terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A poesia e a estatística de dores

Portinari "Criança Morta"

Em matéria anterior (de 30/11/2017), comentei a crônica Dieta do Homem, de Paulo Mendes Campos. Entre as informações científicas ali encontradas, há classificações de alimentos, vitaminas e minerais necessários à manutenção da vida, e alguns dados quantitativos, que o escritor usa para pôr à mostra realidades perversas. Alguns breves trechos:
Nas carteiras da escola me ensinaram, segundo o sábio Claude Bernard, que o caráter absoluto da vitalidade é a nutrição: pois onde ela existe, há vida; onde se interrompe, há morte. [...]
Me ensinaram que há alimentos ternários e quaternários. Mas não me disseram que dois terços de nossos irmãos no mundo sofrem de fome. Me ensinaram que os alimentos ternários constituídos pelas gorduras e pelos hidratos de carbono, são superlativamente importantíssimos. Mas não me disseram que, em cem, dez homens estão, a qualquer hora, às portas da inanição.
Lembrei-me, então, de outros escritores que se serviram de informações reais e de quantificações e estatísticas, como base e ponto de partida para construir, crítica e poeticamente, imagens de brasileiros e seus sofrimentos.
Trago, hoje, dois deles: Ferreira Gullar, e Mario Quintana.

Ferreira Gullar e a redundância denunciante
Ferreira Gullar é um dos poetas brasileiros que mais se voltaram para os desníveis sociais e a penúria dos desvalidos. Em seu Poema Brasileiro, parte de um dado: “No Piauí, de cada 100 crianças que nascem, 78 morrem antes de completar 8 anos de idade” .
Assim descontextualizada, a frase é mera informação estatística. No entanto, o eu lírico repete-a à exaustão, e de modo a tocar e sacudir o leitor,  embora sem lançar mão de qualquer qualificação subjetiva que o comova.
Ei-lo:
Poema Brasileiro 

No Piauí de cada 100 crianças que nascem 
78 morrem antes de completar 8 anos de idade 

No Piauí 
de cada 100 crianças que nascem 
78 morrem antes de completar 8 anos de idade 

No Piauí 
de cada 100 crianças 
que nascem 
78 morrem 
antes 
de completar 
8 anos de idade 

antes de completar 8 anos de idade 
antes de completar 8 anos de idade 
antes de completar 8 anos de idade 
antes de completar 8 anos de idade 

[Disponível em: www.avozdapoesia.com.br/obras_ler.php?obra_id=11010]

Se não há apelo emocional direto, então, o que faz o poema ser impactante? A redundância informativa, por si só, não teria força. Entretanto, há a considerar as importantes quebras da frase inicial – estas, sim, multiplicadoras de sentido. Registro alguns aspectos, estrofe a estrofe.
► A primeira estrofe mostra-se introdutória e declarativa, como se fosse título de manchete de jornal, síntese de o que e onde acontece, privilegiando, pela posição na frase, o “onde” (No Piauí): “No Piauí de cada 100 crianças que nascem 78 morrem antes de completar 8 anos de idade”. 
► Na segunda estrofe, a quebra depois de “no Piauí” aparentemente reforça um lugar singular – Piauí –, mas serve, principalmente, para tornar mais evidente o fato estatístico, isolado nos dois versos subsequentes: “de cada 100 crianças que nascem / 78 morrem antes de completar 8 anos de idade.
► Na terceira, o procedimento de fragmentação da frase é bem mais incisivo, e faz com que a leitura tenha que pausar a cada verso, com tempo para se refletir mais demoradamente sobre cada elemento. Assim é que os processos naturais da vida – nascer e morrer –, associados à quantificação incômoda (100 que nascem, 78 que morrem em idade precoce), aparecem como que desenhados expressionisticamente, apontando bem claramente cada elemento do fato e ajudando o leitor a perceber assustadoras relações. Observem, a esse respeito, os três últimos fragmentos, destacados em linhas separadas (e grifados por mim):
No Piauí (onde)
de cada 100 crianças (quem)
que nascem (quem)
78 morrem (o que)
antes (quando)
de completar (ainda o quando)
8 anos de idade (ainda o quando)
► Entretanto, o quadro ainda precisa de um “dedo” que destaque o detalhe mais cruel da imagem desenhada. E este dedo é a repetição na quarta estrofe, que poderia se perpetuar, infinitamente, como um eco estridente: “antes de completar 8 anos de idade
► Necessário, ainda, referir-se ao título: não “poema piauiense”, mas “poema brasileiro”. Com esse estratagema, o eu poético remete sutilmente a todo o país, a realidade esboçada para uma parte do território brasileiro, aumentando, assim, o alcance de sua crítica veemente.

