sábado, 13 de maio de 2017

A mãe. O filho. A falta

Picasso
Dia das Mães...
Parece que intenções e sentimentos contrastantes acompanham a data, desde seu início:
Historicamente, o Dia das Mães moderno surgiu nos Estados Unidos a partir da iniciativa de uma mulher chamada Anna Jarvis, que queria homenagear sua mãe, Ann Maria Reeves Jarvis, nascida em 1832.
Casada com um pastor metodista, Ann teve 12 filhos, mas só viu quatro deles chegarem à idade adulta. Na época, as condições de higiene eram muito precárias e as crianças frequentemente morriam por doenças como diarreia. Preocupada com isso, ela fundou centros (Mothers’ Day Work Clubs) em diversas cidades para tentar melhorar as condições de higiene e saúde das crianças e suas famílias e diminuir a mortalidade infantil. [...]
O caráter e o ativismo de Ann influenciaram profundamente sua filha, Anna, que ficou muito entristecida com a morte da mãe. Para tentar amenizar essa dor e também homenagear o legado de Ann, Anna e algumas amigas fizeram uma homenagem às mães na igreja que frequentavam, no dia 12 de maio de 1907. [...]
Anos depois de o Dia das Mães ser incluído no calendário oficial dos EUA, Anna preocupou-se com o caráter meramente comercial de que a data estava se revestindo. Para ela, limitar a comemoração aos presentes seria distorcer o verdadeiro sentido do Dia das Mães.
[http://pt.aleteia.org/2016/05/05/voce-sabe-como-surgiu-o-dia-das-maes/]
A oscilação entre o desejo sincero de homenagear e o impulso “teleguiado” para consumir viajou no tempo e no espaço: hoje, como ontem, Dia das Mães pode significar dia de mãe receber afetos e afagos, ou dia de filho espremer o bolso e consumir, para alegria do comércio...
Também é bom não esquecer que o Dia das Mães – como Natal, Ano Novo e outras festas cíclicas grupais e sociais – gera outro tipo de oposição, a de sentimentos: alegria versus tristeza, euforia versus depressão, ansiedade versus indiferença. E a Literatura, com sua “mania” de dizer a vida, contempla essas vertentes opositivas (com seus matizes intermediários) e oferece ao leitor tanto o texto risonho, com palavras demonstradoras de amorosa alegria, quanto seu oposto, a verbalização de angústias e de sofrimentos variados.
Talvez porque o nosso seja um tempo de incertezas e desequilíbrios, inclino-me, hoje, à segunda tendência, e trago textos que abordam dores e instituem a dolorosa falta, na delicada relação mãe-filho.
São dois: um poema e uma crônica.

O filho sem mãe
A crônica de Utzeri, O triste sono sem mãe, lança um olhar angustiado a feridas sociais que estremecem o universo familiar – neste caso, o menor abandonado à própria sorte. A leitura (e mais o realce das letras coloridas) revelará a peculiaridade desse olhar.

O triste sono sem mãe
Na manhã fria de Ipanema, o menino dorme um sono profundo. Estaria sonhando? Enrolado numa manta, encolhido para proteger-se do frio, falta algo àquele menino sem nome no dia de festa. O Dia das Mães. Quem será a mãe do menino? Por que não estão juntos nesse dia, como tantos filhos e tantas mães, de todas as idades, que brincam na praia e fazem grandes filas em churrascarias, exibindo presentes? Como ele, centenas de meninos, milhares de meninos, em todo o Brasil, não tiveram a alegria de ver as mães em seu dia.
Dorme o menino, alheio a trabalhos de especialistas que registram aumento do consumo de cola de sapateiro entre os menores de rua nesses dias de festa. A droga-cola, que alivia, ajuda a fugir do triste dia a dia e acaba por matar.
O que esperar desse menino que dorme? O que cobrar dele mais tarde? Provavelmente a sociedade lhe reserva repulsa e repressão e, se tiver sorte, chegará a ser um adulto. Que tipo de adulto?  Inocente e indefeso, dorme o menino. Está só, todos passamos indiferentes por ele quando o vemos em sinais, vendendo doces, limpando vidros, pedindo esmola.
Por que tem de ser assim? Que tipo de vida e de sociedade leva uma mãe a abandonar sua cria à própria sorte? Nem os animais fazem isso, mas as circunstâncias, muitas vezes, obrigam o ser humano a ser mais insensível do que os bichos. O que vamos fazer todos, a começar pelo governo das estatísticas sem alma? Esse menino não seria consequência de um modo de conduzir a sociedade? Não seria melhor que os políticos e governantes prestassem mais atenção nele e na legião de sem-mães que assolam nossas ruas? E nós, o que vamos fazer a respeito? Não seria a hora de, pelo menos no dia das mães, pensar um pouco a respeito disso?
Dorme o menino, na frieza dura da pedra, e se pudesse sonhar, sonharia com o calor macio do regaço materno, com uma canção de ninar, cheia de carinho. Dorme o menino, dorme com frio...
[UTZERI, Fritz. Jornal do Brasil, 1º Caderno. 15/05/2000.
Disponível em: 
http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=18949]

