segunda-feira, 31 de julho de 2017

O que pode a arte?

Portinari
Quantos crimes, quanta violência presenciamos, não é, amigos leitores? Quantos caminhos sofridos têm percorrido nossas vidas, especialmente se habitamos grandes cidades...
Mais que tudo, tira-me o sossego (e tenho certeza de que também os preocupa) a condição de crianças e jovens que ainda tão pouco viveram e, muitas vezes, já conhecem o sofrimento da fome, do frio, das agressões físicas e morais, da discriminação, do abuso sexual.
Questões assim, tão prementes, parecem silenciar as “inúteis” questões artísticas, como as que tratamos aqui, e podem-nos tornar melancolicamente passadistas.  Num momento em que me deixei levar por tal estado de espírito, pensei ironicamente em Camões que, em Os Lusíadas, no século XVI, pede silêncio às Musas, para cantar feitos e heróis de Portugal, pois “que outro valor mais alto se alevanta”1. Se aqui e agora vivesse, quem sabe o poeta pediria que as Musas se calassem, não mais para exaltar a construção épica de uma nação, mas para deplorar um “terror mais alto” que sangra e arruína, de forma nada heroica, grupos e comunidades de uma sociedade adoentada.
No entanto, quer nos situemos no passado, quer no presente, é necessário lembrar, relembrar, afirmar, reafirmar que as Musas, por trás de sua aparente inocuidade, têm o poder de gerar movimentos internos e externos. Dizendo de outro modo, se a Arte (qualquer que seja a linguagem) é inútil, como dizem2, ela é também necessária – até (ou principalmente...) nos momentos dolorosos, em que as pessoas se paralisam e se petrificam.  
Do contrário, não teríamos a eternização de obras como Guernica, de Picasso; Os Retirantes, de Portinari; Vozes d´África, de Castro Alves; inúmeras canções de Chico Buarque, Caetano, Edu Lobo... É infinita a lista de obras que permanecem impressivas, por representarem e apontarem aspectos da vida humana que necessitam ser repisados / reprisados para despertar consciências.
A arte, diz Fischer, “é necessária para que o homem se torne capaz de conhecer e mudar o mundo.”3  O que a faz mais que necessária – imprescindível – é seu poder de cutucar a alma do homem e, assim, arrancá-lo da inércia.
 E como (infelizmente!) os erros humanos se repetem, tais obras conservam-se atuais e não perdem sentido, mesmo frente a gerações e épocas diferentes da História. Quero dar um pequeno exemplo – um texto de Drummond –, para o qual peço sua companhia leitora.
1 CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas; Canto I. Disponível em: http://www.citi.pt/ciberforma/ana_paulos/ficheiros/lusiadas.pdf.
2 Oscar Wilde, em seu prefácio a O Retrato de Dorian Gray, afirma: “Toda arte é completamente inútil”. Entenda-se: inútil, porque não utilitária.
3 FISCHER, Ernest. A necessidade da arte. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.

Essas Meninas
As alegres meninas que passam na rua, com suas pastas escolares, às vezes com os seus namorados. As alegres meninas que estão sempre rindo, comentando o besouro que entrou na classe e pousou no vestido da professora; essas meninas; essas coisas sem importância.
O uniforme as despersonaliza, mas o riso de cada uma as diferencia. Riem alto, riem musical, riem desafinado, riem sem motivo; riem.
Hoje de manhã estavam sérias, era como se nunca mais voltassem a rir e falar das coisas sem importância. Faltava uma delas. O jornal dera notícia do crime. O corpo da menina encontrada naquelas condições, em lugar ermo. A selvageria de um tempo que não deixa mais rir.
As alegres meninas, agora sérias, tornaram-se adultas de uma hora para outra; essas mulheres.
[ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis (1ª ed.). Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.]



