quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A crônica objetante



Tomo os textos que se seguem, como ilustração introdutória ao assunto de hoje.


Texto 1

"Os alimentos são, como sabemos, condição única e essencial para a manutenção da vida. Sem uma dieta equilibrada, tanto em quantidade como em variedade, o organismo não se desenvolve corretamente e não dispõe de resistências (reservas nutricionais) para lutar ativamente contra determinadas doenças, podendo levar ao envelhecimento precoce e à perda de qualidade de vida.

A alimentação deve ser variada, de forma a fornecer equilibradamente todos os nutrientes necessários à vida (vitaminas, sais minerais, proteínas, hidratos de carbono. lípidos e água).  

Uma dieta diária, para ser equilibrada, deve ser adequada às características e hábitos de cada pessoa. A quantidade de alimentos essenciais para a saúde depende de fatores muito importantes, tais como: idade, sexo, atividade física e, até mesmo, situação clínica."


Texto 2

"Segundo o sábio Claude Bernard1, o caráter absoluto da vitalidade é a nutrição; pois, onde ela existe, há vida; onde se interrompe, há morte.

Os alimentos fornecem ao homem os elementos constituintes da própria substância humana; o homem é o alimento que ele come.

Sem o concurso de certos alimentos minerais e orgânicos, depressa a vida sobre a terra se extinguiria.

O carbono, o oxigênio, o azoto, o fósforo e outros minerais são decisivos à vitalidade da célula. O oxigênio é o primeiro elemento indispensável.

Há alimentos orgânicos ternários e quaternários. Os alimentos ternários, constituídos pelas gorduras e pelos hidratos de carbono são importantíssimos. O ovo, o leite e a carne são alimentos extraordinários.

A sensação de fome é acompanhada de contrações gástricas, uma espécie de cãibra no estômago.

As vitaminas são substâncias influentes no crescimento e na saúde; quando elas faltam, comparecem o escorbuto, o beribéri e outras doenças."


Os dois textos contêm informações bastante semelhantes às usualmente encontradas em livros didáticos ou em revistas e sites de divulgação científica, e procuram alertar o leigo sobre a importância de vida e nutrição saudáveis. A origem deles é, no entanto, diversa. O primeiro foi editado de textos facilmente encontrados em páginas eletrônicas dedicadas à saúde.

Já o segundo é recorte de uma crônica de Paulo Mendes Campos: o texto, assim tratado e comparado ao primeiro, serve para nos dar a certeza de que o cronista não parte de dados hipotéticos ou fictícios; ao contrário, toma informação científica e, a ela, contrapõe o retrato de uma dura realidade.

A seguir, registro a crônica, na íntegra. A diferenciação de cor mostrará a parte que serviu de base ao texto editado e auxiliará nossa compreensão sobre o tratamento dado a conhecimentos científicos comumente veiculados e ensinados.

1 Fisiologista francês (1813 – 1878). Suas investigações deram a conhecer os mecanismos que regem o funcionamento dos seres vivos. Bernard defendeu a teoria de que num organismo existe uma equilíbrio complexo de reações químicas que é indispensável à vida. [Fonte: Claude Bernard in Artigos de apoio Infopédia Porto: Porto Editora, 2003-2017. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$claude-bernard.]


Dieta do homem

1 Nas carteiras da escola me ensinaram, segundo o sábio Claude Bernard, que o caráter absoluto da vitalidade é a nutrição: pois onde ela existe, há vida; onde se interrompe, há morte. Mas não me disseram que entre os animais humanos, o lado que pende para a morte, por falta de nutrição, é mais numeroso que o lado erguido para a vida.

2 Me ensinaram que alimentos fornecem ao homem os elementos constituintes da própria substância humana; o homem é o alimento que ele come. Mas não me disseram que existem homens aos quais faltam elementos que constituem o homem. Homens incompletos, homens mutilados em sua substância, homens deduzidos de certas propriedades humanas fundamentais; homens vivendo o processo da morte.

3 Me ensinaram, no delicado modo condicional, que sem o concurso de certos alimentos minerais e orgânicos, depressa a vida sobre a terra se extinguiria. Mas não me disseram que, depressa, por toda a parte, a vida se extingue, no duro modo indicativo.

