sábado, 25 de novembro de 2017

Vozes de duas mulheres poetas

Esmeralda Ribeiro e Conceição Evaristo

Diz Esmeralda Ribeiro, em seu poema Ensinamentos: ”ser invisível quando não se quer ser é ser mágico nato”. Se me é permitido, direciono a frase para uma realidade que todos conhecemos: ser mulher e ser negra é caminho duplamente seguro para a "magia" da invisibilidade.
O que se dirá, então, quando essa mulher escolhe traçar caminhos próprios, percorrendo estradas incertas de chão tortuoso, como o da arte literária? Quanto é necessário de desprendimento e coragem! Quanto empenho para fazer-se ouvir! Quanta entrega e vontade, quanta teimosia paciente e aplicada para ir em frente!
Por isso mesmo, a mulher negra escritora caminha com o olhar lúcido que a induz a produzir obras marcantes e a faz ser, quase inevitavelmente, socialmente atuante.
Esmeralda Ribeiro1 é uma delas: escritora e jornalista, empreende ações de valorização da literatura afro-brasileira e da mulher negra, sua cultura, seu protagonismo. Porque sempre existe a possibilidade (e necessidade) de se usar a própria segregação e invisibilidade como impulso e força para a afirmação individual, social e, principalmente “para assim construir-se humano”, em palavras de seu poema.
A seguir, registro o poema acima citado.
1Esmeralda Ribeiro “faz parte da Geração Quilombhoje desde 1982, atuando em movimentos de combate ao racismo e na construção de uma literatura negra – com incentivo à participação da mulher –, a partir do resgaste da memória e das tradições africanas e afro-brasileiras. [...] Tem poemas em diversas antologias no Brasil e no exterior”.
[Fonte:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2316-40182017000200276.]

Esmeralda Ribeiro: ensinamentos de poeta negra
Ensinamentos
ser invisível quando não se quer ser
é ser mágico nato
não se ensina, não se pratica, mas se aprende
no primeiro dia de aula aprende-se
que é uma ciência exata
o invisível exercita o ser “zero à esquerda”
o invisível não exercita cidadania
as aulas de emprego, casa e comida
são excluídas do currículo da vida
ser invisível quando não se quer ser
é ser um fantasma que não assusta ninguém
quando se é invisível sem querer
ninguém conta até dez
ninguém tapa ou fecha os olhos
a brincadeira agora é outra
os outros brincam de não nos ver
saiba que nos tornamos invisíveis
sem truques, sem mágicas,
ser invisível é uma ciência exata
mas o invisível é visto no mundo financeiro
é visto para apanhar da polícia
é visto na época das eleições
é visto para acertar as contas com o leão
para pagar prestações e mais prestações
é tanto zero à esquerda que o invisível
na levada da vida soma-se
a outros tantos zeros à esquerda
para assim construir-se humano.
[Disponível em: http://www.quilombhoje.com.br/sarau.php]

O que aprendemos dos Ensinamentos: a
 condição de invisibilidade imposta, há tantas gerações, a quem é negro e – penosa redundância – também pobre, está mais que denunciada nas palavras contundentes do eu poético:
o invisível exercita o ser “zero à esquerda”
o invisível não exercita cidadania
as aulas de emprego, casa e comida
são excluídas do currículo da vida

Este aprendizado imposto, exatamente porque é imposto, porque é “ser invisível quando não se quer ser”, revela-se (angustiante ironia!) magia desde o nascimento: é o destino ao qual não se escapa. Depois, pelo viver em sociedade, torna-se conhecimento sistematizado, uma “ciência exata”:
ser invisível quando não se quer ser
é ser mágico nato
não se ensina, não se pratica, mas se aprende
no primeiro dia de aula aprende-se
que é uma ciência exata