Portinari

Ficção e realidade
Sobre o título do livro em que se insere o texto registrado acima – Contos Plausíveis –, escreve o próprio autor, fornecendo pistas de leitura e sentido:
Esses contos (serão contos?) não são plausíveis na acepção latina de merecerem aplausos. São plausíveis no sentido de que tudo neste mundo, e talvez em outros, é crível, provável, verossímil. Todos os dias a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela.
Não posso dizer, verdadeiramente, que os escrevi. Escreveram-se no dia a dia do Jornal do Brasil, sem a intermediação de forças misteriosas. Queriam existir como estórias, ocuparam papel e hoje formam livro.
Preste atenção, leitor: “a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela”. De fato, este conto (na verdade, crônica, como tantas publicadas “no dia a dia do Jornal do Brasil”, veículo em que Drummond trabalhou de 1969 a 1984) faz-nos recordar informações reais que excedem a imaginação, como as dolorosas notícias de violação de crianças e adolescentes, que se repetem ano a ano, gerando indignação.
São vários os discursos e movimentos dedicados a combater tão terrível problema. Cito o exemplo de campanha de 2015, denominada “Quanto custa a violência sexual contra meninas?” , em que a Plan International (organização voltada  à proteção dos direitos de crianças e jovens) buscou convencer e levar a sociedade à ação de combate a essa tipo violência. Registro alguns trechos, em que se listam dados objetivos e ações programadas:
Cerca de 50 mil casos de estupro são denunciados todos os anos no Brasil, mas estima-se que isso represente menos de 10% do total de casos. [...]
O cenário é ainda pior quando se considera o universo infantil. Uma série de situações previstas como crime no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em que adultos se aproveitam da fragilidade das crianças [...].
A campanha ‘Quanto Custa a Violência Sexual contra as Meninas?’ pretende promover e qualificar o debate sobre a violência sexual contra as meninas que já chega a mais de meio milhão de casos por ano no Brasil. Para isso, além de peças de comunicação e ações em mídias sociais, contará com uma rede de organizações de todos os setores na realização de iniciativas pelo Brasil, desde a exibição do filme India’s Daughter e debates [...] elaboração de materiais informativos sobre a identificação de abuso e violência sexual.
Comparada a dados e a propostas de ações como essas, uma pequena história como a de Drummond terá alguma força argumentativa? Conseguirá promover mobilização? Se pensarmos que ela foi/é lida por um grupo letrado restrito, frequente consumidor de textos jornalísticos e literários (impressos ou digitalizados), concluiremos que sempre será pequeno seu alcance e poder.
Por outro lado, se observarmos sua linguagem simples (mas não fácil...), sua dimensão e caráter quase fabular, próprios da transmissão oral – à semelhança de contos e historietas de entreter e ensinar que se contavam a grupos de crianças e de adultos –, chegaremos à conclusão de que, por trás de sua simplicidade, o texto cumpre sutilmente a função de mover e comover o  interlocutor – razão pela qual vale pararmos um pouco mais sobre ele.

