terça-feira, 13 de junho de 2017

A memória da infância e a transformação pela arte


Meninos brincando - Portinari

São muitos os artistas que deixam transparecer, em suas obras, vivências que a memória conservou. Por essa via, sensações, sentimentos e impressões abandonam o status individual, para se tornarem propriedade de uma coletividade, que delas toma conhecimento.
A infância é parte importante da retomada do passado, enquanto impulso ou inspiração para o fazer artístico. Lembremos Portinari, na pintura, e os quadros que registram os jogos infantis de sua meninice em Brodowski, sua cidade natal. Lembremos, ainda, as obras musicais de compositores clássicos que elegeram o folclore de seus países e, dentro do folclore, os temas infantis como inspiração: Villa-Lobos com as Cirandas, Schumann com as Cenas Infantis, Khatchaturian com as Aventuras de Ivan e outros.
Na literatura, podem ser encontrados autores que deixaram testemunho explícito de como experiências infantis e adolescentes de leitura, escrita e contação de histórias influenciaram suas obras e em sua opção pelo ofício de escrever. Circunscrevendo a visada apenas ao Brasil, lembro alguns nomes (aliás, já citados em matérias anteriores, neste mesmo blog¹): Ana Maria Machado, Bartolomeu Campos de Queirós, Ângela Lago, Marina Colasanti, Ricardo Azevedo, Tatiana Belinky.
Em grande número, também, são os escritores que se utilizam de cenários, personagens e situações dos primeiros anos, para compor alguns de seus textos, em verso ou prosa. A visada memorialística é bastante variada: pode ser melancolicamente saudosista, alegremente rememorativa, simplesmente registradora de fatos ou, até, crítica e revisionista. Entretanto, há sempre o olhar sensível e a competência artística a unificar escritos tão variados.
Em matéria imediatamente anterior a esta, relacionada à memória literária como fonte de compreensão da vida (01/06/2017), comentei textos de  Munduruku, Bandeira, Quintana e Drummond. Os que agora registro têm, como traço de semelhança, a expressão da memória (ainda e quase sempre da infância) como fonte de inspiração ou de impulso para o ato escritor do adulto.
¹ Para os três primeiros citados, ver http://www.embuscadaautoria.com/2014/09/a-construcao-leitora-e-escritora-tres.html, de 08/09/2014. Para os seguintes, ver http://www.embuscadaautoria.com/2014/09/mais-tres-autores-memorias-inspiradoras.html, de 16/09/2014.

► Bartolomeu Campos de Queirós
As palavras de Bartolomeu Campos de Queirós, ditas em entrevista de 2011, expressam a influência do círculo afetivo da infância sobre o escritor maduro (em azul, trechos marcantes):
Meu avô tinha um encantamento com as palavras. Eu fui aprendendo com ele a cultivar esse encantamento. Lembro que na casa dele tinha uma copa muito grande. Ele ficava sentado na ponta da mesa fazendo cigarros para o dia seguinte. Havia um Cristo crucificado na parede. De vez em quando, ele levantava a cabeça e falava para mim: “Sofreu, né? Sofreu demais. Sofreu tanto. Mas morreu gordo, você não acha?”. Era toda uma trama que me deslocava. Já fui criado com a metáfora. Tive uma infância junto com as metáforas. Outra coisa que me ajuda na literatura é ter nascido de sete meses. Fui sempre muito fraquinho. Era miúdo, fraco, tratado com cuidado. Quando adoecia, a mãe chamava o médico por via de dúvida. Mas por via de dúvida, ela mandava benzer; e por via de dúvida, acendia uma vela; e por via de dúvida, me dava um chá e eu, então, melhorava por via de dúvida. Depois, cheguei a uma conclusão: Quem sabe as coisas faz livro didático e quem não sabe faz literatura. Se você tem uma coisa a afirmar, você não tem que fazer literatura. Literatura é uma conversa sobre as dúvidas. [...] A minha mãe era uma leitora. Não havia em casa literatura infantil. Eu lia os livros que a minha mãe lia: A toutinegra do moinho (Emílio Richebourg), As mulheres de bronze (Xavier de Montépin). Também ficou uma coisa que hoje conto sem problemas. Quando a minha mãe morreu, eu tinha seis para sete anos. Ela ficou doente por muitos anos. Eu sempre a conheci um pouco doente. Minha mãe cantava muito bonito, ela era soprano. Quando a dor era muito forte, quando a dor pesava muito, sabíamos que a morfina não era suficiente, a minha mãe cantava. Ela cantava umas cantigas de Carlos Gomes. A voz dela atravessava a casa e o quintal. Então, a gente sabia que ela estava com muita dor. Outro dia, estava pensando que eu também, quando dói muito, escrevo. É a mesma coisa. Quando pesa muito, eu escrevo. Hoje, não fico na janela como meu avô ficava. Mas fico o tempo todo em frente ao Windows. Trocamos os lugares, mas continuamos na janela.
[Disponível em: http://rascunho.com.br/bartolomeu-campos-de-queiros/]

