quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A crônica objetante



Tomo os textos que se seguem, como ilustração introdutória ao assunto de hoje.


Texto 1

"Os alimentos são, como sabemos, condição única e essencial para a manutenção da vida. Sem uma dieta equilibrada, tanto em quantidade como em variedade, o organismo não se desenvolve corretamente e não dispõe de resistências (reservas nutricionais) para lutar ativamente contra determinadas doenças, podendo levar ao envelhecimento precoce e à perda de qualidade de vida.

A alimentação deve ser variada, de forma a fornecer equilibradamente todos os nutrientes necessários à vida (vitaminas, sais minerais, proteínas, hidratos de carbono. lípidos e água).  

Uma dieta diária, para ser equilibrada, deve ser adequada às características e hábitos de cada pessoa. A quantidade de alimentos essenciais para a saúde depende de fatores muito importantes, tais como: idade, sexo, atividade física e, até mesmo, situação clínica."


Texto 2

"Segundo o sábio Claude Bernard1, o caráter absoluto da vitalidade é a nutrição; pois, onde ela existe, há vida; onde se interrompe, há morte.

Os alimentos fornecem ao homem os elementos constituintes da própria substância humana; o homem é o alimento que ele come.

Sem o concurso de certos alimentos minerais e orgânicos, depressa a vida sobre a terra se extinguiria.

O carbono, o oxigênio, o azoto, o fósforo e outros minerais são decisivos à vitalidade da célula. O oxigênio é o primeiro elemento indispensável.

Há alimentos orgânicos ternários e quaternários. Os alimentos ternários, constituídos pelas gorduras e pelos hidratos de carbono são importantíssimos. O ovo, o leite e a carne são alimentos extraordinários.

A sensação de fome é acompanhada de contrações gástricas, uma espécie de cãibra no estômago.

As vitaminas são substâncias influentes no crescimento e na saúde; quando elas faltam, comparecem o escorbuto, o beribéri e outras doenças."


Os dois textos contêm informações bastante semelhantes às usualmente encontradas em livros didáticos ou em revistas e sites de divulgação científica, e procuram alertar o leigo sobre a importância de vida e nutrição saudáveis. A origem deles é, no entanto, diversa. O primeiro foi editado de textos facilmente encontrados em páginas eletrônicas dedicadas à saúde.

Já o segundo é recorte de uma crônica de Paulo Mendes Campos: o texto, assim tratado e comparado ao primeiro, serve para nos dar a certeza de que o cronista não parte de dados hipotéticos ou fictícios; ao contrário, toma informação científica e, a ela, contrapõe o retrato de uma dura realidade.

A seguir, registro a crônica, na íntegra. A diferenciação de cor mostrará a parte que serviu de base ao texto editado e auxiliará nossa compreensão sobre o tratamento dado a conhecimentos científicos comumente veiculados e ensinados.

1 Fisiologista francês (1813 – 1878). Suas investigações deram a conhecer os mecanismos que regem o funcionamento dos seres vivos. Bernard defendeu a teoria de que num organismo existe uma equilíbrio complexo de reações químicas que é indispensável à vida. [Fonte: Claude Bernard in Artigos de apoio Infopédia Porto: Porto Editora, 2003-2017. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$claude-bernard.]


Dieta do homem

1 Nas carteiras da escola me ensinaram, segundo o sábio Claude Bernard, que o caráter absoluto da vitalidade é a nutrição: pois onde ela existe, há vida; onde se interrompe, há morte. Mas não me disseram que entre os animais humanos, o lado que pende para a morte, por falta de nutrição, é mais numeroso que o lado erguido para a vida.

2 Me ensinaram que alimentos fornecem ao homem os elementos constituintes da própria substância humana; o homem é o alimento que ele come. Mas não me disseram que existem homens aos quais faltam elementos que constituem o homem. Homens incompletos, homens mutilados em sua substância, homens deduzidos de certas propriedades humanas fundamentais; homens vivendo o processo da morte.

3 Me ensinaram, no delicado modo condicional, que sem o concurso de certos alimentos minerais e orgânicos, depressa a vida sobre a terra se extinguiria. Mas não me disseram que, depressa, por toda a parte, a vida se extingue, no duro modo indicativo.

4 Me ensinaram que o oxigênio é o primeiro elemento indispensável. Mas não me disseram que o oxigênio é bem comum de toda a humanidade, salvo em minas e galerias, onde é escasso.

5 Me ensinaram que o carbono, o hidrogênio, o azoto, o fósforo e outros minerais são decisivos à vida da célula. Mas não me disseram (por óbvio, mas eu era um estudante tão distraído) que aqueles elementos não se encontram no ar que respiramos. E ainda que se encontrem na terra, acaso digerida por alguma criança, seu poder de assimilação é nenhum.

6 Me ensinaram que há alimentos ternários e quaternários. Mas não me disseram que dois terços de nossos irmãos no mundo sofrem de fome. Me ensinaram que os alimentos ternários constituídos pelas gorduras e pelos hidratos de carbono, são superlativamente importantíssimos. Mas não me disseram que, em cem, dez homens estão, a qualquer hora, às portas da inanição.

7 Me ensinaram que o ovo, o leite e a carne são alimentos extraordinários. Mas não me disseram que, em certas regiões do mundo, há homens que consomem ovos, leite e carne em quantidade muito acima das exigências da máquina humana.