Emoção e argumentação
Não é fácil esquecer este pequeno “conto plausível” de Drummond: muitos concordarão comigo, quando digo que ele nos chama para mais de uma leitura, sem perder seu dom de emocionar.
Qual a causa? Certamente, porque nos remete a casos reais de agora e à nossa experiência de vida.  Contudo, há outro motivo, e este é seu rigor construtivo (tão drummondiano!), que merece uma visada mais atenta.
As poucas linhas podem ser divididas em dois blocos de sentido, dois flashes de um antes (parágrafos 1, 2) e de um depois (parágrafos 3,4), dois estados diferenciados e bem definidos das personagens.
No primeiro parágrafo, os verbos de ação – passar (na rua), rir, comentar – compõem aparentemente uma cena de movimento, mas estão, em verdade, a serviço da descrição do estado de alegria (notem o gerúndio): são as “alegres meninas”, que “passam [...] com seus namorados” e “estão sempre rindo, comentando [...]”.
Observem com o parágrafo termina: “essas meninas; essas coisas sem importância”. Por certo, as “coisas sem importância” não são as meninas, mas ligam-se estreitamente a elas, ao resumir o caráter de brincadeira e leveza de suas vidas, que permitem comentar coisas tão supérfluas e divertidas como o besouro na roupa da professora.
E, se o leitor ainda não apreendeu o verdadeiro sentido – a alegria descuidada – do início do conto-crônica, o segundo parágrafo o aclara definitivamente. Além de identificá-las enquanto grupo (“o uniforme as despersonaliza”), o cronista as reúne e as diferencia por meio do riso. As repetições acumulam e dão facetas desse riso, marcam a brejeirice de suas vidas adolescentes: “riem alto, riem musical, riem desafinado, riem sem motivo; (e finalizando e sintetizando tudo) riem”.
Nesse primeiro bloco (1º e 2º parágrafos), a par das repetições assinaladas, frases longas e verbos de ação no presente detalham características de um rotineiro viver descuidado de “coisas sem importância”.
À suavidade desse estado, vai se contrapor o segundo bloco. A passagem – a mudança brusca – é indicada por marcas temporais: “Hoje de manhã estavam sérias, era como se nunca mais voltassem a rir e falar das coisas sem importância”.
A partir dessa inversão, as frases curtas, quase telegráficas, com verbos no passado, dão conta do fato violento e de suas consequências.
Notemos, ainda, os principais substantivos deste segundo bloco: jornal, notícia, crime, corpo, menina, condições, lugar, selvageria, mulheres. Ou, melhor ainda, em suas relações textuais: notícia do crime, corpo da menina, naquelas condições, lugar ermo, selvageria de um tempo, essas mulheres.
Se os compararmos aos do primeiro bloco (meninas, pastas escolares, namorados, besouro, vestido, uniforme), perceberemos um campo semântico bastante diferente, que dá todo o caminho da mudança de estado.
Por fim, na frase final, a marca temporal “agora” presentifica o novo estado das (outrora) meninas: sérias, adultas, mulheres.
Ao leitor, o derradeiro cutucão emocional, a derradeira chamada para fazer aflorar sua indignação é dado pela retomada de expressões iniciais, mas transformadas: Antes, “alegres meninas”, depois, “sérias”; antes, “essas meninas”, depois, “essas mulheres”.
A interrogação-título da campanha de 2015 a que me referi – “Quanto Custa a Violência Sexual contra as Meninas?” – encontra reposta no texto conciso e contundente do poeta. Custa, principalmente, o sofrimento e o amadurecimento prematuro de jovens, custa a mudança de foco e de comportamento de pessoas que, muito cedo, aprendem que o relacionamento humano comporta traições e acarreta medo e desconfiança.
Assim, a crônica de Drummond configura-se, ao mesmo tempo, poética e argumentativamente. Nossa leitura mostrou sua intenção argumentativa, seu caráter pedagógico (capaz de abalar afetivamente o leitor) de mostrar a causa e suas consequentes e infelizes transformações.
Como pudemos verificar, se esta crônica emociona, não é apenas devido ao fato de que nos faz lembrar casos reais, mas, também, graças à sua fina elaboração enquanto linguagem organizada poeticamente. Sua força argumentativa vem exatamente disso: de seu poder de sedução, de seu poder de recriar, no leitor, um espanto (negativo, no caso) perante a vida, semelhante àquele que deve ter movido o escritor ao criá-lo. 
Drummond, por certo, apoiaria estas palavras de Ferreira Gullar sobre o fazer poético (o grifo é meu):
Sobre poesia eu não penso, eu simplesmente faço: a minha poesia nasce do espanto. Qualquer coisa pode espantar um poeta, até um galo cantando no quintal. Arte é uma coisa imprevisível, é descoberta, é uma invenção da vida. E quem diz que fazer poesia é um sofrimento está mentindo: é bom, mesmo quando se escreve sobre uma coisa sofrida. A poesia transfigura as coisas, mesmo quando você está no abismo. A arte existe porque a vida não basta.
[Entrevista de Ferreira Gullar, disponível em: http://g1.globo.com/pop-arte/flip/noticia/2010/08/arte-existe-porque-vida-nao-basta-diz-ferreira-gullar.html.]

Um adendo
A escritora Noemi Jaffe, em entrevista publicada na Revista Época de 28/07/2017, foi questionada sobre o poder da literatura frente à violência social. É outro olhar, outra voz sobre o assunto abordado acima; bem por isso, julgo importante transcrever sua resposta à pergunta: “A literatura pode nos ajudar a ver?”
Noemi Jaffe – A literatura não é muito poderosa, não. Em termos de transformações sociais e políticas, é pouco o que a literatura pode fazer. Num país como o Brasil, pouca gente lê. Apesar de poder fazer pouco, a literatura é capaz de fazer com que os indivíduos que se deixam tocar e mobilizar pela palavra literária se sintam um pouco deslocados em relação à vida que levam. E isso é importante. A vida é complicada, exige que a gente viva num tipo de trilho. Se a gente sai do trilho, não consegue fazer tudo o precisa fazer. Mas a literatura permite que saiamos do trilho, que nos desloquemos. E, nesse deslocamento, a gente abre os olhos e percebe o quanto não estamos nos espantando. A literatura parte do espanto e provoca o espanto, mas não é capaz de mudar o mundo.
[Entrevista completa em: epoca.globo.com/cultura/noticia/2017/07/noemi-jaffe-literatura-causa-espanto-mas-nao-muda-o-mundo.html.]
Até outro dia.

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