sábado, 30 de junho de 2018

Receita para escrever um texto... ou não (1)

Norman Rockwell

Receitas há muitas, e para muitas atividades. Há, inclusive, quem acredite em fórmulas precisas para se escrever um texto, e há quem as postule, desde os ingredientes (melhores temas, gêneros textuais mais adequados, tipos de orações, etc.), até o modo de fazer (distribuição das ideias, emprego da pontuação e tamanho dos parágrafos, por exemplo).
Antonio Prata brinca com a ideia, na crônica Receita. Depois de sua leitura, talvez cheguemos à conclusão de que o principal de sua “receita” está, mesmo, na ironia e no exagero de seu dizer, que aponta aspectos negativos e, sutilmente, encaminha direções positivas.
Proponho conhecer tal “receita”, que o autor divide em “partes”, como se verá pelos subtítulos.
(Destaquei em cores meus comentários e os trechos comentados do texto.)

Receita1
[Leitor, repare na crítica mais ou menos velada à banalização e uniformização, presente neste trecho.]
Fazer um texto não é difícil. Como tudo na vida, basta que sigamos um método. Depois de muitos estudos sobre o assunto, tendo consultado desde os mais ancestrais pergaminhos ciganos da Checoslováquia até as últimas pesquisas científicas norte-americanas, juntei conhecimento suficiente para produzir um pequeno tratado sobre o tema. Se o publico aqui não é por vaidade ou capricho, mas porque acho que todo conhecimento deve ser compartido. Dessa forma, tenho esperança, chegará o dia em que todo o saber humano poderá ser reunido e centralizado em um único programa de computador, ou software – que é o termo correto – e vendido a preços módicos nas bancas de jornal, postos de gasolina, ou virá grátis nas compras acima de 50 reais nos supermercados Mambo (*). Aí vai, portanto, a minha modesta contribuição.
(*) Promoção válida apenas para as lojas Mambo em São Paulo (capital), Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Macapá, Acre e Roraima: que se danem!

Como escrever um texto
[Aqui, a simplificação negativa.]
Assim como para fazer uma sopa é preciso, antes de mais nada, escolher os ingredientes, para escrever um texto é necessário, primeiramente, selecionar as palavras que vamos usar. Se para os ingredientes da sopa vamos ao mercado, para encontrarmos as palavras recorremos ao dicionário.

Algumas considerações desnecessárias (porém interessantes)
[Com sutileza e em meio à brincadeira, o cronista, ao valorizar a antiguidade para a dicionarização de um vocábulo (“ser velho é condição sine qua non”), faz-nos pensar no peso de cada palavra que usamos, resultante dos muitos sentidos adquiridos, ao longo do tempo, nos vários textos em que se fez presente.]
O dicionário é superior ao mercado em muitos aspectos. Em primeiro lugar, porque no dicionário o preço das palavras não cresce a cada dia – como ocorre com os legumes no mercado –, posto que todas são de graça. Ademais, os dicionários podem ser guardados na estante da sala, o que seria impossível de se fazer com um mercado – não por sua forma, muitas vezes retangular como os dicionários, mas devido ao tamanho (mais provável seria guardar a estante da sala no mercado, mas isso seria inútil tendo em vista que nosso objetivo não é dar cabo da estante e sim escrever um texto). Há uma diferença básica entre os mercados e os dicionários: se nos primeiros os produtos entram novos e saem assim que fiquem velhos, no segundo não se encontra um só artigo novo, pois ser velho é condição sine qua non para estarem ali. Apesar das considerações anteriores, é impossível provar logicamente a superioridade de um mercado sobre um dicionário ou vice-versa. Prova disso é que podemos tanto encontrar dicionário em um bom mercado, como mercado em um bom dicionário. Assim sendo, deixemos de lado essas comparações inúteis e voltemos ao tema em questão: como escrever um texto.