Mario Quintana e a suavidade que põe o dedo na ferida
Apesar de o título – Estatística – prometer dados gerais e objetivos, como o poema anterior, o que Mario Quintana faz é tomar um exemplo ainda mais particular que o de Ferreira Gullar: lá, havia um estado em particular, “Piauí”, que simbolizava todo o país; aqui, o eu lírico simula entrevistar uma única pessoa: a mulher-mãe, “comadre”.
De fato, o texto poético refere-se apenas à “comadre”, e não se preocupa em situar o acontecimento em algum tempo e espaço. No entanto, que o leitor não se engane, pois é essa mesma vagueza que lhe permitir vislumbrar a amplidão do cenário aflitivo apontado.
Vamos à leitura do poema, antes de mais considerações. 
Uma Estatística

As crianças,
sem um tiro aliás,
e isso
é que tornava o caso ainda mais espantoso,
morriam mais do que índios nos filmes norte-americanos,
e quando a gente acaso perguntava, para se mostrar atenciosos
"Quantos filhos a senhora tem, comadre?"
A comadre respondia, com ternura:
"Eu tenho quatro filhos e nove anjinhos".

  
O suave Quintana bem sabe pôr a mão na ferida, quando necessário; mas, sempre, sem perder a delicadeza. Claramente, muito pouco é dito; porém, o leitor brasileiro conhece a realidade e, por isso, usando de sua experiência de vida, pode preencher e iluminar a cena toda.
Por exemplo, onde se passa o diálogo narrado? O indício para descobri-lo é o termo “comadre”, normalmente usado em comunidades rurais ou de periferia, simples e com poucos recursos de educação, saúde, saneamento básico.
Daí se depreende todo o resto: as crianças morriam “sem um tiro”, pois a violência era outra: ligada à fome, à falta de socorro, à penúria própria do ambiente em que nasciam.
O eu lírico ameniza a violência da denúncia, com uma comparação entre irônica e séria: “morriam mais do que índios nos filmes norte-americanos” e com a adjetivação – “caso espantoso” (e não cruel, trágico, ou algo parecido, como seria de se esperar).
A estatística? O leitor pode concretizá-la, a partir da resposta da comadre: “Eu tenho quatro filhos e nove anjinhos". E o que dizer da qualificação de seu dizer: “com ternura”? Outra vez, cabe ao leitor inferir: a ternura é o indício do conformismo e da não revolta ante o drama pessoal, espelho e amostra de outros dramas iguais, de outras comadres, de outras tantas comunidades semelhantes.

O drama que nada suaviza
Ferreira Gullar e Mario Quintana desenham uma situação que hoje, talvez, esteja amenizada em alguns paragens, mas não em outras; infelizmente, é a imagem de um Brasil que ainda existe, apesar do progresso e de algumas políticas públicas. É a morte sem tiros, de que nos fala Quintana.
Contudo, há que se falar, no Brasil atual, também da morte com tiros, ou seja, da violência que atinge especialmente os centros urbanos, mudando rotinas, violentando corpos e mentes, esfacelando famílias.
Crianças e jovens, sabemos, são os que mais recebem e sentem os danos de viver nessas circunstâncias. É essa percepção que dois jovens estudantes cariocas registraram, parafraseando a Canção do Exílio, de Gonçalves Dias. Reparem na lucidez dos escritores, ao contrapor, ao cenário romântico de outros tempos, este de agora, crivado de violência e medo.
Reparem, também, que o eu poético manifesta o desejo de sobrepujar o caos e viver, idilicamente, “onde canta o sabiá” – o que nos traz a voz do idealismo juvenil que, apesar de tudo (felizmente!) ainda resiste.
Minha terra...
Minha terra é a Penha.
O medo mora aqui.
Todo dia chega a notícia
Que morreu mais um ali.

Nossas casas perfuradas
Pelas balas que atingiu,
Corações cheios de medo
Do polícia que surgiu.

Se cismar em sair à noite,
Já não posso mais
Pelo risco de morrer
E não voltar para os meus pais.

Minha terra tem horrores
Que não encontro em outro lugar.
A falta de segurança é tão grande
Que mal posso relaxar.

"Não permita Deus que eu morra"
Antes de sair deste lugar.
Me leve para um lugar tranquilo
"Onde canta o sabiá".

[Disponível em: https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/minha-terra-tem-horrores-versao-de-poema-feita-por-alunos-do-rio-causa-comocao-nas-redes-sociais.ghtml]

Um abraço.

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