quinta-feira, 1 de junho de 2017

Memória e memórias no fazer literário




Lembrei-me deste relato que escrevi há tempos:
Aconchego
Às vezes, tenho oportunidade de viajar por pequenas cidades do interior. Se eu chego por volta das duas horas da tarde, logo ao entrar nas primeiras ruas, junto com a sensação de calma do quase dormitar das casas simples, vem o convite maravilhoso do cheiro de café saindo, fresquinho, de vários lares ao mesmo tempo.
Isso me acorda sensações antigas e me faz voltar a cenas de infância – tantas vezes vividas –, como se o tempo ainda fosse o mesmo, lento, suavemente ondulante, e não tivesse sido retalhado pelo pulsar agressivo da cidade grande.
Fico, então, a imaginar e a reviver cada detalhe, pois vivi tudo: o café sendo coado, a mesa (da cozinha, quase sempre) sendo posta, o prato de biscoitos, talvez um bolo, e o pão “saído na hora”, vindo da padaria da esquina.
Mais que uma obrigação alimentar, esse ritual do café (após uma pequena sesta e antes da lida da tarde) acabava servindo de pretexto para uma conversa breve e mansa, com uma pessoa íntima da própria casa, ou com uma vizinha que se achegava. Podia ser, também, apenas e simplesmente o momento solitário de se saborear, em devaneio, o lado sereno da vida.
É isso que ainda hoje o cheirinho de café das tardes do interior me traz: a certeza de que, em alguns lugares, e a despeito dos absurdamente agitados tempos modernos, persiste a marca do aconchego familiar, que mantém o coração aquecido e a alma apaziguada.
Quem não tem dessas lembranças, que remetem à infância, ou a um espaço / tempo povoado de sensações, algumas felizes, outras nem tanto? São marcas que ficam e compõem nossa história.
É como diz Cleide Terzi: ”O poder da memória de fazer borbulhar reminiscências ilumina cenas, gestos, semblantes, nos faz voltar no tempo, guardar palavras, aventuras, brilho nos olhos.¹”
A evocação do vivido tem o poder de transformar o que se vive agora. É lição que enlaça tempos, lugares, pessoas, objetos, para presentificá-los e atualizar seus sentidos, de acordo com as experiências individuais e coletivas do hoje. É lição que fica. É presentificação que se faz no pensamento e, em paralelo, na linguagem (que o expressa e representa).
Em se tratando especificamente da Arte, o universo rememorado, retrabalhado e ressignificado a cada momento – que é raiz de muitos atos e impulsos, e tem o poder de acalmar ou inquietar, mover ou imobilizar – constitui-se em matéria-prima, por excelência, a ser moldada pelo artista. Daí a memória ser ferramenta essencial do fazer literário, em sua faceta de recriação e ficcionalização de fatos e experiências.
E é justamente esse fundamento memorialístico claramente expresso que trago hoje, na voz de alguns escritores. Por eles, poderemos observar a diversidade de papéis e funções da memória, na composição de suas obras.
¹ Cleide do Amaral Terzi é especialista em Educação, assessora e consultora na área educacional, coordenadora de grupos de estudo. A frase foi extraída de texto escrito para um dos seus muitos Grupos de Formação.
  
A memória como ponte para se compreender o vivido


► Daniel Munduruku
As experiências passadas, quando visitadas com ideias e concepções do hoje, têm a capacidade de alargar a compreensão do vivido. É o que nos traz Daniel Munduruku, no livro em que retoma os ensinamentos que recebeu do pai, na infância, agora com os olhos do adulto.
No trecho registrado a seguir, percebe-se o olhar maduro – afetuoso e agradecido – em seu debruçar sobre lições aprendidas pelo menino, que permaneceram e se fortaleceram mediante a consciência do homem feito (em azul, trechos importantes):

“Você lembra, pai, quando me ensinou pela primeira vez a utilizar o arco e a flecha? Lembra que eu machuquei meu dedo e você escondeu seus lábios de um sorriso zombeteiro para não me deixar furioso? Seu silêncio respeitoso foi o melhor ensinamento que já tive, pois você me ensinou a respeitar os passos das pessoas. Você sabia que isso acontece sempre. Deve ter acontecido com você também, pai. Mesmo assim, você permitiu que eu me machucasse e aprendesse pelo jeito mais doloroso. Nesse dia você me ensinou que a dor faz parte da nossa vida e que cada pessoa tem de sentir sua própria dor.”
[Munduruku, D. & Borges, R. Você lembra, pai? São Paulo: Global, 2003.]

