quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Crônica de uma crônica relação



Quando eu, criança interiorana, vinha a São Paulo, fascinavam-me a agitação de pessoas e carros, e os luminosos publicitários, absurdamente “gritantes” pelo brilho, cores e profusão.
Chegar à noite, então, sair da estação ferroviária (havia trens, e belos, e confortáveis, ainda!) seguir, bem quieta e atenta, junto à janela do carro que nos conduzia, era momento de soberana magia. A criança imaginosa desligava-se da conversa dos adultos e entrava num mundo em que tudo poderia acontecer, povoado de festas de fadas, coros de duendes e anjos, sopros de minifeiticeiras aladas. Boa parte do que eu criava em brincadeiras, na época, tinha a ver com a atmosfera sentida em São Paulo.
Por tudo isso, quando, na adolescência, tive oportunidade de viver em Sampa, fantasiei a melhor vida, as melhores sensações, as melhores amizades, tudo de melhor. Via-me andando livre e solta pelas ruas, enxergando detalhes interessantes, sentindo mil cheiros, conhecendo lindos cenários e vivendo cenas encantadoras.
Mas...
Caetano bem disse, na canção Sampa, da sublime contradição desta capital que atrai e apavora, e que frequentemente oferece “um difícil começo”.  Pois a mocinha do interior, morando na região do centro, tinha, bem ao lado, tanto a espiritualidade de freiras e padres quanto a volúpia do mundo boêmio.  Com a múltipla e singular convivência, só poderia desaparecer o seu anterior mundo encantado...
Mas... Mas...
Se aí eu, adolescente, conheci o avesso do que a criança fantasiara, conheci, também, belezas e serenidades, em meio a tristezas e obscuridades. E movendo-me entre luz e sombra, acabei por entender aquilo que os letreiros piscantes de néon revelavam desde antigamente: São Paulo nasceu para ser tudo, ao mesmo tempo e no mesmo espaço: festa e luto, poesia quase pura e miséria muito dura.
É, Caetano, você descobriu também: “porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”. São Paulo pulsa e adormece, faz viver e mata, encanta e desespera, atrai e afasta. Assim, minha grande cidade adotiva, eu te vi e vejo, odiei e amo. Como não lembrar-me de ti, neste dia 25 de janeiro?
Parabéns, São Paulo das contradições próprias, que tão bem refletem todas as minhas.

Uma sinfonia para São Paulo
O paraense Billy Blanco, como tantos outros que aportaram em Sampa, admirou e homenageou a cidade. Sua Sinfonia Paulistana veio a público na década de setenta, contendo quinze belas canções (gravadas pelos cantores Elza Soares, Pery Ribeiro, Cláudia, Claudette Soares, Nadinho da Ilha e Miltinho, além do coro do Teatro Municipal de São Paulo). 
Fecho minha reverência a São Paulo com a Sinfonia. Aos que incorporaram o espírito apressado da cidade, deixo um recorte da obra (da qual, aliás, muitos conhecem apenas um trecho, popularizado por programa da Rádio Jovem Pan).


A quem tiver um pouco mais de tempo, recomendo a obra integral, na certeza de que vale a pena ouvi-la, pela primeira, segunda ou décima vez.



Abraços urbanos de uma paulista não tão urbana assim.

sábado, 13 de janeiro de 2018

O “não” como impulso

Entre os pensamentos que revisitei por esses dias, estão os de Cortella e Drummond, oportunos inspiradores de bons propósitos para um início de ano. A fim de ampliar nosso repertório de ideias e fundamentar ações construtoras de que tanto carecemos, trago um pouco de cada um.