► Manoel de Barros
Que autor pode ser mais emblemático do que Manoel de Barros, quando se trata de abordar a infância como fonte de inspiração? O leitor atento facilmente percebe, em suas obras, o brincar com palavras e ideias, comumente presente no universo infantil.
O eu lírico, indefectivelmente, lembra aquele “menino que carregava água na peneira”, cuja mãe profetizava: “Meu filho, você vai ser poeta! / Você vai carregar água na peneira a vida toda” (cf.matéria de 12/10/2014 - Ensinamentos de criança-poeta).
De fato, a palavra vira brinquedo de fazer ideias, e a realidade só existe enquanto reinvenção permanente na /da poesia. Como está em “Autorretrato”:
[...]
Produzi desobjectos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc. etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: – sem moscas
na boca descampada.
[Disponível em: http://bibliotecariodebabel.com/literatura-brasileira./quatro-poemas-de-manoel-de-barros.]

Eis outra confirmação, pelo próprio escritor, de que as “raízes crianceiras” forjaram seu ofício – e que sua “poetagem” não é, em última análise, mais que “outro tipo de peraltagem”:
Manoel por Manoel

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

[BARROS, Manoel de. Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010. Disponível em: http://pontodeencontrocomaliteratura.blogspot.com.br/2013/11/a-poesia-de-manoel-de-barros.html]

► Carlos Drummond de Andrade
Em agosto de 1987, pouco antes de falecer, Drummond, em entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto, deixou um testemunho de seus motivos para escrever (e, junto, de humildade ante sua obra). Um trecho significativo: “Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo”².
Talvez que esta “inadaptação ao mundo” tenha levado tantas vezes o poeta de volta às memórias de sua cidade, Itabira, e de sua infância. Em verdade, a raiz da inadaptação é localizada justamente em seu passado itabirano e no que lá deixou. Veja-se o que o sujeito poético expressa no poema que se segue.
² Trecho extraído de www.casadobruxo.com.br/poesia/c/entrevista.htm.

Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
[...]
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
[ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. In Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

Difícil escolher, entre tantos, apenas um ou dois textos memorialísticos de Drummond. Quero registrar mais um, com algum remorso pela exiguidade, e não sem certo sentimento de injustiça para com outros, igualmente importantes.
Em “Infância”, o eu lírico desenha com detalhes a vida da família interiorana e do menino já iniciante nas artes dos livros. Reparem que os verbos, todos no imperfeito, marcam com insistência o caráter contínuo e rotineiro da cena, que se constitui na própria matéria de construção poética, bem mais importante que os conhecimentos livrescos, como o final deixa claro.
Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
[ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma Poesia. In Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

► Hilda Hilst
Fechando, por ora, o tema “memórias”, deixo a você leitor/a, um texto que sintetiza o que vimos até agora e acentua o universo infantil de descobertas, espantos, sonhos e fantasias que, de tão marcantes, chegam a se sobrepor à vida do adulto e ao fazer do poeta.
Mais, não digo... Deixo a quem me lê, por exemplo, o prazer de desvendar pontos do poema que indicam a transformação, pela arte do poeta, do silêncio da criança “tão confundida”.
Testamento lírico

Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi

Na criança que fui, tão confundida.

À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.

O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras douradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.

Eu era uma criança delirante.

Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.

O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo

Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil

Querer deixar um testamento lírico

E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós resguardará (por certo)

A criança que foi. Tão confundida.
[HILST, Hilda. Da Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.]

Ah!, não resisti: sugiro, ainda, um “jogo” ou “brincadeira” ledora, para este derradeiro texto: procurem ler apenas as linhas isoladas (que marquei em itálico) e chegar a outro viés de leitura, percebendo com mais clareza a quem se destina o testamento lírico.
Reparem que o primeiro verso isolado (“Na criança que fui, tão confundida”) refere-se ao eu poético. O último, que encerra o texto, transforma-se ligeiramente, para dirigir-se e encaminhar o poema-testamento à memória infantil daquele leitor, ou seja, daquela possível “criança que foi. Tão confundida”.
Agora, sim: abraços!