► Manuel Bandeira
Já no poema Profundamente, de Manuel Bandeira, o eu lírico também retoma a infância, mas para fazer uma avaliação melancólica: compara passado e presente, a partir de cenários na aparência semelhantes, mas aos quais a consciência crítica atribui sentidos distintos e, até, opostos.
A notar, nas comparações: os belos paralelismos, os achados sonoros e, especialmente, a maestria com que o poeta usa a identidade formal, para dela extrair  a oposição de sentidos do ontem e do hoje.

Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes
Silenciosamente.
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

– Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
– Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
[BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

Alguns detalhes: o poema vem (originalmente) dividido por um asterisco, em dois tempos. Nos dois, o sono é um ponto em comum: tem o papel de distanciar o eu poético do clima festivo.
Vejamos um pouco mais.
1ª parte
No passado (introduzido por “quando”), os ruídos da alegria, entreouvidos em meio ao sono, vêm sonoramente realçados pelos sons /s/ e /z/ e por consoantes mais fortes: “Estrondos de bombas luzes de Bengala / Vozes, cantigas e risos / Ao pé das fogueiras acesas”.
Na segunda estrofe (quando o menino acorda no meio da noite), as nasais e as negações indicam a atmosfera mais silenciosa e menos feérica e contrabalançam os sons /S/ e /Z/, ainda presentes, mas como que à distância: “No meio da noite despertei / Não ouvi mais vozes nem risos / Apenas balões / Passavam, errantes / Silenciosamente”.
2ª parte
O presente retoma o passado resumidamente, para marcar a comparação entre ontem e hoje:
Quando eu tinha seis anos / Não pude ver... / Porque adormeci”...; e
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
”.
A comparação
Nas duas partes, em perfeito paralelo (de palavras e de sons nasais), e apenas com a mudança de tempo verbal, o adulto pergunta e responde, revelando, na resposta, a diferente situação entre o tempo vivido e o que agora vive:
1ª parte:

Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

– Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
.

2ª parte:

Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

– Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

A memória e a exacerbação da falta

Lasar Segall

► Mário Quintana
No poema de Bandeira, recordar leva o eu lírico à constatação de quanto o presente perde, em alegria, para o passado. Contudo, não se colocam, em palavras claras, a possível vontade de voltar ao que já foi (que fica implícita ao leitor).
Em contrapartida, o poema de Quintana, com o qual prossigo nosso encontro de hoje, escancara, em tom de lamento, a saudade de tempos idos, o desejo de viver em tempo que não volta e o inconformismo com o presente.
Observem como a pontuação expressiva (reticências e exclamações) dos primeiros versos puxa para o texto a ideia do recordar devagar, como que num sonho, tempos de doçura e aconchego. Entretanto, o lamento – “Mas, ai” – destrói a aparente tranquilidade e, em seu lugar, instaura a perda de um “paraíso perdido” e o consequente inconformismo com o presente, que parece ter tomado de assalto o despreparado eu poético, menino envelhecido...

Recordo ainda…
Recordo ainda… e nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui… Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iluda o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai…
Que envelheceu, um dia, de repente!
[QUINTANA, Mario. A rua dos cataventos. Coleção Mario Quintana. 2a. edição. São Paulo: Globo, 2005. Disponível em: www.poesiaspoemaseversos.com.br/recordo-ainda-mario-quintana/]

► Para terminar... Drummond
Compreender o presente, comparando-o ao passado; revisitar o passado, voltar aos afetos de antes, detalhá-los... Tudo isso causa dor ao eu poético, menino que envelheceu e perdeu as carícias maternas. E tudo isso se expressa pelo tom íntimo, de conversa reservada e pelo oscilar entre verbos no presente e no pretérito. Ao fim, vence a dura realidade, a apagar o sonho da infância, como o indica o último terceto, todo no tempo presente.
Aliás, o próprio uso de forma poética tradicional (o soneto, como em Quintana), parece desligar o sujeito poético do tempo de agora e prendê-lo a vivências passadas.

Carta

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.
[ANDRADE, Carlos Drummond de. Lição de Coisas. In Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

A você que me lê... 
Desejo boas recordações. Um abraço!

Nenhum comentário:

Postar um comentário