segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Poemas 'matemáticos' e suas (in)certezas

Em 31/08/2017, comentei, pelo blog, o poema Dois e dois são quatro, de Ferreira Gullar. A ele, acrescento dois que o lembram (ao menos, pelo título), mas que vão por caminhos diferentes.
Inicio pela canção de Caetano Veloso, Como dois e dois, composta em 1970, em Londres, no autoexílio do compositor. Época e circunstâncias do poema de Gullar e da música de Caetano são as mesmas.
Embora tenha sido Roberto Carlos o primeiro a gravar a canção (dizem alguns que esta foi a razão de ter passado pela censura do governo militar), o vídeo que registro a traz na voz do próprio autor.
A par da letra, é importante notar o ritmo lento, reflexivo e, principalmente, a inflexão melancólica (quase chorada/o lamento) da interpretação de Caetano.


Como dois e dois

1 Quando você me ouvir cantar
2 Venha não creia eu não corro perigo
3 Digo não digo não ligo, deixo no ar
4 Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar

5 Tudo vai mal, tudo
6 Tudo é igual quando eu canto e sou mudo
7 Mas eu não minto não minto
8 Estou longe e perto
9 Sinto alegrias tristezas e brinco

10 Meu amor
11 Tudo em volta está deserto tudo certo
12 Tudo certo como dois e dois são cinco

13 Quando você me ouvir chorar
14 Tente não cante não conte comigo
15 Falo não calo não falo deixo sangrar
16 Algumas lágrimas bastam pra consolar

17 Tudo vai mal, tudo
18 Tudo mudou não me iludo e contudo
19 É a mesma porta sem trinco,
20 O mesmo teto
21 E a mesma lua a furar nosso zinco

22 Meu amor
23 Tudo em volta está deserto tudo certo
24 Tudo certo como dois e dois são cinco

25 Meu amor
26 Tudo em volta está deserto tudo certo
27 Tudo certo como dois e dois são cinco

28 Meu amor...

Dois e dois são cinco
➤ Em si e/ou associada à melodia, a letra não deixa dúvida quanto à desilusão, ao desencanto do ser poético.
No entanto, nada é demasiado claro, neste poema. A ambiguidade é que dá o tom, e a pista para se chegar a ela é a afirmação irônica de que está “Tudo certo como dois e dois são cinco”. Com efeito, o sim e o não, o isso e o aquilo balançam como que numa gangorra: vejam, por exemplo, a oscilação entre contrários da segunda estrofe: “canto e sou mudo”; "sou mudo / mas eu não minto"; “estou longe e perto”; “sinto alegrias tristezas”.
➤ Observem, ainda, os versos 2, 3; 14, 15 (referentes aos dois quartetos da letra), que se tornam vagos, pela ausência de conjunções:
2 Venha [mas] não creia [que] eu não corro perigo
3 Digo [mas] não digo [que] não ligo, deixo no ar

14 Tente [mas] não cante [e] não conte comigo
15 Falo [e] não calo; [mas] não falo [que] deixo sangrar

Cada um de vocês, leitores, poderão interpretar e inserir conjunções de outro modo; porém, hão de concordar que – até por permitir mais de uma interpretação – a imprecisão das frases é evidente. Na verdade, parece que o eu lírico lança ao interlocutor (“você”) alguma mensagem codificada, com lacunas a serem completadas, para sua decifração.
➤ Agora, peço que leiam comigo os versos finais das estrofes, excetuando-se o refrão:
4 Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar

9 Sinto alegrias tristezas e brinco

16 Algumas lágrimas bastam pra consolar

21 E a mesma lua a furar nosso zinco

Reparem que aí, sim, há afirmações a respeito da “realidade vivida” pelo eu poético, o qual, parecendo querer dar a chave para compreendê-lo, revela: (em 4) por que não desiste; (em 9) o vai-vem de suas emoções; (em 16) o modo encontrado para não fraquejar; (em 21) a consciência de que nada mudou.
➤ Para completar, é preciso parar um pouco mais no quinteto que abrange os versos 17 a 21. A primeira tarefa é proceder a uma comparação entre algo dito anteriormente – (5) Tudo vai mal, tudo / (6) Tudo é igual quando eu canto e sou mudo – e o que vem agora: (17) Tudo vai mal, tudo / (18) Tudo mudou.
Tudo é igual, ou tudo mudou? O que parece uma contradição esclarece-se pela leitura do todo da estrofe:
17 Tudo vai mal, tudo
18 Tudo mudou não me iludo e contudo
19 É a mesma porta sem trinco,
20 O mesmo teto
21 E a mesma lua a furar nosso zinco