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Memória e memórias no fazer literário




Lembrei-me deste relato que escrevi há tempos:
Aconchego
Às vezes, tenho oportunidade de viajar por pequenas cidades do interior. Se eu chego por volta das duas horas da tarde, logo ao entrar nas primeiras ruas, junto com a sensação de calma do quase dormitar das casas simples, vem o convite maravilhoso do cheiro de café saindo, fresquinho, de vários lares ao mesmo tempo.
Isso me acorda sensações antigas e me faz voltar a cenas de infância – tantas vezes vividas –, como se o tempo ainda fosse o mesmo, lento, suavemente ondulante, e não tivesse sido retalhado pelo pulsar agressivo da cidade grande.
Fico, então, a imaginar e a reviver cada detalhe, pois vivi tudo: o café sendo coado, a mesa (da cozinha, quase sempre) sendo posta, o prato de biscoitos, talvez um bolo, e o pão “saído na hora”, vindo da padaria da esquina.
Mais que uma obrigação alimentar, esse ritual do café (após uma pequena sesta e antes da lida da tarde) acabava servindo de pretexto para uma conversa breve e mansa, com uma pessoa íntima da própria casa, ou com uma vizinha que se achegava. Podia ser, também, apenas e simplesmente o momento solitário de se saborear, em devaneio, o lado sereno da vida.
É isso que ainda hoje o cheirinho de café das tardes do interior me traz: a certeza de que, em alguns lugares, e a despeito dos absurdamente agitados tempos modernos, persiste a marca do aconchego familiar, que mantém o coração aquecido e a alma apaziguada.
Quem não tem dessas lembranças, que remetem à infância, ou a um espaço / tempo povoado de sensações, algumas felizes, outras nem tanto? São marcas que ficam e compõem nossa história.
É como diz Cleide Terzi: ”O poder da memória de fazer borbulhar reminiscências ilumina cenas, gestos, semblantes, nos faz voltar no tempo, guardar palavras, aventuras, brilho nos olhos.¹”
A evocação do vivido tem o poder de transformar o que se vive agora. É lição que enlaça tempos, lugares, pessoas, objetos, para presentificá-los e atualizar seus sentidos, de acordo com as experiências individuais e coletivas do hoje. É lição que fica. É presentificação que se faz no pensamento e, em paralelo, na linguagem (que o expressa e representa).
Em se tratando especificamente da Arte, o universo rememorado, retrabalhado e ressignificado a cada momento – que é raiz de muitos atos e impulsos, e tem o poder de acalmar ou inquietar, mover ou imobilizar – constitui-se em matéria-prima, por excelência, a ser moldada pelo artista. Daí a memória ser ferramenta essencial do fazer literário, em sua faceta de recriação e ficcionalização de fatos e experiências.
E é justamente esse fundamento memorialístico claramente expresso que trago hoje, na voz de alguns escritores. Por eles, poderemos observar a diversidade de papéis e funções da memória, na composição de suas obras.
¹ Cleide do Amaral Terzi é especialista em Educação, assessora e consultora na área educacional, coordenadora de grupos de estudo. A frase foi extraída de texto escrito para um dos seus muitos Grupos de Formação.
  
A memória como ponte para se compreender o vivido


► Daniel Munduruku
As experiências passadas, quando visitadas com ideias e concepções do hoje, têm a capacidade de alargar a compreensão do vivido. É o que nos traz Daniel Munduruku, no livro em que retoma os ensinamentos que recebeu do pai, na infância, agora com os olhos do adulto.
No trecho registrado a seguir, percebe-se o olhar maduro – afetuoso e agradecido – em seu debruçar sobre lições aprendidas pelo menino, que permaneceram e se fortaleceram mediante a consciência do homem feito (em azul, trechos importantes):

“Você lembra, pai, quando me ensinou pela primeira vez a utilizar o arco e a flecha? Lembra que eu machuquei meu dedo e você escondeu seus lábios de um sorriso zombeteiro para não me deixar furioso? Seu silêncio respeitoso foi o melhor ensinamento que já tive, pois você me ensinou a respeitar os passos das pessoas. Você sabia que isso acontece sempre. Deve ter acontecido com você também, pai. Mesmo assim, você permitiu que eu me machucasse e aprendesse pelo jeito mais doloroso. Nesse dia você me ensinou que a dor faz parte da nossa vida e que cada pessoa tem de sentir sua própria dor.”
[Munduruku, D. & Borges, R. Você lembra, pai? São Paulo: Global, 2003.]