8 Me ensinaram que a sensação de fome é acompanhada de contrações gástricas, uma espécie de cãibra no estômago; mas disseram isso de maneira impessoal, como se fosse apenas a dedução teórica de um acidente possível.

9 Me ensinaram que as vitaminas são substâncias influentes no crescimento e na saúde; quando elas faltam, comparece o escorbuto, o beribéri, a pelagra e outras doenças, mas não me disseram nem onde, nem quantos padecem de avitaminoses.

10 Nas carteiras da escola me disseram muitas coisas. Mas não me disseram coisas essenciais à condição do homem. O homem não fazia parte do programa.

[CAMPOS, Paulo Mendes. O anjo bêbado. Rio de Janeiro: Sabiá, 1969.]


O que se ensina e o que não

► Na crônica, repete-se uma organização frásica dividida em dois segmentos, unidos pelo conector lógico “mas”, que estabelece relação de contradição, oposição entre partes, assim:

“Me ensinaram que... mas não me disseram que...”

► Essa estrutura se faz presente de modo insistente, martelado – mas nunca redundante, em termos de informação. Ao contrário, a cada passo, agregam-se elementos importantes, de um e outro lado, como se em dois pratos de uma balança: de um lado, condições essenciais à manutenção da vida; do outro, situações existentes, de ausência de condições de vida ideais, ou meramente normais, do homem.

De um lado, a afirmação, a aprendizagem de conceitos que “me ensinaram” – e que são aquelas condições ideais para a vida saudável; do outro, a negação, o que “não me disseram”, ou seja, a não aprendizagem daquilo que contradiz o que a ciência postula, e que é, verdadeiramente, a vida real de muitos. Exemplifico com o primeiro parágrafo (notem como a nomeação “animais humanos” acentua a dramaticidade do destino da maioria dos homens):

“... me ensinaram [...] que o caráter absoluto da vitalidade é a nutrição: pois onde ela existe, há vida; onde se interrompe, há morte. Mas não me disseram que entre os animais humanos, o lado que pende para a morte, por falta de nutrição, é mais numeroso que o lado erguido para a vida.”

► O segundo parágrafo traz um contraste importante entre a palavra “homem” e seu plural “homens”. Ao “homem”, enquanto espécie, aplicam-se sadios ensinamentos: “o homem é o alimento que ele come”. Aos “homens”, individualizados, cabem os adjetivos denunciadores da doença, da miséria e da insalubridade: “Homens incompletos, homens mutilados em sua substância, homens deduzidos de certas propriedades humanas fundamentais; homens vivendo o processo da morte.”

► Os parágrafos seguintes  detalham as carências que justificam os adjetivos, aprofundando, assim, o quadro dramático entre o que deveria ser e o que é. A necessidade de ar puro, de vitaminas e minerais; o bem que fazem os alimentos de todas as categorias; a importância desses elementos para a manutenção da energia e a prevenção de doenças – tudo isso foi ensinado ao cronista. E ele chama a atenção do leitor para a inocuidade dessa aprendizagem, não apenas ao mostrar o contraste entre teoria e realidade, como também fazendo uso de argumentos menos objetivos, mas, sem dúvida, bastante persuasivos, tais quais a ironia e a emoção.
Registro:
A contraposição, no 3º parágrafo, que apela à emoção (aqui, o cronista conta, inclusive, com o conhecimento linguístico do leitor):“Me ensinaram, no delicado modo condicional [...]  Mas não me disseram que [...]a vida se extingue, no duro modo indicativo.”

 A ironia no 5º parágrafo:“Mas não me disseram (por óbvio, mas eu era um estudante tão distraído) que aqueles elementos não se encontram no ar que respiramos.”

O apelo emotivo ao leitor, no 6º parágrafo, chamando-o à consciência da irmandade humana:“Mas não me disseram que dois terços de nossos irmãos no mundo sofrem de fome.”

No 8º parágrafo, ao referir-se à fome, a contundência fica maior, e a denúncia mais explícita:“...mas disseram isso de maneira impessoal, como se fosse apenas a dedução teórica de um acidente possível.


► Portanto, o 8º parágrafo já escancara a impessoalidade de uma escola desconectada da vida, que a frase final do texto sintetiza magistralmente:
“O homem não fazia parte do programa.”


“O homem não fazia parte do programa”

Este fecho da crônica aponta que, sob a aparente rememoração de uma não aprendizagem individual (“me ensinaram... não me disseram), o texto, do começo ao fim, organiza-se como uma aguda crítica à escola burocrática, que não prioriza o homem, em seu programa; que não volta seu olhar para o outro, para o ser em si, para a vida; e que, portanto, não tem interesse em incentivar o olhar do aluno para seu semelhante.
Na frase, o escritor usa o verbo no pretérito imperfeito – “fazia” –, indicando tratar-se não de um evento pontual, mas de um acontecimento contínuo e permanente, no passado anterior a 1969, ano da publicação.  É interessante pensar: se Paulo Mendes Campos vivesse e atualizasse hoje sua crônica, quais dados mudaria? Quais suprimiria? Quais acrescentaria?
E, principalmente: como a terminaria? Como educadora, entristeço-me em pensar que, ainda hoje, seria possível manter a frase final, apenas mudando o tempo verbal; porque, efetivamente, em muitas escolas, ainda,  "o homem não faz parte do programa".
Sobre essa questão, gostaria muito de conhecer a opinião de você, que me lê.
A todos, deixo meu abraço.

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