quinta-feira, 12 de abril de 2018

O jornal no poema



Nos tempos de predomínio do jornal impresso, Drummond voltou sua atenção para o processo de criação da notícia – do fato à impressão, passando pela escrita de urgência (“a mão nervosa”) do repórter, a fim de garantir o “furo” de reportagem:

Poema do jornal
O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensanguentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve. 
Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.
[ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma Poesia. In Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

Com a matéria pronta, é hora de se deixar embalar pela “doce música mecânica” que vem da impressão do jornal – e o espaço em branco entre a penúltima e última linha configura uma espécie de suspiro de alívio e de satisfação pela tarefa cumprida.
Drummond vê poesia no processo de criação do jornal: poematiza, tematiza poeticamente uma tarefa que, em si, é até banal, talvez porque o acontecimento – o fato a ser relatado – não o seja, pois que envolve vidas (muitas vezes, as nossas próprias).
Ontem como hoje, não há como e por que ficar indiferente: principalmente se merecer primeira página ou destaque em rádio e TV, lá iremos nós, leitores, dar toda atenção ao fato noticiado – novo, ou continuação de um antigo – que acorda sentimentos e mobiliza opiniões. Por outro lado, a reação de quem lê (ou ouve, ou vê, ou assiste) é diretamente proporcional ao modo como o acontecimento afeta o pequeno universo (pessoal, emocional, social, religioso, político, etc.) de cada um.
É proporcional, também, à forma pela qual cada um de nós se relaciona com os outros seres, tempos e espaços: posturas diferentes conduzem a percepções diferentes; assim, olhar amplamente ao redor é bem outra coisa que olhar apenas para si...
Um poema (talvez pouco conhecido) de Cecília Meireles, Jornal, longe, ilustra o olhar, digamos, individualista. Nele, o eu lírico parece ser indiferente aos acontecimentos e preferir o refúgio em seu mundinho sereno.
Vamos à sua leitura, antes de mais comentários.

Jornal, longe
Que faremos destes jornais, com telegramas, notícias,
anúncios, fotografias, opiniões...?

Caem as folhas secas sobre os longos relatos de guerra:
e o sol empalidece suas letras infinitas.

Que faremos destes jornais, longe do mundo e dos homens?
Este recado de loucura perde o sentido entre a terra e o céu.

De dia, lemos na flor que nasce e na abelha que voa;
de noite, nas grandes estrelas, e no aroma do campo serenado.

Aqui, toda a vizinhança proclama convicta:
"Os jornais servem para fazer embrulhos".

E é uma das raras vezes em que todos estão de acordo.

[MEIRELES, Cecília. In Mar Absoluto. Disponível em: http://www.citador.pt/poemas/jornal-longe-cecilia-meireles]

"Os jornais servem para fazer embrulhos": alienação? Sob esse ângulo, a criação da sensível e ética Cecília pode parecer, no mínimo, polêmica – pois, em seu poema, os jornais trazem notícias graves, das quais o eu lírico quer distância.
Contudo, aprofundemos a leitura, como se fôssemos repórteres à cata de detalhes. O quando (do poema e do eu) é um tempo de guerra, documentado pelos jornais. O onde (do poema e do eu) nos é dado pela quarta estrofe: não o campo de batalha, mas o campo serenado; portanto, longe da violência bélica, “longe do mundo e dos homens”, perto da natureza:
De dia, lemos na flor que nasce e na abelha que voa;
de noite, nas grandes estrelas, e no aroma do campo serenado.

Flor, abelha, terra, céu, estrelas, campo: configura-se a “áurea mediocridade” que Horácio canta em suas odes: a vida simples e livre de preocupações pesadas, do bom e ingênuo homem do campo. Voltemos, então, ao “longe do mundo e dos homens”, que aparece na terceira estrofe:
Que faremos destes jornais, longe do mundo e dos homens?
Este recado de loucura perde o sentido entre a terra e o céu. 

O homem do campo parece fundir-se à natureza; melhor dizendo, parece ser natureza – distanciando-se, assim, do “mundo”, e diferenciando-se dos “homens” que sobrecarregaram o mundo de tensões.
Contudo, imerso nesse universo ameno e protegido, no qual o que importa é unicamente a leitura e vivência do mundo natural, o eu poético não parece ter sucumbido à alienação. Ao contrário, ele retrata e vive a tranquilidade, mas, ao mesmo tempo, presentifica e avalia, pela leitura, aquilo a que chama de “recado de loucura”: telegramas, notícias, anúncios, etc.
Não deixemos de notar, também, a visão subjetiva presente na segunda estrofe. A referência explícita, aí, é à passagem do tempo (folhas secas e letras “empalidecidas”); mas, por trás, o leitor percebe a melancolia (o empalidecer) do próprio eu lírico, ao ler sobre a guerra sem fim (“longos relatos”; “letras infinitas”).

