quarta-feira, 23 de maio de 2018

Vozes de uma relação II

Maternidade - Lasar Segall
Aproveitando o mês inspirador – maio –, trago textos poéticos de escritores portugueses, cujo tema são as mães. Em artigo anterior (17/05/2018), registrei o sensível poema de Ana Luísa Amaral – Carta à minha filha – com a voz amorosa e orientadora da mãe.

Entretanto, é mais comum, nos poemas,  os filhos dirigirem-se às mães. Centro-me, hoje, nessas vozes filiais que, algumas vezes, são doces, e outras não tanto: pois há, também, diálogos (ou pseudodiálogos, ou monólogos) que se revestem de amargura, ou revelam dores e distanciamentos.
Convido-os a ler dois autores, cujos poemas representam essas duas vertentes de sentimento: em ambos, maneiras de dar a conhecer o que sabe ou pensa o eu poético sobre a relação mãe-filho.

Voz filial: o reconhecimento
O poema a seguir é de António Victor Ramos Rosa, que nasceu em Faro, a 17 de Outubro de 1924. Faleceu a 23 de setembro de 2013, em Lisboa. Foi poeta, crítico e tradutor.
Seu texto traz o conhecimento do filho em relação à vida, luta e sofrimentos de sua mãe. Conhecimento que é, também, o reconhecimento, a valorização da mulher-mãe, em sua fragilidade e força, e à qual o ser poético afirma sua solidariedade: “Estou contigo mãe”. É, também, a reafirmação do poder do amor materno, tão forte e intenso, a ponto de conseguir realizar o impossível: “fundir o diamante do fogo universal”. Note-se, ainda, a sutil confissão do filho descrente que se curva ante a crença materna no divino: “... Deus. Que existe porque tu o amas, tu o desejas.
Eis o poema.
Mãe
Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente, na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos.
Vejo-te menina e noiva, vejo-te mãe mulher de trabalho
Sempre frágil e forte. Quantos problemas enfrentaste,
Quantas aflições! Sempre uma força te erguia vertical,
sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento
a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas,
tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade.
E assim estás no meio do amor como o centro da rosa.
Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente.
Com o teu amor humano e divino
quero fundir o diamante do fogo universal. 

Vozes que não falam
José Luís Peixoto nasceu em Galveias, a 4 de setembro de 1974. É autor de romances, contos, poemas e peças de teatro. Sua primeira obra foi publicada em 2000. Em escritura mais livre, em relação ao convencional (observem a ausência de maiúsculas e os cortes, aparentemente aleatórios, mas reveladores de fala angustiante), Peixoto traz a (infelizmente) difícil interlocução entre gerações – que, no entanto, não significa desafeto ou desamor. Por isso, com a mediação da palavra escrita, quase que em segredo, quase que às escondidas, em verso à parte, o ser lírico declara: “lê isto: mãe, amo-te”. O silêncio e a indiferença são, na verdade, apenas máscara para encobrir a declaração de amor do filho por sua mãe: “hei de fingir que não escrevi estas palavras, e tu hás de fingir que não as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes”.

Palavras para a minha mãe
mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

Confio em que os textos apresentados levem os leitores a se recordarem de outros – talvez, ouvidos na infância, talvez lidos agora, talvez (e por que não?) escritos por si próprios. E que me enviem, se desejarem.
Um abraço.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Vozes de uma relação – I

Maternidade - Di Cavalcanti


Ainda é maio, e acabamos de passar pelo dia das Mães.
Comercial, é verdade, não adianta negar; mas, ao mesmo tempo, a data desperta velhos afetos e lembranças esquecidas. Aliás, embora frequentemente instigados pela insistência do apelo comercial, é bastante alentador que ainda consigamos resgatar laços umbilicais e, nessas homenagens às mães, ter nossos bons sentimentos aguçados e nossas boas intenções retomadas.
Comercial, sim, hoje mais que ontem. No entanto, hoje como ontem, haverá seres sensíveis que se inspirem na dimensão da maternidade para compartilhar bons pensamentos e realizar obras meritórias. E como nosso mundo anda precisando disso!
Houve e haverá, também, músicos, pintores, poetas – uma infinita gama de artistas – para expressar as trocas afetivas que fluem entre mães e filhos.  Os poetas, principalmente, arquitetam falas, imaginam diálogos reveladores de toda a gama de alegrias e angústias envolvidas nessa particular relação. Ando revisitando-os, nestes dias, e trago um pouco dessa conversa íntima, em criações de escritores portugueses contemporâneos1. O de hoje é de Ana Luísa Amaral.
1 O poema aqui registrado está disponível em www.citador.pt/poemas, site de poesia que recomendo.

Voz materna – a lição
Ana Luísa Amaral nasceu em Lisboa, em 5 de Abril de 1956. É poeta, tradutora e professora de Literatura e Cultura Inglesa e Americana.
Em seu poema Carta à minha filha, o eu lírico traz, pela voz da mãe, que recorda o olhar de sua filha quando criança, a fila como metáfora da vida: a linha cronológica, com o suceder de antes e depois.
Esta visão primeira, fácil e mais ou menos previsível, a mãe retoma e amplia, como que a dar à filha lições de vida e para a vida. Em seu olhar – mais complexo, porque mais experiente – surgem, em conjunto, amenidades e doçuras, por um lado, e perigos e dores por outro. Em meio, o desejo materno de preservar a filha de sofrimentos, como se lê aqui:
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.

A última estrofe resume os aspectos negativos e positivos: a vida como fogo destruidor e pesadelo, mas também como planta (bolbo) que cresce e se desenvolve, se bem cuidada.

Carta à minha filha
Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas – é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar
o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.

E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio
ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho,
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

Deixo ao leitor e à leitora outras descobertas de texto tão rico. Por exemplo, a passagem do tempo pelos cabelos da filha; o(s) sentido(s) de “tigela”; a relação entre a fila e o novelo (porque, na organização da linha, intromete-se a dissonância do novelo: “fila ou novelo, duas cabeças tais num corpo só”); e, ainda as filas, quando relacionada a “pontos paralelos, espelhos e não janelas” (4ª estrofe).
Meu abraço.