terça-feira, 17 de outubro de 2017

Quando dizer menos esclarece um pouco mais


Pierrô solitário.
Jovem, solteiro, carinhoso, deseja conhecer moça que tenha entre 20 e 30 anos, meiga, solteira e igualmente solitária, para relacionamento sério. Pede-se a quem se interessar que envie uma carta, relatando seus dados e preferências. Escreva para C. P. 0000.
O texto acima, vê-se logo, é um anúncio classificado, que se caracteriza por ser curto, razoavelmente objetivo, descritivo e, ao mesmo tempo, persuasivo – pois, nele, alguém oferece ou procura uma pessoa, um serviço, um bem, ressaltando-lhe as qualidades positivas, desejáveis ou desejadas.
Muitas vezes, o classificado apresenta título chamativo (aqui, “Pierrô Solitário). O corpo do texto descreve as qualidades do objeto do anúncio (aqui, “moça que tenha entre 20 e 30 anos, meiga e solitária”), de forma a atrair a atenção. Termina, sempre, com o endereço para contato com o anunciante (aqui, “C. P. 000”).
Embora um pouco mais longo, o texto que vem a seguir é, aparentemente, um classificado, que poderia – como o anterior e tantos mais – estar inserido em algum jornal, revista ou site:

CORREIO DO POVO – 27/09/73
Informações
Maria Joana Knijnick, solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O interessado deve ser pessoa sensível, que goste de ouvir música, seja alegre, que goste de passear domingo de manhã, que goste de pescar, que goste de passear na relva úmida da manhã, que seja carinhoso, que sussurre aos meus ouvidos que me ama, que tenha bom humor, mas que saiba também chorar. Que saiba escutar os cantos dos pássaros, que não se importe de dormir ao relento numa noite de luar, que saiba caminhar nas estrelas, que goste de tomar banho de chuva, que sonhe acordado e que goste muito do azul do céu. Prefere-se pessoa que saiba escutar os segredos de um riacho e que não ligue aos marulhos do mar, que goste de bife com arroz e feijão, mas que prefira peru com maçã, dá-se preferência a pessoa de pés quentes, que goste de andar de barco, que goste de amar e que não puxe as cobertas de noite. Não se exige que seja rico, de boa aparência, que entenda Kafka ou saiba consertar eletrodomésticos, mas exige-se principalmente que goste de oferecer flores de vez em quando.
Endereço: Rua da Esperança, 43.

...Eu disse “aparentemente”, porque na verdade, esse anúncio faz parte de um texto maior, que registro por inteiro, a seguir. Só a leitura integral poderá confirmar se é, de fato, um anúncio classificado.


Notícias
CORREIO DO POVO – 27/09/73
Informações
Maria Joana Knijnick, solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O interessado deve ser pessoa sensível, que goste de ouvir música, seja alegre, que goste de passear domingo de manhã, que goste de pescar, que goste de passear na relva úmida da manhã, que seja carinhoso, que sussurre aos meus ouvidos que me ama, que tenha bom humor, mas que saiba também chorar. Que saiba escutar os cantos dos pássaros, que não se importe de dormir ao relento numa noite de luar, que saiba caminhar nas estrelas, que goste de tomar banho de chuva, que sonhe acordado e que goste muito do azul do céu. Prefere-se pessoa que saiba escutar os segredos de um riacho e que não ligue aos marulhos do mar, que goste de bife com arroz e feijão, mas que prefira peru com maçã, dá-se preferência a pessoa de pés quentes, que goste de andar de barco, que goste de amar e que não puxe as cobertas de noite. Não se exige que seja rico, de boa aparência, que entenda Kafka ou saiba consertar eletrodomésticos, mas exige-se principalmente que goste de oferecer flores de vez em quando.
Endereço: Rua da Esperança, 43.

CORREIO DO POVO – 02/10/73
Informações
Maria Joana Knijnick, solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O interessado deverá ser pessoa sensível e que tenha o hábito de oferecer flores.
Endereço: Rua da Esperança, 43.

CORREIO DO POVO – 10/10/73
Informações
Maria Joana Knijnick procura pessoa que a ame e goste de oferecer flores de vez em quando.
Endereço: Rua da Esperança, 43.

CORREIO DO POVO – 20/10/73
Informações
Maria Joana Knijnick pede que qualquer pessoa goste dela e suplica que lhe mande flores.

CORREIO DO POVO – 14/11/73
Informações
A família da sempre lembrada Maria Joana Knijnick comunica o trágico desaparecimento daquele ente querido e convida os amigos para o ato de sepultamento. Pede-se não enviar flores.
[LOPES, Artur Oscar. In LAJOLO, Marisa e MANSUR, Gilberto, orgs. Contos jovens. São Paulo: Brasiliense, 1979.

Pontos discerníveis, na primeira abordagem do conjunto, dignos de serem detalhados – e o serão, daqui por diante:
- Os blocos – os anúncios – vão se tornando mais curtos, do primeiro ao penúltimo (mas não no último) o que, à primeira vista, pode fazer o leitor sentir que há diminuição progressiva da informação.
- Todos os blocos se mostram com um mesmo referente, Maria Joana Knijnik – ela, “autora”/anunciante, nos quatro primeiros –, mas não no quinto e último.
- O título do texto é “Notícias”, e não “Anúncios Classificados”.
- O nome da rua –“da Esperança” – está ausente em alguns blocos.