O “não” entre ideias e pães
O filósofo e educador Mario Sergio Cortella, em Sobre ideias e pães, sugere ao leitor a adoção do “não”, no aqui e agora – ou seja, a não acomodação que, indo além da simples “incomodação”, exige movimentos e traz, em sua esteira, a ação solidária.
Cortella dirige-se especificamente aos educadores por profissão; mas, sabemos bem: educadores somos todos nós, em alguma medida. Bem por isso, suas palavras costumam ter boa repercussão e alcançam público extenso.
A seguir, partes do texto ao qual me refiro.
... É a maior tarefa dos educadores e das educadoras, na junção entre a epistemologia e a política: o esforço de destruição do “porque aqui é assim”. A ruptura do “porque aqui é assim” principia pela recusa à ditadura dos fatos consumados e à ditadura fatalista de um presente que aparenta ser invencível, tamanhos são os obstáculos cotidianos com os quais nos deparamos.
É preciso, em Educação, reinventar, em conjunto, uma ética da rebeldia, uma ética que reafirme nossa possibilidade de dizer não e que valorize a inconformidade docente. Não é mero acaso que a primeira palavra, de fato, que um ser humano aprende a dizer e a entender é o não. Seja oral ou gestualmente, o não é a fundação a partir da qual se constrói nossa principal característica: a liberdade, a capacidade de ultrapassar as determinações da natureza e das situações presumidamente limitantes. Só quem é capaz de dizer o não pode dizer sim, isto é, pode escolher e acatar deliberadamente o curso das circunstâncias e das exigências externas e internas.
Ser humano é ser junto. É necessário negar a afirmação liberticida de que “a minha liberdade acaba quando começa a do outro”. A minha liberdade acaba quando acaba a do outro; se algum humano ou humana não é livre, ninguém é livre. Se alguém não for livre da fome, ninguém é livre da fome. Se algum homem ou mulher não for livre da discriminação, ninguém é livre da discriminação. Se alguma criança não for livre da falta de escola, de família, de lazer, ninguém é livre.
[...]
Há um ditado chinês que diz que, se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando um pão, e, ao se encontrarem, eles trocam os pães, cada homem vai embora com um; porém, se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando uma ideia, e, ao se encontrarem, eles trocam as ideias, cada homem vai embora com duas.
Quem sabe é esse mesmo o sentido do nosso fazer: repartir ideias, para todos terem pão...
CORTELLA. Mario Sergio.  Sobre ideias e pães, 1999. [http://slideplayer.com.br/slide/1220449/]
Resumindo: Cortella nos propõe o “não” ao “porque aqui é assim”, como entrada para a ação conjunta, capaz de disseminar ideias, multiplicar “pães” e, por aí, promover a dignidade do humano. Propõe um projeto de futuro – a começar do “agora” – capaz de sobrepujar a “ditadura fatalista de um presente que aparenta ser invencível”.

O “não” entre eu, eles, nós
Igualmente forte é a presença do “não” no poema de Carlos Drummond de Andrade, Mãos dadas. Nele, o eu lírico, a partir da negação do individual, afirma o coletivo; a partir do que não será, afirma o que será.
De modo um pouco diferente daquele de Cortella (este, como vimos, empenhado em desenhar um objetivo com sentido para a ação educadora), o texto poético centra-se no hoje (em detrimento do ontem e do amanhã) enquanto tempo oportuno para análise, crítica e ação conjunta e generalizada no meio em que vive.
Abandonar o passado e o futuro significa, implicitamente, deixar o sonho e a imaginação: Não serei o poeta de um mundo caduco. / Também não cantarei o mundo futuro.
No entanto, entenda-se: não se trata de ignorar a realidade, mas de observá-la no agora, da perspectiva do outro / dos outros: Estou preso à vida e olho meus companheiros./ Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças. / Entre eles, considero a enorme realidade.
A proposta poética é, pois, olhar para “eles”, estando entre “eles”; fazer a reunião eu + eles = nós; e convocar o “nós” para ações concretas, : no instante presente: O presente é tão grande, não nos afastemos./Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Depois (segunda estrofe), o ser lírico, ainda partindo do que não será, esclarece e reafirma a intenção de não fugir para o imaginário, mas, ao contrário, encarar a realidade, integrando-se ao coletivo, no presente, mediante a lucidez do fazer poético.
O poema, na íntegra:
Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
[ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo, in Antologia Poética. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1963.]

O não entre realidade e utopia
Viver no mundo e lançar sobre ele o olhar clínico é próprio de cabeças lúcidas, como Drummond e Cortella. Daí o “não” – ao visto, ao vivido, ao estabelecido, ao convencional, à omissão – que não impede, mas, antes, favorece a busca de relações humanas melhores.
Apesar de tanta realidade coletiva dolorosa que todos vivemos, os acomodados e os conformados podem, perfeitamente, incomodar-se (e mais nada) com as ideias dos dois autores, concluindo: “Não adianta, é pura utopia”.
Ao que os desacomodados e os inconformados talvez concordem em responder, comigo: se o filósofo e o poeta pregam utopia, caminhemos em direção a ela, pois, repetindo Galeano, “se caminho dez passos, a utopia vai se distanciar dez passos e se caminho vinte passos, a utopia vai se colocar vinte passos mais além. Ou seja, sei que jamais vou alcançá-la. Então para que serve? Para isso, para caminhar.”
E então, meus amigos do blog e do coração: vamos encampar o não "positivo” como ponto de partida, e caminhar?

Abraços.