Agora sim, como escrever um texto, parte I: Ritmo
[Principalmente em texto poético – e, muitas vezes, em grandes discursos –, o ritmo concorre para o sentido e para prender o leitor, despertando-lhe emoções ou capturando-o com argumentação. Entretanto, aqui, Prata vai apontar não exatamente para o ritmo, mas, digamos, para o que não é ritmo. Melhor, para o que não é importante enquanto ritmo: a métrica pela métrica, o ritmo sem função significativa. Ou, ainda melhor: para o equilíbrio entre palavras, mas apenas segundo sua extensão – não importando a sonoridade, o sentido, a adequação ao texto. E o faz, detalhando passos e técnicas “necessárias”, com a aparente gravidade de um especialista.
[Mais além, detalha “dramáticas” ferramentas e suportes da escrita, como condição para se conseguir determinado efeito – o que é verdadeiro, apenas em parte...]
Tanto os pergaminhos ciganos da Checoslováquia como os cientistas norte-americanos estão de acordo em um ponto: um texto deve ter ritmo. Por isso, uma vez aberto o mercado, perdão, o dicionário, é importante ter em mente que um bom escrito leva um número equivalente de palavras pequenas, médias e grandes. Um método infalível na hora de separar as palavras é, sempre que escolhermos uma curta, como chá, lua ou oi, buscarmos imediatamente uma comprida, como halterofilismo, mononucleose ou antropomorficamente.
Assim que você sentir que já tem em mãos um bom número de palavras curtas e longas — isso depende do tamanho do texto que quiser escrever —, parta para a busca de um número igual de palavras médias, tais como sudorese, abobado ou alicate. Aconselha-se anotar essas palavras num papel, com lápis ou caneta, ou datilografá-las num computador ou máquina de escrever, de acordo com as condições infraestruturais de cada um. (O texto final, no entanto, poderá ser escrito de muitas outras maneiras, como com sangue nas paredes, com canivete num tronco de árvore ou com um arco de violoncelo nas areias de Jericoacoara, dependendo não só das condições infraestruturais como do efeito desejado. Isso fica a cargo do autor.)

Parte II: Etiqueta ou bom senso
[As palavras usadas têm que ser adequadas ao que se quer dizer: é o que o cronista aborda a seguir. No entanto, sabemos que a adequação não é mera formalidade, como brinca o cronista, mas implica no uso de termos justos e necessários para o que se quer dizer.]
Se para uma sopa de batatas precisamos de muitas batatas e para uma sopa de beterraba muitas beterrabas, para um texto triste precisamos de palavras tristes, para um texto audacioso de palavras audaciosas e para um texto semierótico de palavras semieróticas. Se o autor tem em vista um texto fúnebre, por exemplo, não cairão bem as palavras lantejoula ou meretrizes, assim como num convite de casamento dificilmente se poderá usar a palavra excremento (apesar de, todo o apelo que a rima possa ter). É sempre bom observar essa pequena, porém importante, formalidade da escrita.

Parte III: Pontuação
[A pontuação é tratada como o tempero da comida... A afirmativa não deixa de ter sua lógica, pois a pontuação, ajudando a formar blocos de sentido, é elemento importante para a compreensão do que se lê. Por outro lado, o que a crônica faz, ironizando, é a crítica aos que usam aleatoriamente os sinais de pontuação, ou acreditam que vírgula, ponto, etc. são pausas para o leitor respirar e tomar fôlego... Deixo ao leitor apreciar e julgar as “dicas” dadas pelo cronista, especialmente as que assinalei.]
Nesta altura, o futuro autor já tem consigo um bom número de palavras, harmoniosamente divididas entre curtas, médias e longas, anotadas em alguma superfície de celulose ou cristal líquido. Chegou a hora de condimentar essas palavras. Os pontos são no texto o que os temperos são para a sopa, e é importante saber usá-los. Para cada cinco palavras, em média, o autor deverá ter uma vírgula. Para cada dez, um ponto. Para cada 15, uma interrogação e/ou uma exclamação.
Algumas dicas: para um texto mais picante, acrescente muitas exclamações. Nunca use muitas interrogações se o texto se destina a um grande público. Por último, evite as crases, os tremas e o ponto-e-vírgula, pois são de sabor muito forte e devem ser usados com parcimônia, assim como o gengibre ou o curry na culinária.
1PRATA, Antonio. Disponível em: http://www.releituras.com/antonioprata_receita.asp.

Leitor...
A receita vai adiante. Mas penso que, por hoje, já estamos bem aparelhados para começarmos a pensar em nossa escrita, segundo a receita dada...
Continuarei em outra data. Até mais.
Abraço.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Ainda há espaço para a arte?