Pitadas de análise
► Reexaminemos o primeiro anúncio. É o mais completo, o que fornece dados mais pormenorizados, embora não diretamente, sobre a anunciante Maria Joana. Descreve-a como solteira e informa o objetivo do anúncio: ela quer alguém para se casar.
Por inferência, por meio das características do pretendente procurado (deve gostar de música, passear, saber rir e chorar, enlevar-se com aspectos da natureza, sonhar acordado, oferecer flores...), o leitor infere que a personagem é romântica e sentimental, tal qual o noivo que procura para si.
Confirma-o, o pequeno “escorregão” emocional da segunda frase, na qual o anúncio adota, momentaneamente, a primeira pessoa. Compare-se o início, em terceira pessoa – Maria Joana Knijnick, solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O interessado deve ser pessoa sensível, que goste de ouvir música [...]” –, com o que vem um pouco depois: “que seja carinhoso, que sussurre aos meus ouvidos que me ama”,
Aliás, a própria enumeração exaustiva de requisitos – com muitos detalhes e muitas vírgulas, como se saísse tudo num jorro por muito tempo represado – indicia a profundidade de seu romantismo, a urgência de sua procura e o tamanho da solidão de Maria Joana.
Importante notar que há uma condição essencial: exige-se principalmente que goste de oferecer flores de vez em quando”.

► O segundo anúncio é o resumo do anterior. Repete o objetivo – “para fim de casamento” – e sintetiza características românticas do “produto” procurado: “deverá ser pessoa sensível e que tenha o hábito de oferecer flores.
A observar: o ato de oferecer flores não é mais colocado como exigência, mas, em contrapartida, há a esperança de que seja ação habitual de quem aceitar a proposta.

► O terceiro, além de conciso, traz mudança significativa: alterou-se a finalidade da procura, que não é mais alguém para casar-se com a anunciante – agora, basta que alguém ame Maria Joana.

► Para comentar o quarto anúncio, voltemos a atenção, desde o início, para todos os verbos indicadores das reivindicações de Maria Joana, quanto às flores – dado que, como se disse mais acima, parece requisito fundamental de futuro marido, na visão da anunciante solitária.
No primeiro, temos o verbo “exigir”: exige-se principalmente que goste de oferecer flores de vez em quando”.
No segundo, ameniza-se a exigência, mas pede-se constância: deverá ser pessoa [...] que tenha o hábito de oferecer flores.”
No terceiro, não se pede nem ao menos constância, a personagem insinua contentar-se com a intermitência: “procura pessoa que [...] goste de oferecer flores de vez em quando”.
Por sua vez, no quarto, a desesperança e a angústia pela ausência de resposta faz com que a reivindicação se transforme em súplica: suplica que lhe mande flores”.

► Outra comparação precisa ser feita, quanto à procura e ao objetivo da anunciante.
A finalidade de casamento e a procura por “pessoa do sexo oposto”, presentes no primeiro e no segundo anúncios, altera-se. A procura apequena-se, e Maria Joana, no terceiro anúncio, apenas “procura pessoa [sem definir sexo] que a ame”.
No quarto, então, não há mais procura, e sim, pedido; também não se fala mais em amor, e acentua-se a indefinição de quem possa querer bem à mulher carente: “Maria Joana Knijnick pede que qualquer pessoa goste dela”.

Breve pausa... para analisar a análise
► A esta altura, como definir o texto? Pois é evidente que existe algo mais que um conjunto de “procura-se”...  Na verdade, sob a aparência de série de anúncios classificados, há um conto sui generis: uma história ficcional, estruturada como se fossem anúncios, ocorridos numa progressão cronológica.
Nela, se não são encontrados diálogos e relação clara entre personagens, encontram-se importantes elementos de uma narrativa. Há uma situação inicial (primeiro anúncio) na qual, ao mesmo tempo em que se delineiam as características da personagem principal (e única nomeada), acontece o primeiro passo da busca para suprir uma carência e resolver um problema (a falta de um marido).
O problema não se resolve de imediato, o que mostram os outros anúncios (2 a 4) já analisados, nos quais a personagem diminui as exigências, como se numa tentativa de resolver, ao menos parcialmente, sua solidão.
O narrador, aparentemente ausente, revela-se em pormenores que podem passar despercebidos em uma leitura desatenta. Um desses detalhes é o significativo (e irônico, o leitor percebe, ao final) nome da rua – da Esperança –, que desaparece dos textos finais, indiciando que a esperança ingênua foi substituída pelo progressivo desalento. O detalhe das datas, que se vão distanciando, reforça essa ideia de desesperança.

► Ambos os aspectos – ausência de endereço e espaçamento de datas – anunciam a não solução do problema e o desfecho trágico, que vem em forma de anúncio fúnebre: quem se manifesta é, agora, a família de Maria Joana.
O dedo mordaz do narrador acentua-se, neste anúncio final, em um comunicado de morte recheado de clichês: a carente e solitária Maria Joana passa a ser “sempre lembrada”, “ente querido”.
E, ironia derradeira, “pede-se não enviar flores” a quem amava flores; e omite-se o endereço do local de sepultamento...

► Resta comentar o título que, a esta altura, mostra-se perfeitamente coerente. “Notícias” (ou “Notícias de Joana”, como li em algum lugar) “dá notícias” sobre Maria Joana. Sob forma não convencional, o conto narra o conflito psicológico que atormenta a personagem, a tentativa de resolvê-lo e a não resolução final.
Despeço-me, esperando que o leitor e a leitora tenham apreciado o texto tanto quanto eu; e que descubram mais detalhes, além dos expostos acima.
Talvez, quem sabe, alguém se aventure a criar um final diferente para o conto: mais suave ou mais cruel, mais otimista ou mais pessimista...
Quem o fizer, por favor, compartilhe conosco!
Meu abraço.   

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