4 Me ensinaram que o oxigênio é o primeiro elemento indispensável. Mas não me disseram que o oxigênio é bem comum de toda a humanidade, salvo em minas e galerias, onde é escasso.

5 Me ensinaram que o carbono, o hidrogênio, o azoto, o fósforo e outros minerais são decisivos à vida da célula. Mas não me disseram (por óbvio, mas eu era um estudante tão distraído) que aqueles elementos não se encontram no ar que respiramos. E ainda que se encontrem na terra, acaso digerida por alguma criança, seu poder de assimilação é nenhum.

6 Me ensinaram que há alimentos ternários e quaternários. Mas não me disseram que dois terços de nossos irmãos no mundo sofrem de fome. Me ensinaram que os alimentos ternários constituídos pelas gorduras e pelos hidratos de carbono, são superlativamente importantíssimos. Mas não me disseram que, em cem, dez homens estão, a qualquer hora, às portas da inanição.

7 Me ensinaram que o ovo, o leite e a carne são alimentos extraordinários. Mas não me disseram que, em certas regiões do mundo, há homens que consomem ovos, leite e carne em quantidade muito acima das exigências da máquina humana.

8 Me ensinaram que a sensação de fome é acompanhada de contrações gástricas, uma espécie de cãibra no estômago; mas disseram isso de maneira impessoal, como se fosse apenas a dedução teórica de um acidente possível.

9 Me ensinaram que as vitaminas são substâncias influentes no crescimento e na saúde; quando elas faltam, comparece o escorbuto, o beribéri, a pelagra e outras doenças, mas não me disseram nem onde, nem quantos padecem de avitaminoses.

10 Nas carteiras da escola me disseram muitas coisas. Mas não me disseram coisas essenciais à condição do homem. O homem não fazia parte do programa.

[CAMPOS, Paulo Mendes. O anjo bêbado. Rio de Janeiro: Sabiá, 1969.]


O que se ensina e o que não

► Na crônica, repete-se uma organização frásica dividida em dois segmentos, unidos pelo conector lógico “mas”, que estabelece relação de contradição, oposição entre partes, assim:

“Me ensinaram que... mas não me disseram que...”

► Essa estrutura se faz presente de modo insistente, martelado – mas nunca redundante, em termos de informação. Ao contrário, a cada passo, agregam-se elementos importantes, de um e outro lado, como se em dois pratos de uma balança: de um lado, condições essenciais à manutenção da vida; do outro, situações existentes, de ausência de condições de vida ideais, ou meramente normais, do homem.

De um lado, a afirmação, a aprendizagem de conceitos que “me ensinaram” – e que são aquelas condições ideais para a vida saudável; do outro, a negação, o que “não me disseram”, ou seja, a não aprendizagem daquilo que contradiz o que a ciência postula, e que é, verdadeiramente, a vida real de muitos. Exemplifico com o primeiro parágrafo (notem como a nomeação “animais humanos” acentua a dramaticidade do destino da maioria dos homens):

“... me ensinaram [...] que o caráter absoluto da vitalidade é a nutrição: pois onde ela existe, há vida; onde se interrompe, há morte. Mas não me disseram que entre os animais humanos, o lado que pende para a morte, por falta de nutrição, é mais numeroso que o lado erguido para a vida.”

► O segundo parágrafo traz um contraste importante entre a palavra “homem” e seu plural “homens”. Ao “homem”, enquanto espécie, aplicam-se sadios ensinamentos: “o homem é o alimento que ele come”. Aos “homens”, individualizados, cabem os adjetivos denunciadores da doença, da miséria e da insalubridade: “Homens incompletos, homens mutilados em sua substância, homens deduzidos de certas propriedades humanas fundamentais; homens vivendo o processo da morte.”

► Os parágrafos seguintes  detalham as carências que justificam os adjetivos, aprofundando, assim, o quadro dramático entre o que deveria ser e o que é. A necessidade de ar puro, de vitaminas e minerais; o bem que fazem os alimentos de todas as categorias; a importância desses elementos para a manutenção da energia e a prevenção de doenças – tudo isso foi ensinado ao cronista. E ele chama a atenção do leitor para a inocuidade dessa aprendizagem, não apenas ao mostrar o contraste entre teoria e realidade, como também fazendo uso de argumentos menos objetivos, mas, sem dúvida, bastante persuasivos, tais quais a ironia e a emoção.
Registro:
A contraposição, no 3º parágrafo, que apela à emoção (aqui, o cronista conta, inclusive, com o conhecimento linguístico do leitor):“Me ensinaram, no delicado modo condicional [...]  Mas não me disseram que [...]a vida se extingue, no duro modo indicativo.”

