quinta-feira, 14 de junho de 2018

Ainda há espaço para a arte?

Processo criativo de crianças sobre o tema: O que te dá medo?

Nosso mundo é ruidoso, vertiginoso, mutável, angustiante. Nele, é imperativo vencer. E vence quem chega primeiro, quem primeiro domina a tecnologia, quem se faz ver e ouvir com mais vigor...
Competir, vencer: haverá ainda, aí, lugar para a arte? Haverá, nas famílias, atenção para a arte? Haverá, nas escolas, formadoras de consciências e construtoras de saberes, lugar para a arte? Num sistema educacional em que se privilegiam habilidades de língua e matemática (lembra-me o antigo “ler, escrever, contar”...) há espaço para a sensibilização mediada pela arte?
A arte-educadora e instrumentista Renata Facury tem algo a dizer sobre isso, fruto de sua experiência artística e de seu trabalho com crianças e adolescentes. Partindo da importância de uma escuta ampla e sensível, Renata reflete sobre a necessidade da arte na educação, em que pesem os novos tempos.

A escuta. O tempo. A arte.
Renata Facury
Quando penso em escuta, no seu sentido mais amplo, penso, antes de tudo, em relações. Relações que começam interiores, nós com nós próprios, e ampliam-se, chegando ao outro, ao ambiente em que estamos, ao ambiente do outro lado da porta, ao mundo. Um mundo que gira em velocidade vertiginosa, e num tempo que urge.
Que tempo tenho eu para escutar alguma coisa? Sei que meu coração bate depressa e aflito, pois estou sempre com pressa. Então... como parar para escutar? Para ver? Para olhar? Para admirar?
Como?
Os meus melhores momentos têm sido minhas estadas em museus ou concertos. Quando paro em frente a uma obra de arte, faço com que o mundo pare, para que eu tenha o MEU tempo necessário de contemplação. E respiro e inspiro, e acalmo meu coração, percebendo que aquele tempo, sim, é o da calma, do alento, da alegria de me saber viva, e que estou em profunda conversa com o autor daquela obra à minha frente.
Fazer arte. Respirar arte.
Para isso necessitamos de tempo, processo lento, sem pressa, na busca do olhar interior e exterior. Para sermos artistas, e artistas criativos, sem pudores ou desconfianças, necessitamos da escuta – aquietar a alma, o coração e a respiração – e ouvir; e olhar; e ver.
Levar a arte por aí. Ensinar arte. Dar chance aos outros de fazerem arte. Serem artistas.
Como?

Processo criativo de crianças sobre o tema: O que te dá medo?