Processo criativo de crianças sobre o tema: O que te dá medo?

Nosso mundo é ruidoso, vertiginoso, mutável, angustiante. Nele, é imperativo vencer. E vence quem chega primeiro, quem primeiro domina a tecnologia, quem se faz ver e ouvir com mais vigor...
Competir, vencer: haverá ainda, aí, lugar para a arte? Haverá, nas famílias, atenção para a arte? Haverá, nas escolas, formadoras de consciências e construtoras de saberes, lugar para a arte? Num sistema educacional em que se privilegiam habilidades de língua e matemática (lembra-me o antigo “ler, escrever, contar”...) há espaço para a sensibilização mediada pela arte?
A arte-educadora e instrumentista Renata Facury tem algo a dizer sobre isso, fruto de sua experiência artística e de seu trabalho com crianças e adolescentes. Partindo da importância de uma escuta ampla e sensível, Renata reflete sobre a necessidade da arte na educação, em que pesem os novos tempos.

A escuta. O tempo. A arte.
Renata Facury
Quando penso em escuta, no seu sentido mais amplo, penso, antes de tudo, em relações. Relações que começam interiores, nós com nós próprios, e ampliam-se, chegando ao outro, ao ambiente em que estamos, ao ambiente do outro lado da porta, ao mundo. Um mundo que gira em velocidade vertiginosa, e num tempo que urge.
Que tempo tenho eu para escutar alguma coisa? Sei que meu coração bate depressa e aflito, pois estou sempre com pressa. Então... como parar para escutar? Para ver? Para olhar? Para admirar?
Como?
Os meus melhores momentos têm sido minhas estadas em museus ou concertos. Quando paro em frente a uma obra de arte, faço com que o mundo pare, para que eu tenha o MEU tempo necessário de contemplação. E respiro e inspiro, e acalmo meu coração, percebendo que aquele tempo, sim, é o da calma, do alento, da alegria de me saber viva, e que estou em profunda conversa com o autor daquela obra à minha frente.
Fazer arte. Respirar arte.
Para isso necessitamos de tempo, processo lento, sem pressa, na busca do olhar interior e exterior. Para sermos artistas, e artistas criativos, sem pudores ou desconfianças, necessitamos da escuta – aquietar a alma, o coração e a respiração – e ouvir; e olhar; e ver.
Levar a arte por aí. Ensinar arte. Dar chance aos outros de fazerem arte. Serem artistas.
Como?

Processo criativo de crianças sobre o tema: O que te dá medo?