 A ironia no 5º parágrafo:“Mas não me disseram (por óbvio, mas eu era um estudante tão distraído) que aqueles elementos não se encontram no ar que respiramos.”

O apelo emotivo ao leitor, no 6º parágrafo, chamando-o à consciência da irmandade humana:“Mas não me disseram que dois terços de nossos irmãos no mundo sofrem de fome.”

No 8º parágrafo, ao referir-se à fome, a contundência fica maior, e a denúncia mais explícita:“...mas disseram isso de maneira impessoal, como se fosse apenas a dedução teórica de um acidente possível.


► Portanto, o 8º parágrafo já escancara a impessoalidade de uma escola desconectada da vida, que a frase final do texto sintetiza magistralmente:
“O homem não fazia parte do programa.”


“O homem não fazia parte do programa”

Este fecho da crônica aponta que, sob a aparente rememoração de uma não aprendizagem individual (“me ensinaram... não me disseram), o texto, do começo ao fim, organiza-se como uma aguda crítica à escola burocrática, que não prioriza o homem, em seu programa; que não volta seu olhar para o outro, para o ser em si, para a vida; e que, portanto, não tem interesse em incentivar o olhar do aluno para seu semelhante.
Na frase, o escritor usa o verbo no pretérito imperfeito – “fazia” –, indicando tratar-se não de um evento pontual, mas de um acontecimento contínuo e permanente, no passado anterior a 1969, ano da publicação.  É interessante pensar: se Paulo Mendes Campos vivesse e atualizasse hoje sua crônica, quais dados mudaria? Quais suprimiria? Quais acrescentaria?
E, principalmente: como a terminaria? Como educadora, entristeço-me em pensar que, ainda hoje, seria possível manter a frase final, apenas mudando o tempo verbal; porque, efetivamente, em muitas escolas, ainda,  "o homem não faz parte do programa".
Sobre essa questão, gostaria muito de conhecer a opinião de você, que me lê.
A todos, deixo meu abraço.

sábado, 25 de novembro de 2017

Vozes de duas mulheres poetas

Esmeralda Ribeiro e Conceição Evaristo

Diz Esmeralda Ribeiro, em seu poema Ensinamentos: ”ser invisível quando não se quer ser é ser mágico nato”. Se me é permitido, direciono a frase para uma realidade que todos conhecemos: ser mulher e ser negra é caminho duplamente seguro para a "magia" da invisibilidade.
O que se dirá, então, quando essa mulher escolhe traçar caminhos próprios, percorrendo estradas incertas de chão tortuoso, como o da arte literária? Quanto é necessário de desprendimento e coragem! Quanto empenho para fazer-se ouvir! Quanta entrega e vontade, quanta teimosia paciente e aplicada para ir em frente!
Por isso mesmo, a mulher negra escritora caminha com o olhar lúcido que a induz a produzir obras marcantes e a faz ser, quase inevitavelmente, socialmente atuante.
Esmeralda Ribeiro1 é uma delas: escritora e jornalista, empreende ações de valorização da literatura afro-brasileira e da mulher negra, sua cultura, seu protagonismo. Porque sempre existe a possibilidade (e necessidade) de se usar a própria segregação e invisibilidade como impulso e força para a afirmação individual, social e, principalmente “para assim construir-se humano”, em palavras de seu poema.
A seguir, registro o poema acima citado.
1Esmeralda Ribeiro “faz parte da Geração Quilombhoje desde 1982, atuando em movimentos de combate ao racismo e na construção de uma literatura negra – com incentivo à participação da mulher –, a partir do resgaste da memória e das tradições africanas e afro-brasileiras. [...] Tem poemas em diversas antologias no Brasil e no exterior”.
[Fonte:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2316-40182017000200276.]