Pensando a alienação

Um poema tem o poder de deflagrar sentidos múltiplos, ambíguos e até contraditórios, segundo o tipo de leitura que se faz. Desse modo, o poema de Cecília pode representar a visão de um eu descolado do real, ou pode ser a visão de um eu que se permite pesar e pintar duas realidades conflitantes, possíveis no mesmo tempo e em espaços diferentes; e, até, revelar a angústia e perplexidade ante a guerra e o desejo de fuga ao sofrimento, sem, no entanto perder-se totalmente da realidade.
A verdade é que tanto quem escreve como quem lê sobre um fato interpreta-o segundo sua particular visão de mundo, como ficou dito antes. Essa visão contagia as intenções de leitura ou de escrita: ler para inteirar-se de acontecimentos, para buscar apoio às suas opiniões, para buscar emoções ou diversões; escrever para relatar, para denunciar, para mostrar seu pensamento, para conquistar leitor. 
 O próprio poema de Drummond, aqui registrado, mostra a notícia a serviço do jornal, que dela vive e se alimenta, podendo inclinar seu relato para a objetividade ou para a subjetividade.
Afinal, há vários modos de aproximar-se ou afastar-se da realidade; de respeitá-la, ou não. A quem escreve, é possível até distanciar-se e ver com frieza os fatos mais graves e, até, brincar com a dor do outro. A atitude paralela, do lado do leitor, seria deixar-se levar acriticamente pelo que lê, sem comparar textos e opiniões, e sem refletir.
Em nossos tempos de superficialidade, muitas vezes, a veiculação de acontecimentos (quaisquer que sejam) não significa mais que isto: da parte do leitor, simples modo de encher o tempo; da parte do jornal, bom modo de ganhar leitores. Enfim, parece que estamos nos tornando cada vez mais individualistas e indiferentes. E, da indiferença à intolerância, há poucos passos, infelizmente...
Não é o que vemos nos dias de hoje? O que importa é a vantagem sobre o outro, é a supremacia do que eu penso e sinto... O debruçar-se sobre a dor, compreendê-la e amenizá-la não existirá, se o outro for meu adversário, meu inimigo, meu desconhecido...
É aí que faz sentido a escrita poética, que vai mais fundo e consegue fazer-nos refletir sobre as muitas formas de ler o sentimento humano, por trás da estrutura física aparente. Porque a dor, mesmo a menor, “não sai no jornal” (como diz o bom samba que fecha esta matéria), mas pode, muito bem, sair viva e contundente da pena de um escritor sensível, como Mário Quintana, no poema que trago a seguir.

O olhar afetuoso

Pequena crônica policial

Jazia no chão, sem vida,
E estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grave beleza…
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
As fundas marcas da idade,
Das canseiras, da bebida…
Triste da mulher perdida
Que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
Foi levada ao necrotério.
E quando abriam, na mesa,
O seu corpo sem mistério,
Que linda e alegre menina
Entrou correndo no Céu?!
Lá continuou como era
Antes que o mundo lhe desse
A sua maldita sina:
Sem nada saber da vida,
De vícios ou de perigos,
Sem nada saber de nada…
Com a sua trança comprida,
Os seus sonhos de menina,
Os seus sapatos antigos!

[QUINTANA, Mario. Os melhores poemas de Mario Quintana. São Paulo: Global, 1995.]


O poema contrasta, à “fria curiosidade”, o desamparo da mulher machucada e enfeada pela vida (vejam-se a pontuação afetiva e a adjetivação subjetiva). Entretanto, o olhar amoroso de eu lírico vai além da aparência física e resgata, do interior da mulher perdida, a garota:
Com a sua trança comprida,
Os seus sonhos de menina,
Os seus sapatos antigos!

Mais uma vez, é a dor pelo outro que se revela na poesia e nos cutuca, a nos lembrar de que na dor e no amor nos irmanamos, mesmo que uma e outra não saiam nos jornais.

Notícia de jornal
(Luiz Reis e Haroldo Barbosa)

Tentou contra a existência
Num humilde barracão.
Joana de tal, por causa de um tal João.

Depois de medicada,
Retirou-se pro seu lar.
Aí a notícia carece de exatidão,
O lar não mais existe
Ninguém volta ao que acabou
Joana é mais uma mulata triste que errou.

Errou na dose
Errou no amor
Joana errou de João
Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal.


Meu abraço, desejando que saibamos sentir, compreender e respeitar a dor do próximo, quer saia ou não noticiada e comentada em jornais. (E quer seja esse próximo nosso amigo ou não; e comungue ou não de nossas ideias e nosso modo de vida.)

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