A crítica de arte Camille Paglia nos diz o seguinte: “Como sobreviver nesta era da vertigem? Precisamos reaprender a ver. Em meio a tamanha e neurótica poluição visual, é essencial encontrar o foco, a base da estabilidade, da identidade e da direção na vida. As crianças, sobretudo, merecem ser salvas deste turbilhão de imagens tremeluzentes que as vicia em distrações sedutoras e fazem a realidade social, com seus deveres e preocupações éticas, parecer estúpida e fútil. A única maneira de ensinar o foco é oferecer aos olhos oportunidades de percepção estável – e o melhor caminho para isso é a contemplação da arte.”
Estendo a percepção e a contemplação para a Educação.
Não devemos falar de escuta sem falar de sensibilidade, de profundidade, de amor – e para isso, nós, educadores, temos nas mãos a melhor arma do mundo, que é a possibilidade de fazermos arte. Como educadores, temos a obrigação de mantê-la viva em nossas escolas, não somente enquanto mero adorno no pescoço da instituição, mas enquanto linguagem fundamental de construção e desenvolvimento humano. Além de inúmeros benefícios cognitivos que cada linguagem artística nos traz (música, dança, teatro, artes visuais), a arte nos dá recursos para nos expressarmos, nos colocarmos diante de nós próprios e dos outros, sendo o que realmente somos. Ela possibilita trazer à consciência objetos que permaneciam guardados, escondidos ou adormecidos dentro de nós. Serve como ferramenta de abordagem para grandes temas, através das inter-relações pessoa/pessoa, pessoa/objeto, pessoa/sentimento.
Nada é certo e acabado, em arte. Lidamos com o imprevisível! Tudo pode: pois, o que se manifesta ali é seu, de seu desejo. A criança que está imersa no fazer artístico está tão próxima de si própria que, conforme seu progresso, passa a mostrar-se como um ser pertencente e único, neste mundo tão pasteurizado e metódico. Mostra-se com pensamentos próprios, com suas convicções; criativa na realização de ideias e soluções de problemas – além de estar apta e aberta a ouvir os outros e, com eles, trocar ideias.
O professor israelense de História Yuval Noah Harari comenta sobre como a Inteligência Artificial atinge nosso mundo atual. Diz que estamos sendo dominados pelos algoritmos, numa velocidade vertiginosa; e que, em consequência, as pessoas dependem cada vez mais deles para tudo, em casa ou no trabalho. Com isso, confia-se cada vez menos na memória. Vamos desligando nossos HDs mentais, pois temos quem faça o trabalho por nós mesmos (um exemplo são os aplicativos de mapas de ruas que nos levam a qualquer lugar, sem que necessitemos decorar um caminho sequer). Diz também que quanto mais confiamos em um algoritmo, mais perdemos a capacidade de entender o mundo e tomar decisões próprias.
E, em paralelo, há todas as mídias sociais que nos mantêm perto e, ao mesmo tempo, distantes uns dos outros: estamos nos enfraquecendo como seres capazes de nos relacionarmos “olho no olho”, “pele com pele”, criando, assim, fissuras éticas e emocionais entre nós – na humanidade como um todo. Estamos nos perdendo de vista... As conexões se perderão, ou se transformarão em ligações quase que robóticas, porque estamos nos esquecendo do emocional.
Hoje, neste século XXI, vejo esses sinais em nossas crianças. E afirmo, mais uma vez, minha crença de que a arte será sempre o meio preferencial de nos mantermos humanos, em todos os sentidos: o sentido de “humano” relacionado ao homem, indivíduo dotado de inteligência e linguagem articulada, pertencente à espécie racional e pensante; e o sentido de “humano” enquanto qualidade, característica passível de ser desenvolvida pelo homem: aquele que é bondoso; que é piedoso, indulgente, compreensivo – que “se mostra humano”.
De tudo o que ensinamos para nossas crianças, dada a velocidade do desenvolvimento tecnológico e da forma de se viver no mundo, não sabemos ao certo o que será supérfluo ou não, em futuro não muito longínquo. Mas eu tenho uma certeza: de que o fazer artístico sempre, de alguma forma, prevalecerá, pois é a melhor forma de nos relacionarmos com nós próprios e com o que nos cerca.
Então, que não nos afastemos da arte, e que saibamos oferecer, às nossas crianças, essa incrível ferramenta de ver, escutar, perceber, sentir o mundo. E que a nossa caminhada seja guiada pelas coisas belas da vida!

Para mim o ser humano é uma tremenda criação.
No ser humano existe tudo o mais elevado até o mais baixo.
O homem é a imagem de Deus e Deus existe em tudo.
Assim, o ser humano foi criado, mas também os demônios,
Os santos, os profetas e os iconoclastas.
Tudo existe lado a lado.
É como se fossem desenhos gigantes mudando o tempo inteiro.
Da mesma maneira devem existir inúmeras realidades,
Não apenas a realidade que percebemos com nossas obtusas sensibilidades,
Mas, um tumulto de realidades arqueando-se uma por cima da outra, por dentro e por fora.
É só o medo e o puritanismo que nos levam a acreditar em limites,
Não existem limites.
Nem para pensamentos, nem para sentimentos.
A ansiedade é que estabelece limites.
Deve-se sentir que se está vivendo num mundo sem limitações.
Numa atividade, nunca se poderá perceber tudo, nem explorar tudo.

[Sonata de Outono – Ingmar Bergman]

Referências

BERGMAN, Ingmar. Sonata de Outono .Disponível em: caleidoscopicamente-cleo.blogspot.com/2007/06/frases-de-filmes-que-gostei-e-copiei.html.
PAGLIA, Camille. O impacto do ensino da arte (ou da falta dele) na percepção do mundo. Revista Prosa Verso e Arte, 2018.
Programa Globo News: Milênio; exibido em 07/05/2018 –Yuval Harari olha o passado para entender o futuro.


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