Esmeralda Ribeiro: ensinamentos de poeta negra
Ensinamentos
ser invisível quando não se quer ser
é ser mágico nato
não se ensina, não se pratica, mas se aprende
no primeiro dia de aula aprende-se
que é uma ciência exata
o invisível exercita o ser “zero à esquerda”
o invisível não exercita cidadania
as aulas de emprego, casa e comida
são excluídas do currículo da vida
ser invisível quando não se quer ser
é ser um fantasma que não assusta ninguém
quando se é invisível sem querer
ninguém conta até dez
ninguém tapa ou fecha os olhos
a brincadeira agora é outra
os outros brincam de não nos ver
saiba que nos tornamos invisíveis
sem truques, sem mágicas,
ser invisível é uma ciência exata
mas o invisível é visto no mundo financeiro
é visto para apanhar da polícia
é visto na época das eleições
é visto para acertar as contas com o leão
para pagar prestações e mais prestações
é tanto zero à esquerda que o invisível
na levada da vida soma-se
a outros tantos zeros à esquerda
para assim construir-se humano.
[Disponível em: http://www.quilombhoje.com.br/sarau.php]

O que aprendemos dos Ensinamentos: a
 condição de invisibilidade imposta, há tantas gerações, a quem é negro e – penosa redundância – também pobre, está mais que denunciada nas palavras contundentes do eu poético:
o invisível exercita o ser “zero à esquerda”
o invisível não exercita cidadania
as aulas de emprego, casa e comida
são excluídas do currículo da vida

Este aprendizado imposto, exatamente porque é imposto, porque é “ser invisível quando não se quer ser”, revela-se (angustiante ironia!) magia desde o nascimento: é o destino ao qual não se escapa. Depois, pelo viver em sociedade, torna-se conhecimento sistematizado, uma “ciência exata”:
ser invisível quando não se quer ser
é ser mágico nato
não se ensina, não se pratica, mas se aprende
no primeiro dia de aula aprende-se
que é uma ciência exata


 Conceição Evaristo: a sabedoria da experiência
Outra mulher poeta e atuante. São outros ensinamentos. Ou são os mesmos, ditos de outra forma. Outra voz; outra vivência; e a convergência para o mesmo foco.
Na verdade, Conceição Evaristo2 é, talvez, uma das mais conhecidas poetas brasileiras de agora. Justamente por isso, pode ser considerada inspiradora e ensinante de quantas surgem no século XXI. O alcance e as virtudes literárias de Conceição Evaristo, somados à sua militância literária e social, envolvem o empoderamento feminino e a diversidade, em seu contexto mais amplo.
Registro, aqui, dois de seus poemas.
No primeiro, a escritora mapeia a ancestralidade do sofrimento e a lucidez recebida como herança materna. A inclusão de contrários e paradoxos (brandura / violência; meio riso / alegria inteira; fé desconfiada e outros, que grifei no poema) detalha características da dor aprendida:
quando se anda descalço
cada dedo olha a estrada.
... E de sua transformação em arte, verdadeiro aprendizado de superação e de sublimação:
fazer da palavra
artifício
arte e ofício
do meu canto
da minha fala.

Eis o poema todo, no qual intensamente se confere força e valor à imagem de mãe e de mulher:
De mãe
O cuidado de minha poesia
aprendi foi de mãe
,
mulher de pôr reparo nas coisas,
e de assuntar a vida.
A brandura de minha fala
na violência de meus ditos

ganhei de mãe,
mulher prenhe de dizeres,
fecundados na boca do mundo.
Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá,
do fogo tirava água,
do pranto criava consolo
.
Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder
alegria inteira
e essa fé desconfiada,
pois, quando se anda descalço
cada dedo olha a estrada.
Foi mãe que me descegou
para os cantos milagreiros da vida

apontando-me o fogo disfarçado
em cinzas e a agulha do
tempo movendo no palheiro.
Foi mãe que me fez sentir
as flores amassadas
debaixo das pedras
os corpos vazios
rente às calçadas
e me ensinou,
insisto, foi ela
a fazer da palavra
artifício
arte e ofício
do meu canto
da minha fala
.
[Disponível em: www.revistaprosaversoearte.com/conceicao-evaristo-poemas]

A condição de ser mulher e a consciência do que isso traz de peso e de poder vêm fortes em outro poema,  Eu-Mulher. Outra vez, o contraste, agora de cores, substâncias, sentimentos, que se fundem na previsão, geração e ativação do mundo, por parte da mulher-mãe:“fêmea-matriz” e “força-motriz”: O leitor atento saberá desvendar estes e outros achados poéticos:
Eu-Mulher
Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
   
2Conceição Evaristo é natural de Belo Horizonte e hoje vive no Rio de Janeiro. Estreou na literatura na década de 1990, é doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense e militante ativa do movimento negro. Suas obras abordam questões como o racismo brasileiro e a condição de ser mulher e negra no país. Conceição tem diferentes obras publicadas e premiadas no exterior.”
[Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/07/29/cultura/1501282581_629505.html]


Vozes esclarecidas
Termino com afirmações, em entrevistas, das duas poetas focalizadas. Que sirvam como uma espécie de síntese e um retrato 3x4 de suas firmes convicções e lutas.
Esmeralda Ribeiro, sobre a importância do fazer literário e a posição de “autora negra” no seio da literatura brasileira:
“É como respirar para viver. No campo literário, tenho que comemorar meu gol como eu sou. Sem cartão vermelho para minha opção de ser mulher negra escritora. Fico os 90 milhões de minutos no campo literário. Não aceito substituições. [...] Quero ser inteira: mulher negra escritora. Há de se pagar um preço. Eu pago! Prefiro isso a ser apagada da historiografia literária.”
[www.scielo.br/pdf/elbc/n51/2316-4018-elbc-51-00276.pdf.]
Conceição Evaristo, sobre a importância da literatura como expressão e representação da identidade e da diversidade cultural:
“Quando falamos em literatura, quando pensamos nela como uma forma de explicitação da identidade nacional, colocar negros e índios é apenas nos colocar em nosso lugar de direito. Pensar na literatura desta forma é pensar na diversidade não somente em termos teóricos, mas em termos práticos de representação.”
[https://www.cartacapital.com.br]
Meu abraço a todos.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Da angústia da palavra precisa


Artur da Távola, em crônica:
Li certa vez uma deliciosa confissão de Oscar Wilde. Diz com perfeição o que se passa de angústia na cabeça de um escritor, e como são erráticas e fugidias as palavras às quais o poeta Thiago de Mello chamou com perfeição de "o pântano enganoso das bocas". Mas disse o Oscar Wilde, num desabafo: "Passei a manhã debruçado sobre um poema. Tirei-lhe uma vírgula. Que à tarde, aflito, repus". 1
A nós, usuários cotidianos da língua, às vezes um simples bilhete traz dúvidas sobre sua escrita: uma ordem, crítica ou reclamação – até uma informação – requer escolha cuidadosa de palavras, para se evitar má interpretação ou mágoa. (Bem por isso, é de bom conselho construir um discurso bem pensado, ao transmitir alguma notícia ruim, ou fazer uma observação mais contundente a alguém...)
Essa busca da palavra justa é (ou deveria ser) encarada como um dever, quando se trata de textos a serem publicados (quaisquer que sejam – científicos, literários, jornalísticos). Para os escritores mais rigorosos, que só se contentam com o termo de melhor efeito estético ou com o modo de dizer que expresse mais objetivamente fatos e conhecimentos, chega, mesmo, a ser obsessão.
É que a palavra, aquela palavra tão desejada, aquela palavra tão necessária para integralizar o sentido, faz-se viva no texto e o vivifica. Caça à Palavra, crônica do escritor e professor Gabriel Perissé, traz essa perspectiva e desenha, de modo bem-humorado, a palavra enquanto entidade com vida própria: Quanto custa a vida de uma palavra? E se, para me pressionar, os criminosos enviassem fonemas decepados de seu corpo para que eu, encurralado, aceitasse pagar o valor impossível?
Convido-os a saborearem a crônica de Perissé por inteiro: atenção às diversas formas de se referir à palavra procurada; à consequência, para o texto, da falta dela (“estagnado”, “animal sem dono”); e... ao desespero do escritor.
Peço que reparem, ainda, em como as frases dos três últimos parágrafos encenam, resumem e, isoladas cada uma em um parágrafo, escancaram e acentuam o “drama” do escritor e a solução tão desejada.

Caça à palavra
Estava outro dia escrevendo um texto, cujo tema agora não importa mais. E no meio do caminho senti necessidade de uma determinada palavra. De um adjetivo em especial. Precisava daquela palavra e não a encontrava ao meu lado. 
Na mente, alguma clareza eu tinha. O conceito mais ou menos delineado. A ideia mais ou menos definida. A mensagem mais ou menos engatilhada. O objetivo mais ou menos objetivado. Vislumbrava a palavra, mas não sabia seu paradeiro. 
A palavra desejada estava em alguma praia, muito longe daqui, descansando da vida verbal. Ou estaria passeando em ruas improváveis, em outros países, cometendo estrangeirismos. Ou teria entrado em órbita, perdida no espaço, à beira de universos paralelos. 
Bem sabia eu que não haveria sinônimos ou substitutos para aquela palavra. O texto e o contexto não permitiam outra palavra. Certamente encontrara outros autores e a eles se entregara. Negando-se a vir. Fugindo de mim. 
Procurei-a em dicionários de papel e eletrônicos. Percorri e vasculhei textos alheios, abrindo parágrafos ao meio para ver se a flagrava ali escondida. A palavra apetecida estava desaparecida. Era preciso caçar mais intensamente a palavra cobiçada. Era tudo ou nada! 
Por ela perguntava a quantos encontrei. A linguistas e filólogos, a gramáticos e professores, a leigos e doutores: “onde está a palavra”? 
Queriam descrições mais exatas, indicações mais precisas. Em que linhas estava a palavra quando foi lida pela última vez? Que páginas costumava frequentar nos finais de semana? Era vulgar? Erudita? Esdrúxula? Era uma palavra de honra? 
Com quem andava rimando nos últimos tempos? Sabe algo de sua árvore etimológica? Quais sons emitia? Que sujeitos costumava acompanhar? Que predicativos tinha? 
Eu media as palavras para responder. Não fosse eu acabar atrapalhando as investigações. Não acabasse por induzir os caçadores a trazerem, viva ou morta, a palavra errada.
Não conseguia mais dormir. O texto, como animal sem dono, me olhava, suplicando continuidade. E a palavra não vinha. O texto, estagnado. Eu, desesperado. 
Talvez a tivessem sequestrado e em breve me telefonariam exigindo resgate absurdo. Quanto custa a vida de uma palavra? E se, para me pressionar, os criminosos enviassem fonemas decepados de seu corpo para que eu, encurralado, aceitasse pagar o valor impossível? 
Cinco longos dias assim, sem a palavra. 
Então, quando tudo parecia perdido, a porta se abriu lentamente. 
Ela mesma, capciosa, entrou sem pedir licença. 2

1 Disponível em: http://www.portalentretextos.com.br/materia/escrever-agonia,12.
2 Disponível em: www.correiocidadania.com.br/colunistas/gabriel-perisse/6070-20-07-2011-caca-a-palavra.
 

Não estamos sós...
Nós, Artur da Távola, Oscar Wilde, Gabriel Perissé... quem um dia, atreveu-se a escrever – e não precisa ser profissionalmente – conhece esse desconforto da procura da melhor forma, da melhor palavra.
Também Fernando Sabino – ele, jornalista, cronista e contista de talento reconhecido – confessou, certa vez:
Outro dia escrevi três vezes um bilhete para a empregada: troquei palavras, acrescentei vírgulas, foi o maior esforço para ser claro, para me fazer entender.  3
Poderia citar muitos outros escritores (e já o fiz, em certas ocasiões) que se dispuseram ou se dispõem a refletir sobre o desafio que é buscar a perfeição na escrita. Contento-me, por hoje, com uma pequena amostra de Drummond, mestre em tecer poemas que se debruçam sobre a própria tessitura do texto. Seu final de Procura da Poesia4 é uma excelente – e dura – lição a quem se arrisca a “caçar palavras”:
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

É reconfortante saber que escritores profissionais também se sentem desafiados pela palavra, assim como nós, não é mesmo? Bem... A “única” diferença é que eles chegam a textos incríveis, até mesmo ao revelar o sofrimento vivido na criação de um texto!
Quanto a nós...
Um abraço!
3 Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/coletanea.pdf.
4 ANDRADE, Carlos Drummond de. In A Rosa do Povo. Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.