► Manuel Bandeira
Já no poema Profundamente, de Manuel Bandeira, o eu lírico também retoma a infância, mas para fazer uma avaliação melancólica: compara passado e presente, a partir de cenários na aparência semelhantes, mas aos quais a consciência crítica atribui sentidos distintos e, até, opostos.
A notar, nas comparações: os belos paralelismos, os achados sonoros e, especialmente, a maestria com que o poeta usa a identidade formal, para dela extrair  a oposição de sentidos do ontem e do hoje.

Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes
Silenciosamente.
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

– Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
– Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
[BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

Alguns detalhes: o poema vem (originalmente) dividido por um asterisco, em dois tempos. Nos dois, o sono é um ponto em comum: tem o papel de distanciar o eu poético do clima festivo.
Vejamos um pouco mais.
1ª parte
No passado (introduzido por “quando”), os ruídos da alegria, entreouvidos em meio ao sono, vêm sonoramente realçados pelos sons /s/ e /z/ e por consoantes mais fortes: “Estrondos de bombas luzes de Bengala / Vozes, cantigas e risos / Ao pé das fogueiras acesas”.
Na segunda estrofe (quando o menino acorda no meio da noite), as nasais e as negações indicam a atmosfera mais silenciosa e menos feérica e contrabalançam os sons /S/ e /Z/, ainda presentes, mas como que à distância: “No meio da noite despertei / Não ouvi mais vozes nem risos / Apenas balões / Passavam, errantes / Silenciosamente”.
2ª parte
O presente retoma o passado resumidamente, para marcar a comparação entre ontem e hoje:
Quando eu tinha seis anos / Não pude ver... / Porque adormeci”...; e
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
”.
A comparação
Nas duas partes, em perfeito paralelo (de palavras e de sons nasais), e apenas com a mudança de tempo verbal, o adulto pergunta e responde, revelando, na resposta, a diferente situação entre o tempo vivido e o que agora vive:
1ª parte:

Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

– Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
.

2ª parte:

Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

– Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

A memória e a exacerbação da falta

Lasar Segall

► Mário Quintana
No poema de Bandeira, recordar leva o eu lírico à constatação de quanto o presente perde, em alegria, para o passado. Contudo, não se colocam, em palavras claras, a possível vontade de voltar ao que já foi (que fica implícita ao leitor).
Em contrapartida, o poema de Quintana, com o qual prossigo nosso encontro de hoje, escancara, em tom de lamento, a saudade de tempos idos, o desejo de viver em tempo que não volta e o inconformismo com o presente.
Observem como a pontuação expressiva (reticências e exclamações) dos primeiros versos puxa para o texto a ideia do recordar devagar, como que num sonho, tempos de doçura e aconchego. Entretanto, o lamento – “Mas, ai” – destrói a aparente tranquilidade e, em seu lugar, instaura a perda de um “paraíso perdido” e o consequente inconformismo com o presente, que parece ter tomado de assalto o despreparado eu poético, menino envelhecido...

Recordo ainda…
Recordo ainda… e nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui… Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iluda o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai…
Que envelheceu, um dia, de repente!
[QUINTANA, Mario. A rua dos cataventos. Coleção Mario Quintana. 2a. edição. São Paulo: Globo, 2005. Disponível em: www.poesiaspoemaseversos.com.br/recordo-ainda-mario-quintana/]

► Para terminar... Drummond
Compreender o presente, comparando-o ao passado; revisitar o passado, voltar aos afetos de antes, detalhá-los... Tudo isso causa dor ao eu poético, menino que envelheceu e perdeu as carícias maternas. E tudo isso se expressa pelo tom íntimo, de conversa reservada e pelo oscilar entre verbos no presente e no pretérito. Ao fim, vence a dura realidade, a apagar o sonho da infância, como o indica o último terceto, todo no tempo presente.
Aliás, o próprio uso de forma poética tradicional (o soneto, como em Quintana), parece desligar o sujeito poético do tempo de agora e prendê-lo a vivências passadas.

Carta

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.
[ANDRADE, Carlos Drummond de. Lição de Coisas. In Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

A você que me lê... 
Desejo boas recordações. Um abraço!