quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Poemas 'matemáticos' e suas certezas


Cabe tudo no poema – até uma ciência exata, como a matemática.
Não estou me referindo, entendam, a versos “didáticos”, destinados a fixar questões matemáticas, mas àqueles poemas que se valem poeticamente de dados matemáticos ou simplesmente aritméticos. Como este, de Ferreira Gullar:
Dois e dois são quatro
[Ferreira Gullar]

Como dois e dois são quatro 
Sei que a vida vale a pena 
Embora o pão seja caro 
E a liberdade pequena 

Como teus olhos são claros 
E a tua pele, morena 

como é azul o oceano 
E a lagoa, serena 

Como um tempo de alegria 
Por trás do terror me acena 

E a noite carrega o dia 
No seu colo de açucena 

– sei que dois e dois são quatro 
sei que a vida vale a pena 

mesmo que o pão seja caro 
e a liberdade pequena.
[Ferreira Gullar, Dois e Dois: Quatro, 1966]

Dois e dois... são quatro – nenhuma novidade. Sem dúvida, aquela “continha de somar”, que aprendemos desde crianças, vale para estabelecer a certeza de uma afirmação, numa conversa informal, ou no poema.
Aliás, percebe-se logo: o poema se faz com expressões cotidianas, frases batidas e o repisar de conhecimentos cristalizados pelo senso comum. Trabalha com declarações taxativas: dois e dois são quatro (não esqueçamos) e, do mesmo modo, a vida vale a pena, o pão (o sustento) é caro, o oceano é azul, a lagoa é serena.
No entanto, a aritmética simples e a sabedoria fácil assumem feição diferente, quando usadas pela mente poética. É o que revelam uma leitura mais detalhada e a ancoragem do texto na época em que Gullar o criou.
Vigia a ditadura militar brasileira, e Gullar, combativo, era alvo de perseguição. Aliás, poucos ousavam reclamar, e quem ousava, fazia-o de forma criativamente encoberta. Entende-se, portanto, porque o dizer (crítico, veremos) do poeta vem camuflado – e de duas maneiras: com a utilização das expressões óbvias, a que nos referimos, e com o modo de organização, que veremos agora.
➤ Os dois primeiros versos, com sua afirmação positiva, parecem tomar conta da estrofe, deixando à sombra o “pão caro” e a “liberdade pequena” (a realidade, portanto):
Como dois e dois são quatro 
Sei que a vida vale a pena 
Embora o pão seja caro 
E a liberdade pequena 


Dessa forma, insuflam um ar otimista ao início do texto que, veremos, ecoam nas comparações que vêm a seguir.
 Notemos, agora: após a quadra, os versos seguem organizados dois a dois, deixando claros os blocos de sentido. Assim, os dois subsequentes apresentam referências ao ser humano; os dois seguintes, à natureza:
Como teus olhos são claros 
E a tua pele, morena

como é azul o oceano 
E a lagoa, serena 


Neles, as comparações ligam-se aditivamente, uma reforçando a outra: [sei que a vida vale a pena...] como teus olhos são claros;  e [como]  a tua pele, morena; [e] como é azul o oceano; e [como] a lagoa, serena.
 Nos quatro versos seguintes, em vez de comparações que se somam, aparecem oposições entre elementos (alegria / terror; noite / dia), organizadas de forma a reforçar a atmosfera de confiança na vida, uma vez que o negativo dá lugar ao positivo: ao terror segue-se a alegria, à noite segue-se o dia. Estamos, uma vez mais, no terreno do conhecimento comum, e é bem provável que o leitor associe os versos a certos ditos populares (“Nada como um dia após o outro”; “Não há mal que sempre dure...”):
Como um tempo de alegria 
Por trás do terror me acena 

E a noite carrega o dia 
No seu colo de açucena 

Note-se que aqui, também, os versos dois a dois separam referências: ao ser humano (sentimentos); e à natureza (a sequência inevitável do tempo).
 Entretanto, a ideia do negativo já foi lançada: o terror e a noite existem; e o eu lírico, longe de ignorá-los, tira-lhes o véu. Mas... outra vez, depois disso, reafirma a esperança (ou tenta se convencer dela), por meio da repetição do verbo saber: 
sei que dois e dois são quatro 
sei
que a vida vale a pena

Reparem no travessão: é uma fala  incisiva e direta  que poderia, até, ser o fecho positivo do poema. Só que essa fala não termina nesse bloco: ela continua por mais dois versos, reafirmando... o negativo:
mesmo que o pão seja caro 
e a liberdade pequena.


Desse modo, “ao fim e ao cabo”, ficam realçadas as (reais) limitações impostas à vida – juntamente, é claro, à esperança de fazê-la valer a pena, como valor maior, ou seja: junto à necessidade e desejo de lutar por ela. A certeza de que, “como dois e dois são quatro, a vida vale a pena” parece deixar uma mensagem cifrada, a quem conseguir entendê-la: “não desista, não se entregue”...
Assim, como uma coisa embute outra – o terror embute a alegria, a noite embute o dia (ou vice-versa!), o poema inocente esconde a denúncia, e a linguagem banal esconde a poética.
C.Q.D. (como queríamos demonstrar), diria o matemático...
Um abraço.

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