A conjunção adversativa assegura a coerência: tudo mudou, contudo, tudo permanece igual. Desse modo, refletindo a esta altura sobre mudanças, o ser poético afirma não se iludir; e constata que, embora a atmosfera (quem sabe do país, do povo...) seja de doce inocência, digamos assim, o clima é bem outro e “vai mal”. A doce inocência vem mediante alusão (versos 19, 20, 21) à popular e romântica canção brasileira da década de 1930, Chão de Estrelas,em que a privação e a pobreza eram sublimadas pela ventura amorosa.

É justamente esse mascaramento fantasioso que a canção de Caetano vem desnudar: se “tudo mudou” (uma vez que a época é outra), ao mesmo tempo, nada mudou – é a mesma porta, o mesmo teto, a mesma lua. Ou, nas entrelinhas: a mesma miséria, o mesmo desamparo, a mesma ingenuidade ignorante.
➤ É mais fácil, agora, compreender os versos 5 e 6 e medir a ausência de perspectivas, a inutilidade da ação que aí se esconde: cantar e ser mudo, ação e inação se equivalem.
5 Tudo vai mal, tudo
6 Tudo é igual quando eu canto e sou mudo

Por isso, o estribilho doloroso, cantado várias vezes ao final, até se extinguir pouco a pouco:
10 Meu amor
11 Tudo em volta está deserto tudo certo
12 Tudo certo como dois e dois são cinco

“Tudo”, o reiterado pronome indefinido, na verdade... tudo sintetiza e define: a aridez, a impossibilidade de criação e/ou alteração do que está posto. Portanto, tudo está “certo”, “como dois e dois são cinco”.

Ironicamente, a única informação precisa, inserida no poema, é o resultado errado da conta...
1 Trata-se da popular canção Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, composta em 1937, que diz, a certa altura: “A porta do barraco era sem trinco / Mas a lua, furando o nosso zinco / Salpicava de estrelas nosso chão”.

Dois e dois são...?
Quero voltar no tempo e lembrar, uma vez mais, o poema de Ferreira Gullar Dois e dois são quatro. Transcrevo, aqui, um trecho do final de sua análise, que registrei na matéria de 31/08/2017: “A certeza de que, ‘como dois e dois são quatro, a vida vale a pena’ parece deixar uma mensagem cifrada, a quem conseguir entendê-la: ‘não desista, não se entregue’...”
Pois bem: anos depois (quase ao fim do século XX), o poeta retoma seu poema Dois e dois são quatro, contestando-o:
That is the question

Dois e dois são quatro.
Nasci cresci
para me converter em retrato?
em fonema? em morfema?

[Ferreira Gullar, Obra Poética, Edições Quasi, 2003, p. 521. Disponível em www.jornaldepoesia.jor.br/1ccosta.html]
A afirmação inicial, isto é, aquela conta “seguramente certa” – Dois e dois são quatro transforma-se em interrogações. O posicionamento político cede lugar à incerteza, à dúvida existencial. O dilema (ser ou não ser) está entre viver – simplesmente viver, em carne, osso, alma – e viver enquanto representação: imagem (retrato), som (fonema), palavra (morfema).
Portanto, fica posta a questão: valerá mais a pena a vida, ou sua representação? Percebam: ao simplificar o poema, esquartejá-lo, quase, em elementos inertes (retrato, fonema, morfema), o eu poético tira/nega a funcionalidade do seu próprio fazer, antes usado para dar vida à luta por um ideal. Desse modo, parece valorizar mais a razão (e eficácia) da existência do que a razão (e eficácia) do ofício do poeta. E aproxima-se, em sua desesperança, do sentido da canção de Caetano.
Os dois poemas de Ferreira Gullar – Dois e dois são quatro e That is the questionparecem espelhar a própria oscilação, muito humana, entre sentimentos opostos. Qual leitor não conhece a sensação de estar numa gangorra existencial, ora pendendo para o movimento e para o “tudo vale a pena”, ora para a inércia e o “nada vale a pena?
To be, or not to be, that is the question...
Um abraço.

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