pena seguir alguns passos.
[O passo indicado abaixo ensina que bastam interjeições, exclamações e reticências, para dar ao texto certo ar poético. Desse modo, pelo avesso, o cronista expõe criticamente um modo de pensar bastante comum entre maus poetas e... maus leitores.]
1 — Volte ao dicionário e busque algumas interjeições como Oh! e Ah!. Não economize também nas reticências, exclamações e interrogações. São pequenos detalhes, mas muito úteis. Mesmo a mais simples das frases, se antecipada por uma dessas palavrinhas e seguida por esses pontos, ganhará um novo alento, uma vaguidão que facilmente será confundida com profundidade, como você pode comprovar no exemplo a seguir:
Antes:
Havia casas azuis.
Depois: 
Oh! Havia casas... Azuis?!
[Agora, o texto em prosa. O que vem a seguir faz-nos lembrar a quantificação das redações escolares, com o número mínimo e máximo de linhas e parágrafos.
[Por outro lado, além de recordar os “pontos essenciais” que indicou nas partes anteriores, ao dizer, sobre as palavras, que “não é preciso lavá-las nem deixá-las de molho”, o cronista reforça que se trata de receita, com regras e passos prontinhos – ou seja, não é preciso pensar muito, pois, atualmente, sentido, coerência, clareza parecem não estar mais em moda.]
Caso o futuro autor disponha de mais tempo e motivação, e deseje escrever um texto em prosa, não encontrará grandes dificuldades. Basta pegar todas as palavras previamente selecionadas e dispô-las sobre a página. Não é preciso lavá-las nem deixá-las de molho. Tente sempre mesclar as pequenas, médias e grandes. Lembre-se de que os pontos, as exclamações e interrogações vão sempre ao final das frases, e os acentos em cima das palavras. A cada seis ou sete linhas, termine uma frase no meio da folha e comece outra embaixo, depois de um espaço. Isso se chama parágrafo.
Os antigos pergaminhos da Checoslováquia demonstram alguma preocupação quanto à importância do sentido e da clareza em um texto. As últimas pesquisas norte-americanas, no entanto, provam que essas questões são absolutamente irrelevantes. Uma rápida visita a uma biblioteca demonstrará que há textos dos mais absurdos impressos por aí, e que nem a clareza nem o sentido são as características que fazem deles clássicos ou novelinhas baratas, exemplares da Academia Brasileira de Letras ou calço para mesas.
Por último, cabe destacar que um texto, ao contrário de uma sopa, não alimenta, não esquenta, nem pode ser servido com conchas. Assim como até hoje não tive notícias de nenhuma ONG ou instituição beneficente que saia pelas madrugadas frias distribuindo textos e cobertores para mendigos (embora não seja uma má idéia). Não podemos deixar de mencionar que um texto resulta mais prático que uma sopa, pois pode ser guardado na estante da sala e não precisa ser resfriado nem muito menos congelado.
Apesar das considerações anteriores, é impossível provar a superioridade de um texto sobre uma sopa ou vice-versa. Mesmo porque, é possível encontrar tanto letras em boas sopas, quanto sopas nas boas letras. Assim sendo, vamos ficando por aqui. Afinal, os textos e as sopas, os mercados e os dicionários, as palavras grandes, os ingredientes, eu, você, os cientistas norte-americanos e os pergaminhos da Checoslováquia nos assemelhamos numa única coisa: todos, em algum momento, chegamos ao fim.
1PRATA, Antonio. Disponível em: http://www.releituras.com/antonioprata_receita.asp.

Por último...
Como Antonio Prata, chego também ao fim. E se, por último, ele conclui pela menor utilidade e maior praticidade do teto em relação à sopa, eu termino por afirmar que um bom texto e uma boa sopa são igualmente ótimas companhias para estes dias friozinhos (ou nem tanto) de inverno.
Um abraço aquecido a todos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário