sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Se, então, ou conselhos de Ano Novo



Outro dia, deixei meu pensamento ir onde quisesse. E ele, embora solto, podendo viajar por temas e lugares sossegados, não se conseguiu desvencilhar de questões éticas. Como se me dissesse que ainda não era chegada a hora do descanso, começou a formular hipóteses de comportamento para o ano que chega.
Pronto, lá se foi a placidez de um dos poucos momentos em que eu me dispus a relaxar. E, já que parecia inevitável o trabalho de encadeamento de uma ideia na outra e mais outra, aceitei o jogo apresentado.
Meu pensamento, então, insistiu em relacionar os acontecimentos pátrios presentes a comportamentos coletivos. Daí, passou a identificar, no coletivo, esta, aquela e mais aquela atitude individual. Depois, fez o caminho inverso, para observar como cada ação individual pesava no resultado de ações coletivas... Concluindo...
Verdade: andamos mal, enquanto pessoas e enquanto grupos, neste bendito 2018 que se vai.
Verdade: relacionamo-nos mal uns com os outros – ou por cegueira, ou por soberba, ou por nos julgarmos vítimas, ou por acreditarmo-nos donos da verdade.
Verdade: se continuarmos do mesmo modo, nosso mundinho particular e aquele mundão em que vivemos se verá cada vez mais confuso...
E assim por diante.
Bem, se tais ideias angustiantes se repetissem ad infinitum, meu sono não viria nem no dia seguinte. O remédio era fechar a minha discussão comigo, buscando soluções para as angústias apontadas.
Ordenadamente, coloquei-me algumas proposições do tipo: “se, então”: se olharmos mais em volta, poderemos entender melhor os motivos alheios; se conseguirmos agir menos em proveito próprio, poderemos harmonizar ações grupais; se olharmos mais nos olhos do outro, poderemos, então, enxergar sua alma; se...
Tantos “se, se, se” naturalmente me levaram ao famoso “If” de Rudyard Kipling. Procurando o poema, lembrei-me haver, dele, duas versões em português, que trazem algumas sutis diferenças. Leiam, analisem e concluam pela que mais lhes agradar.

A tradução de Guilherme de Almeida
É a tradução mais conhecida e que mais aparece em compêndios de poesia, revistas, jornais e até em antigos almanaques.
Se
Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses, no entanto, achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
De sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais – tu serás um homem, ó meu filho!

[Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u92310.shtml.]

A tradução de Gil Pinheiro
Eu a conheci há pouco tempo. De certa forma, o tom de altiva resignação do texto de Guilherme de Almeida é substituído por uma postura mais ativa: não esmorecer, em vez de resignar-se; dar as mãos e enfrentar, em vez de defender-se. Vejam se concordam com minha visão. 
Se
Se não perdes a cabeça e o tempo é tal
Que a loucura inflama todos contra ti;
Ou, caindo no descrédito geral,
Sem melindres continuas crendo em ti;
Se consegues sem desânimo esperar,
Sem rancores com rancores rebater
Nem mentiras com mentiras rechaçar,
Sem com isso sábio ou santo querer ser;

Se liberto da ilusão podes sonhar
E pensar sem chafurdar no pensamento;
Se ao sucesso e ao insucesso sabes dar
Sempre o mesmo indiferente tratamento;
Se consegues suportar que tuas idéias
Virem lábia de patifes contra os tolos;
Ou se a queda de tua obra mal pranteias
E começas a reerguer os teus tijolos;

Se consegues apostar tudo que tens,
Em uma única cartada, e então perder,
Sem jamais chorar à míngua de teus bens
Nem diante o recomeço esmorecer;
Se consegues coração, nervos e músculos
Empenhar além da força que te assiste,
Até nada mais restar senão, minúsculos,
Os apelos da vontade, que persiste;

Se não perdes entre a plebe a distinção
E, entre reis, um certo quê de popular;
Se consegues dar as mãos – co’s pés no chão –
E inimigos – ou amigos – enfrentar;
Se, segundo por segundo, os teus minutos
Dão à volta do ponteiro honesto trilho,
Tua é a terra inteira e todos os seus frutos
E, acima de tudo, és um homem, meu filho.

[PINHEIRO, Gil. Três poemas de Kipling. Cadernos de Literatura em Tradução, n. 5. Disponível em www.revistas.usp.br/clt/article.]

Utopia?
Sim, de certa forma, o poema tem como base visões humanistas utópicas. Mas são elas que nos levam para diante, que não nos deixam fraquejar ou desistir. Termino com as palavras de Bauman, em entrevista à Revista Cult, sobre a utopia. Que nos sejam inspiradoras, neste 2019:
Para que a utopia nasça, é preciso duas condições. A primeira é a forte sensação (ainda que difusa e inarticulada) de que o mundo não está funcionando adequadamente e deve ter seus fundamentos revistos para que se reajuste. A segunda condição é a existência de uma confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo, a crença de que “nós, seres humanos, podemos fazê-lo”, crença esta articulada com a racionalidade capaz de perceber o que está errado com o mundo, saber o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos, e ter força e coragem para extirpá-los. Em suma, potencializar a força do mundo para o atendimento das necessidades humanas existentes ou que possam vir a existir.
Na era pré-moderna, a metáfora que simboliza a presença humana é a do caçador. A principal tarefa do caçador é defender os terrenos de sua ação de toda e qualquer interferência humana, a fim de defender e preservar, por assim dizer, o “equilíbrio natural”. [...] Já no mundo moderno, a metáfora da humanidade é a do jardineiro. O jardineiro não assume que não haveria ordem no mundo, mas que ela depende da constante atenção e esforço de cada um. Os jardineiros sabem bem que tipos de plantas devem e não devem crescer e que tudo está sob seus cuidados. Ele trabalha primeiramente com um arranjo feito em sua cabeça e depois o realiza. Ele força a sua concepção prévia, o seu enredo, incentivando o crescimento de certos tipos de plantas e destruindo aquelas que não são desejáveis, as ervas “daninhas”. É do jardineiro que tendem a sair os mais fervorosos produtores de utopias. Se ouvimos discursos que pregam o fim das utopias, é porque o jardineiro está sendo trocado, novamente, pela ideia do caçador.
[Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/entrevista-zygmunt-bauman/.]

Meu abraço, renovado.

domingo, 16 de dezembro de 2018

Natal com leveza


Passamos por momentos tensos e difíceis, neste ano. Concordam, meus amigos?
Penso que alguns responderão que nem tanto, pois todo ano é assim; outros, como eu, afirmarão que 2018 foi mais pesado, difícil de carregar: nós, brasileiros, confrontamo-nos com nossas próprias contradições e angústias; até com a qualidade e sinceridade de nossos relacionamentos; até, ainda, com nossa própria identidade enquanto cidadãos, sociedade e povo.
Por tudo isso, decidi-me por um texto bem-humorado para marcar este Natal. Trago Drummond, com sua ótica inteligente e brincalhona, mas, ao mesmo tempo, agudamente crítica. Seu “Papai Noel” comparece em cena brasileira e com hábitos modernos – mas, digamos, não muito recomendáveis...
Papai Noel às Avessas
Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papais-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças.
Papai entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celuloide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por
causa do aperto.
Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.
Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.

[ANDRADE, Carlos Drummond de.  Alguma poesia. In Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

Ao leitor não devem ter passado despercebidos os toques mordazes de Drummond, em sua história de um Natal adaptado à realidade brasileira. Aponto alguns.
Em primeiro lugar, o cenário.  Não é um Natal mágico, este que o poeta descreve. Nada se ilumina ou ganha vida; ao contrário, as “coisas” continuam, conformadamente, a ser simples coisas no mistério do Natal.
Em segundo lugar, a personagem. O velhinho não pode ser chamado de “bom”, mas pode, com justeza, ser chamado de esperto: entra sorrateiro – pela porta dos fundos; cauteloso que nem marido depois da farra – e logo vai fartar-se, na cozinha, com o queijo que encontra (é bem o rato-gatuno roubando um queijo). Em seguida, quase acende um cigarro, e não o faz, apenas por medo de incendiar as falsas barbas – as quais, aliás, apontam para o hábito de importarmos costumes estrangeiros, como o Papai Noel barbudo e bem agasalhado dos países frios.
Agora, o enredo, em seu ponto principal. O clímax (toda narrativa tem um clímax e, aqui, temos exatamente uma narrativa poética1) vem com a ação no quarto dos meninos, onde e quando o Papai Noel, em vez de presentear, rouba todos os brinquedos. Pronto, está, de vez, desfeita a magia, e destruído o mito do bom velhinho.
Alongando um pouco mais nossa leitura, poderemos ver a confirmação do avesso do mito em outros detalhes. Notem que a barba postiça não é mais que um disfarce para não mostrar a face verdadeira – a “cara raspada” – de quem tem algo a esconder.
Os próprios brinquedos (qual a criança que não os espera?) são presentes indesejáveis, pois os meninos sonham com outros natais. Releiam esta estrofe e reparem na conjunção adversativa, além da falta de pontuação, que parece embolar todos os objetos nos sapatos. Todos, menos o presidente de república, destacado pela conjunção aditiva, mas rebaixado a ser de celuloide:
Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celuloide.

O emaranhado todo parece mais um pesadelo que um sonho, e um pesadelo que retrata uma realidade na qual todos, indiscriminadamente (coisas, pessoas, autoridades), são postos a brigar no mesmo “saco”.  Que não é propriamente saco, mas um grande “lenço de alcobaça”, que se adivinha não ser muito limpo, por sua utilidade, pois é “também [...] chamado [de] lenço tabaqueiro, por ser usado principalmente pelas pessoas que cheiravam rapé (tabaco em pó), para limpar a secreção nasal provocada pela inalação da substância”2.
A crítica, a esta altura, parece mais dura e menos sorridente. Parece que também o poeta usou o disfarce brincalhão, a palavra velada, para apontar problemas mais sérios...
O eu poético só deixa como verdade o nascimento de Cristo. No mais, não há anjos nem cânticos. E o luar de Natal abençoa, tão só e prosaicamente, os legumes da horta.
Bem, nesse caso, onde está o Natal com leveza, que prometi? – devem estar-se perguntando os leitores. E eu respondo: a leveza está na crítica certeira e séria, mas sem ferocidade raivosa e aniquiladora. Ridendo castigat mores... lembram-se?
1 Ou, se quiserem, um poema narrativo.
2 Mais detalhes em Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Len%C3%A7o_de_Alcoba%C3%A7a.

Um convite
Drummond, em outro poema, revela-se ainda crítico, mas um pouco nostálgico, ao descrever a modernização do Natal de sua época. (Lembremos: Drummond viveu de 1902 a 1987, e o poema foi publicado em livro de 1930.)
Que tal, após a leitura, cada um de nós meditar – e, quem sabe, escrever – sobre seu próprio sentimento, em relação à data? Indiferença? Expectativa? Melancolia? Nostalgia?...
Ah!, e não deixem de notar como a repetição da palavra “Natal”, isolada nos versos, faz lembrar o toque do sino natalino. (Há outros detalhes interessantes que deixo à leitura de cada um.)

O Que Fizeram do Natal
Natal.
O sino longe toca fino,
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mas as filhas das beatas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.
[ANDRADE, Carlos Drummond de.  Alguma poesia. In Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

Com meu abraço fraterno, desejo a todos os amigos
um bom – e verdadeiro! – Natal.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

... Minha vã filosofia



Caro leitor, caríssima leitora, chega de análises!
Debruçar-me sobre questões de literatura, de língua, de gramática, de textos, é minha vida e meu prazer  (embora não seja toda minha vida e todo meu prazer).
Entretanto, há dias em que me dá vontade de pausar estudos, pesquisas, escritos. Sentem o mesmo, em certos momentos da vida? Sentem desejo incontrolável de não trabalhar, mudar de rumo, ficar à toa na vida?
Creio que a resposta é sim. E estamos, eu e vocês, em boa companhia: a de escritores renomados. (Claro que eu poderia falar de outras personalidades, mas, como este é um espaço primordialmente para leitura e escrita, cito apenas escritores.)
Os motivos para o desejo de inércia são variados. Começo por recordar, aqui, os de dois escritores, Drummond e Rubem Braga, citados em matéria antiga (05/08/2014).
Rubem Braga, na crônica Ao respeitável público, faz-se de mal-humorado e, cansado do ofício de cronista, sem a menor cerimônia, revolta-se contra os leitores, como aqui:
Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!
Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que vem aí no fim da semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante [...]
Portanto, meu distinto leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. Não leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos; que vocês todos são pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo sinceramente que todos tenham um péssimo Carnaval, uma horrível quaresma, um infelicíssimo ano de 1934, uma vida toda atrapalhada, uma morte estúpida!
Sem tanto ímpeto, mas com rebeldia parecida, Drummond escreve sobre o desânimo que o leva a não escrever, em Hoje não escrevo, e se autocensura por, além de perder o mundo lá fora, julgar-se maior ou melhor que os demais seres humanos:
Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.
[...]
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara de pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo [...].
A nós, tão acostumados ao trabalho, parece pecado entregarmo-nos à preguiça. Dói a consciência, acostumada à disciplina; dói o cérebro, habituado à concentração, doem (ironia...) os músculos do corpo, não acostumados ao relaxamento, e libertos, enfim, da servidão diária do tempo e da pressa. Além do mais, parar o trabalho significa deixar de correr em busca de tantos objetivos e ter de esquecer tantas ambições!
Diante disso tudo, senti que precisava de um argumento convincente para os dias ou semanas em que me entregasse ao nada fazer.
E encontrei, amigos e amigas deste cantinho que chamo de nosso! Foi em Rubem Alves: descobri, em seu bom humor e em sua argumentação docemente filosófica, o elogio da preguiça que me faltava.
Por isso, sem demora – e sem preguiça –, eu os convido a ler o texto de Rubem Alves que salvou minha vã e precária filosofia de justificação de um far niente verdadeiramente dolce e sem culpas.

Filosofia do gato
Olho para o meu gato e medito. Medito teologias. Diziam os teólogos de séculos atrás que a harmonia da natureza deve ser o espelho onde os seres humanos devem buscar suas perfeições. O gato é um ser da natureza. Olho para o gato como um espelho. Não percebo nele nenhuma desarmonia. Sinto que devo imitá-lo.
Camus observou que o que caracteriza os seres humanos é a sua recusa a serem o que são. Eles não estão felizes com o que são. Querem ser outros, diferentes. Por isso somos neuróticos, revolucionários e artistas. Do sentimento de revolta surgem as criações que nos fazem grandes. Mas nesse momento eu não quero ser grande. Quero simplesmente ter a saúde de corpo e de alma que tem o meu gato. Ele está feliz com a sua condição de gato. Não pensa em criações que o farão grande.
Ele dorme. Nesse momento ele é um monge budista: nenhum desejo o perturba. Desejos são tremores na placidez da alma. Ter um desejo é estar infeliz: falta-me alguma coisa, por isso desejo... Do desejo nasce a insônia. Não tenho sono porque o desejo não me deixa dormir. Mas para o meu gato nada falta. Ele é um ser completo. Por isso ele pode se entregar ao calor do momento presente, sem desejar nada. E esse “entregar-se ao momento presente sem desejar nada” tem o nome de preguiça. Preguiça é a virtude dos seres que estão em paz com a vida.
Por pura brincadeira, escrevi um livrinho sobre demônios e pecados. Os demônios continuam soltos pelo mundo do jeito como sempre estiveram. Só que agora fazem uso de disfarces. Até se rebatizaram com nomes diferentes, científicos. Lidando com os demônios, eu usei palavras filosóficas e psicanalíticas de exorcismo. Lidando com os pecados, eu usei palavras éticas de condenação.
Tudo ia muito bem até que cheguei ao pecado da preguiça, que deveria ser condenado. Preguiça é fazer nada. Nossa tradição religiosa nada sabe da espiritualidade oriental do Taoísmo que faz do “fazer nada”, “wu-wei”, a virtude suprema.
E aí, então, aquilo que deveria ser uma condenação do pecado da preguiça virou um elogio às delícias e virtudes da preguiça.
Alguém disse que preferia os gatos aos cachorros, porque há cães com vocação e profissão policiais, mas não há gatos policiais nem por vocação nem por profissão. Policiais existem para fazer cumprir a lei, o dever. Dentro de mim, desgraçadamente, mora aquele cão policial a que Freud deu o nome de “superego”: ele rosna ameaças e culpas, todas as vezes em que me deito na rede.
Meu gato, na sua imperturbável preguiça, me dá uma lição de filosofia. Não me dá ordens. Ele deve ter aprendido do Tao-Te-Ching que diz que o homem verdadeiramente bom não faz coisa alguma...
Estou velho e quero que me seja dado o privilégio de me entregar à filosofia do meu gato: fazer nada. Com consciência limpa, repetir com Fernando Pessoa: “Ai que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer...”
Assim, proponho que se acrescente aos direitos humanos já escritos, um outro, para os velhos: “Todos os velhos têm o direito à felicidade da preguiça”. Pois, como o Riobaldo disse: “Ah, a gente, na velhice, carece de ter uma aragem de descanso...”
Assim, “vou descansar meu fardo no chão,
À margem do rio...
Não vou mais me preocupar com a guerra...
Vou pôr no chão minha espada e meu escudo,
À margem do rio...
Como o está fazendo agora o meu gato, dormindo deitado sobre a minha mesa de trabalho.
ALVES, Rubem. Disponível em: http://zelmar.blogspot.com/2009/10/filosofia-do-gato.html.

Confessem...
Quais os motivos que cada um de vocês – velhos, moços, mais ou menos velhos, mais ou menos moços – tem para trocar as obrigações por um dolce far niente?
Não deixem de me dizer, para que eu colecione mais razões para minhas preguiças...
Um abraço, relaxado e caloroso (não, nunca preguiçoso).

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Para encarar o presente



Em 29/12/2015, comentei e publiquei alguns poemas de Drummond. Ao relembrar seu nascimento (o poeta itabirano, brasileiro e universal nasceu em 29/10/1902), permito-me repetir um daqueles poemas (e o comentário), pela sua atualidade e pertinência ao hoje brasileiro e mundial. Na época, escrevi:
A insegurança – nacional e universal – em que vivemos torna bastante atual o poema que Drummond publicou em 1945. O leitor é defrontado com a palavra medo, inúmeras vezes repetida, como uma sirene a alertar para o perigo da fixação do terror.
No entanto, que sejamos conduzidos, tal como o eu poético sugere, por caminhos mais abrangentes que aquele da angústia paralisante, pois: “O medo, com sua física, / tanto produz: carcereiros, / edifícios, escritores, / este poema; outras vidas”.1
Referia-me ao poema que vem a seguir.

O medo

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

Nós e nossos filhos, herdeiros do medo...
Deixo aqui minha esperança de que o medo, que tudo é capaz de produzir, também produza ações afirmativas e vidas solidárias.
Porque, se “em verdade temos medo”, nossa realidade coletiva pode e deve fazer brotar a flor da vida construtiva. Uma flor que, mesmo sendo, por enquanto, mirrada e feia, tem em seu miolo-coração a força das sinceras intenções e dos grandes destinos. Como aquela cantada por Drummond, em outro lugar: É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
E não podemos nos esquecer do alerta drummondiano, contido em outro de seus poemas:

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.

Abraços fraternos, esperançosos e sem medo.

1 Os poemas aqui citados encontram-se em: ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1963; e Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.