A crítica de arte Camille Paglia nos diz o seguinte: “Como sobreviver nesta era da vertigem? Precisamos reaprender a ver. Em meio a tamanha e neurótica poluição visual, é essencial encontrar o foco, a base da estabilidade, da identidade e da direção na vida. As crianças, sobretudo, merecem ser salvas deste turbilhão de imagens tremeluzentes que as vicia em distrações sedutoras e fazem a realidade social, com seus deveres e preocupações éticas, parecer estúpida e fútil. A única maneira de ensinar o foco é oferecer aos olhos oportunidades de percepção estável – e o melhor caminho para isso é a contemplação da arte.”
Estendo a percepção e a contemplação para a Educação.
Não devemos falar de escuta sem falar de sensibilidade, de profundidade, de amor – e para isso, nós, educadores, temos nas mãos a melhor arma do mundo, que é a possibilidade de fazermos arte. Como educadores, temos a obrigação de mantê-la viva em nossas escolas, não somente enquanto mero adorno no pescoço da instituição, mas enquanto linguagem fundamental de construção e desenvolvimento humano. Além de inúmeros benefícios cognitivos que cada linguagem artística nos traz (música, dança, teatro, artes visuais), a arte nos dá recursos para nos expressarmos, nos colocarmos diante de nós próprios e dos outros, sendo o que realmente somos. Ela possibilita trazer à consciência objetos que permaneciam guardados, escondidos ou adormecidos dentro de nós. Serve como ferramenta de abordagem para grandes temas, através das inter-relações pessoa/pessoa, pessoa/objeto, pessoa/sentimento.
Nada é certo e acabado, em arte. Lidamos com o imprevisível! Tudo pode: pois, o que se manifesta ali é seu, de seu desejo. A criança que está imersa no fazer artístico está tão próxima de si própria que, conforme seu progresso, passa a mostrar-se como um ser pertencente e único, neste mundo tão pasteurizado e metódico. Mostra-se com pensamentos próprios, com suas convicções; criativa na realização de ideias e soluções de problemas – além de estar apta e aberta a ouvir os outros e, com eles, trocar ideias.
O professor israelense de História Yuval Noah Harari comenta sobre como a Inteligência Artificial atinge nosso mundo atual. Diz que estamos sendo dominados pelos algoritmos, numa velocidade vertiginosa; e que, em consequência, as pessoas dependem cada vez mais deles para tudo, em casa ou no trabalho. Com isso, confia-se cada vez menos na memória. Vamos desligando nossos HDs mentais, pois temos quem faça o trabalho por nós mesmos (um exemplo são os aplicativos de mapas de ruas que nos levam a qualquer lugar, sem que necessitemos decorar um caminho sequer). Diz também que quanto mais confiamos em um algoritmo, mais perdemos a capacidade de entender o mundo e tomar decisões próprias.
E, em paralelo, há todas as mídias sociais que nos mantêm perto e, ao mesmo tempo, distantes uns dos outros: estamos nos enfraquecendo como seres capazes de nos relacionarmos “olho no olho”, “pele com pele”, criando, assim, fissuras éticas e emocionais entre nós – na humanidade como um todo. Estamos nos perdendo de vista... As conexões se perderão, ou se transformarão em ligações quase que robóticas, porque estamos nos esquecendo do emocional.
Hoje, neste século XXI, vejo esses sinais em nossas crianças. E afirmo, mais uma vez, minha crença de que a arte será sempre o meio preferencial de nos mantermos humanos, em todos os sentidos: o sentido de “humano” relacionado ao homem, indivíduo dotado de inteligência e linguagem articulada, pertencente à espécie racional e pensante; e o sentido de “humano” enquanto qualidade, característica passível de ser desenvolvida pelo homem: aquele que é bondoso; que é piedoso, indulgente, compreensivo – que “se mostra humano”.
De tudo o que ensinamos para nossas crianças, dada a velocidade do desenvolvimento tecnológico e da forma de se viver no mundo, não sabemos ao certo o que será supérfluo ou não, em futuro não muito longínquo. Mas eu tenho uma certeza: de que o fazer artístico sempre, de alguma forma, prevalecerá, pois é a melhor forma de nos relacionarmos com nós próprios e com o que nos cerca.
Então, que não nos afastemos da arte, e que saibamos oferecer, às nossas crianças, essa incrível ferramenta de ver, escutar, perceber, sentir o mundo. E que a nossa caminhada seja guiada pelas coisas belas da vida!

Para mim o ser humano é uma tremenda criação.
No ser humano existe tudo o mais elevado até o mais baixo.
O homem é a imagem de Deus e Deus existe em tudo.
Assim, o ser humano foi criado, mas também os demônios,
Os santos, os profetas e os iconoclastas.
Tudo existe lado a lado.
É como se fossem desenhos gigantes mudando o tempo inteiro.
Da mesma maneira devem existir inúmeras realidades,
Não apenas a realidade que percebemos com nossas obtusas sensibilidades,
Mas, um tumulto de realidades arqueando-se uma por cima da outra, por dentro e por fora.
É só o medo e o puritanismo que nos levam a acreditar em limites,
Não existem limites.
Nem para pensamentos, nem para sentimentos.
A ansiedade é que estabelece limites.
Deve-se sentir que se está vivendo num mundo sem limitações.
Numa atividade, nunca se poderá perceber tudo, nem explorar tudo.

[Sonata de Outono – Ingmar Bergman]

Referências

BERGMAN, Ingmar. Sonata de Outono .Disponível em: caleidoscopicamente-cleo.blogspot.com/2007/06/frases-de-filmes-que-gostei-e-copiei.html.
PAGLIA, Camille. O impacto do ensino da arte (ou da falta dele) na percepção do mundo. Revista Prosa Verso e Arte, 2018.
Programa Globo News: Milênio; exibido em 07/05/2018 –Yuval Harari olha o passado para entender o futuro.