 Conceição Evaristo: a sabedoria da experiência
Outra mulher poeta e atuante. São outros ensinamentos. Ou são os mesmos, ditos de outra forma. Outra voz; outra vivência; e a convergência para o mesmo foco.
Na verdade, Conceição Evaristo2 é, talvez, uma das mais conhecidas poetas brasileiras de agora. Justamente por isso, pode ser considerada inspiradora e ensinante de quantas surgem no século XXI. O alcance e as virtudes literárias de Conceição Evaristo, somados à sua militância literária e social, envolvem o empoderamento feminino e a diversidade, em seu contexto mais amplo.
Registro, aqui, dois de seus poemas.
No primeiro, a escritora mapeia a ancestralidade do sofrimento e a lucidez recebida como herança materna. A inclusão de contrários e paradoxos (brandura / violência; meio riso / alegria inteira; fé desconfiada e outros, que grifei no poema) detalha características da dor aprendida:
quando se anda descalço
cada dedo olha a estrada.
... E de sua transformação em arte, verdadeiro aprendizado de superação e de sublimação:
fazer da palavra
artifício
arte e ofício
do meu canto
da minha fala.

Eis o poema todo, no qual intensamente se confere força e valor à imagem de mãe e de mulher:
De mãe
O cuidado de minha poesia
aprendi foi de mãe
,
mulher de pôr reparo nas coisas,
e de assuntar a vida.
A brandura de minha fala
na violência de meus ditos

ganhei de mãe,
mulher prenhe de dizeres,
fecundados na boca do mundo.
Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá,
do fogo tirava água,
do pranto criava consolo
.
Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder
alegria inteira
e essa fé desconfiada,
pois, quando se anda descalço
cada dedo olha a estrada.
Foi mãe que me descegou
para os cantos milagreiros da vida

apontando-me o fogo disfarçado
em cinzas e a agulha do
tempo movendo no palheiro.
Foi mãe que me fez sentir
as flores amassadas
debaixo das pedras
os corpos vazios
rente às calçadas
e me ensinou,
insisto, foi ela
a fazer da palavra
artifício
arte e ofício
do meu canto
da minha fala
.
[Disponível em: www.revistaprosaversoearte.com/conceicao-evaristo-poemas]

A condição de ser mulher e a consciência do que isso traz de peso e de poder vêm fortes em outro poema,  Eu-Mulher. Outra vez, o contraste, agora de cores, substâncias, sentimentos, que se fundem na previsão, geração e ativação do mundo, por parte da mulher-mãe:“fêmea-matriz” e “força-motriz”: O leitor atento saberá desvendar estes e outros achados poéticos:
Eu-Mulher
Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
   
2Conceição Evaristo é natural de Belo Horizonte e hoje vive no Rio de Janeiro. Estreou na literatura na década de 1990, é doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense e militante ativa do movimento negro. Suas obras abordam questões como o racismo brasileiro e a condição de ser mulher e negra no país. Conceição tem diferentes obras publicadas e premiadas no exterior.”
[Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/07/29/cultura/1501282581_629505.html]


Vozes esclarecidas
Termino com afirmações, em entrevistas, das duas poetas focalizadas. Que sirvam como uma espécie de síntese e um retrato 3x4 de suas firmes convicções e lutas.
Esmeralda Ribeiro, sobre a importância do fazer literário e a posição de “autora negra” no seio da literatura brasileira:
“É como respirar para viver. No campo literário, tenho que comemorar meu gol como eu sou. Sem cartão vermelho para minha opção de ser mulher negra escritora. Fico os 90 milhões de minutos no campo literário. Não aceito substituições. [...] Quero ser inteira: mulher negra escritora. Há de se pagar um preço. Eu pago! Prefiro isso a ser apagada da historiografia literária.”
[www.scielo.br/pdf/elbc/n51/2316-4018-elbc-51-00276.pdf.]
Conceição Evaristo, sobre a importância da literatura como expressão e representação da identidade e da diversidade cultural:
“Quando falamos em literatura, quando pensamos nela como uma forma de explicitação da identidade nacional, colocar negros e índios é apenas nos colocar em nosso lugar de direito. Pensar na literatura desta forma é pensar na diversidade não somente em termos teóricos, mas em termos práticos de representação.”
[https://www.cartacapital.com.br]
Meu abraço a todos.

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