sábado, 13 de janeiro de 2018

O “não” como impulso

Entre os pensamentos que revisitei por esses dias, estão os de Cortella e Drummond, oportunos inspiradores de bons propósitos para um início de ano. A fim de ampliar nosso repertório de ideias e fundamentar ações construtoras de que tanto carecemos, trago um pouco de cada um.

O “não” entre ideias e pães
O filósofo e educador Mario Sergio Cortella, em Sobre ideias e pães, sugere ao leitor a adoção do “não”, no aqui e agora – ou seja, a não acomodação que, indo além da simples “incomodação”, exige movimentos e traz, em sua esteira, a ação solidária.
Cortella dirige-se especificamente aos educadores por profissão; mas, sabemos bem: educadores somos todos nós, em alguma medida. Bem por isso, suas palavras costumam ter boa repercussão e alcançam público extenso.
A seguir, partes do texto ao qual me refiro.
... É a maior tarefa dos educadores e das educadoras, na junção entre a epistemologia e a política: o esforço de destruição do “porque aqui é assim”. A ruptura do “porque aqui é assim” principia pela recusa à ditadura dos fatos consumados e à ditadura fatalista de um presente que aparenta ser invencível, tamanhos são os obstáculos cotidianos com os quais nos deparamos.
É preciso, em Educação, reinventar, em conjunto, uma ética da rebeldia, uma ética que reafirme nossa possibilidade de dizer não e que valorize a inconformidade docente. Não é mero acaso que a primeira palavra, de fato, que um ser humano aprende a dizer e a entender é o não. Seja oral ou gestualmente, o não é a fundação a partir da qual se constrói nossa principal característica: a liberdade, a capacidade de ultrapassar as determinações da natureza e das situações presumidamente limitantes. Só quem é capaz de dizer o não pode dizer sim, isto é, pode escolher e acatar deliberadamente o curso das circunstâncias e das exigências externas e internas.
Ser humano é ser junto. É necessário negar a afirmação liberticida de que “a minha liberdade acaba quando começa a do outro”. A minha liberdade acaba quando acaba a do outro; se algum humano ou humana não é livre, ninguém é livre. Se alguém não for livre da fome, ninguém é livre da fome. Se algum homem ou mulher não for livre da discriminação, ninguém é livre da discriminação. Se alguma criança não for livre da falta de escola, de família, de lazer, ninguém é livre.
[...]
Há um ditado chinês que diz que, se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando um pão, e, ao se encontrarem, eles trocam os pães, cada homem vai embora com um; porém, se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando uma ideia, e, ao se encontrarem, eles trocam as ideias, cada homem vai embora com duas.
Quem sabe é esse mesmo o sentido do nosso fazer: repartir ideias, para todos terem pão...
CORTELLA. Mario Sergio.  Sobre ideias e pães, 1999. [http://slideplayer.com.br/slide/1220449/]
Resumindo: Cortella nos propõe o “não” ao “porque aqui é assim”, como entrada para a ação conjunta, capaz de disseminar ideias, multiplicar “pães” e, por aí, promover a dignidade do humano. Propõe um projeto de futuro – a começar do “agora” – capaz de sobrepujar a “ditadura fatalista de um presente que aparenta ser invencível”.

O “não” entre eu, eles, nós
Igualmente forte é a presença do “não” no poema de Carlos Drummond de Andrade, Mãos dadas. Nele, o eu lírico, a partir da negação do individual, afirma o coletivo; a partir do que não será, afirma o que será.
De modo um pouco diferente daquele de Cortella (este, como vimos, empenhado em desenhar um objetivo com sentido para a ação educadora), o texto poético centra-se no hoje (em detrimento do ontem e do amanhã) enquanto tempo oportuno para análise, crítica e ação conjunta e generalizada no meio em que vive.
Abandonar o passado e o futuro significa, implicitamente, deixar o sonho e a imaginação: Não serei o poeta de um mundo caduco. / Também não cantarei o mundo futuro.
No entanto, entenda-se: não se trata de ignorar a realidade, mas de observá-la no agora, da perspectiva do outro / dos outros: Estou preso à vida e olho meus companheiros./ Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças. / Entre eles, considero a enorme realidade.
A proposta poética é, pois, olhar para “eles”, estando entre “eles”; fazer a reunião eu + eles = nós; e convocar o “nós” para ações concretas, : no instante presente: O presente é tão grande, não nos afastemos./Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Depois (segunda estrofe), o ser lírico, ainda partindo do que não será, esclarece e reafirma a intenção de não fugir para o imaginário, mas, ao contrário, encarar a realidade, integrando-se ao coletivo, no presente, mediante a lucidez do fazer poético.
O poema, na íntegra:
Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
[ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo, in Antologia Poética. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1963.]

O não entre realidade e utopia
Viver no mundo e lançar sobre ele o olhar clínico é próprio de cabeças lúcidas, como Drummond e Cortella. Daí o “não” – ao visto, ao vivido, ao estabelecido, ao convencional, à omissão – que não impede, mas, antes, favorece a busca de relações humanas melhores.
Apesar de tanta realidade coletiva dolorosa que todos vivemos, os acomodados e os conformados podem, perfeitamente, incomodar-se (e mais nada) com as ideias dos dois autores, concluindo: “Não adianta, é pura utopia”.
Ao que os desacomodados e os inconformados talvez concordem em responder, comigo: se o filósofo e o poeta pregam utopia, caminhemos em direção a ela, pois, repetindo Galeano, “se caminho dez passos, a utopia vai se distanciar dez passos e se caminho vinte passos, a utopia vai se colocar vinte passos mais além. Ou seja, sei que jamais vou alcançá-la. Então para que serve? Para isso, para caminhar.”
E então, meus amigos do blog e do coração: vamos encampar o não "positivo” como ponto de partida, e caminhar?

Abraços.

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