Comentários
No registro do texto, a contraposição de duas cores de letras ajuda-nos a perceber o modo como o cronista descreve e avalia duas distintas visões do Dia das Mães, fortemente atreladas ao enorme desequilíbrio entre duas faixas sociais. De um lado (em azul), nós – os privilegiados – que “passamos indiferentes” ante o outro lado: a brutalidade de uma infância perdida pela droga (cola, crack, dá no mesmo) e, especialmente, pelo abandono por parte de instituições públicas e da sociedade.
O olhar afetivo e preocupado do cronista revela-se na linguagem. Vale ressaltar:
> As repetições
A frase “o menino dorme” percorre todo o texto, como a não deixar que o leitor esqueça a enormidade do horror: o menino dorme um sono profundo / Dorme o menino, alheio / menino que dorme / Dorme o menino, na frieza dura da pedra / Dorme o menino, dorme com frio...
> A adjetivação
Não basta reiterar que “o menino dorme”. É preciso descrever como e por que dorme: em condições precárias – enrolado, encolhido, alheio (às estatísticas sobre drogas), inocente, indefeso, com frio – e nas quais falta o essencial: sem nome, sem mãe.
> As interrogações
Os argumentos em defesa do menino são feitos mediante sucessivas perguntas retóricas (parágrafos 3 e 4) que, antes de apenas interrogar, afirmam a omissão de todos: do “governo das estatísticas sem alma” à sociedade – ou seja, a nós, que passamos indiferentes por ele”.
Essas interrogações produzem ao menos dois efeitos: em primeiro lugar, enfatizam o tom emocional e de libelo do cronista. Em segundo, incluem o leitor, chamam-no a refletir, a avaliar, a responder, a se indignar também, a buscar soluções.
> Um acalanto?
Fácil perceber a emoção crescente construída na linguagem, e que vai aumentando até o final. A coroação emotiva vem no último parágrafo, em que cessam as perguntas e são retomadas as ideias de sono e sonho da introdução. A pergunta inicial – “estaria sonhando?” – é, então, substituída pela constatação / afirmação, uma vez mais, da impossibilidade e da carência: “Dorme o menino, na frieza dura da pedra, e se pudesse sonhar, sonharia com o calor macio do regaço materno, com uma canção de ninar, cheia de carinho” .
Na frase final, fica ao leitor uma leve percepção de que o cronista, ele próprio, procura suprir a falta, e ninar o menino (notem a repetição do verbo e as reticências):
Dorme o menino, dorme com frio...

A mãe sem o filho
O triste sono sem mãe lembra, pelo tema da falta, da ausência e do sofrimento,  o poema O menino de sua mãe, de Fernando Pessoa. Se o cenário, o “campo de batalha” é diverso, as consequências devastadoras que esfrangalham vidas e afetos são semelhantes.


O menino de sua mãe
No plano abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
[PESSOA, Fernando. Cancioneiro. In Fernando Pessoa – Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.]

Comentários
Como na crônica, o leitor encontra, aqui, o tratamento afetivo do tema. Vejamos como isso se dá.
Nas duas primeiras estrofes, o eu lírico descreve o corpo morto, realçado, por contraste, pelo cenário. Reparem nas oposições entre “a morna brisa [que] aquece” e o corpo, que “jaz morto e arrefece”.
Assim, também, as cores contrapõem o branco (do jovem) e o vermelho (do sangue), como se o corpo não fosse mais que uma paisagem clara, de onde brota e escorre o rio vermelho: “Raia-lhe a farda o sangue [...] Alvo, louro, exangue”.
Infere-se, inclusive, o contraste entre olhar e ver: os olhos fitam os céus, mas o olhar (“langue e cego”) já é incapaz de ver. Aliás, a bela imagem “os céus perdidos” transfere para o cenário o vazio dos olhos mortos.
Na terceira estrofe, a pontuação expressiva e as repetições revelam o espanto do eu lírico frente ao abandono e à separação entre mãe e filho: “Tão jovem! que jovem era! / (Agora que idade tem?)”
O peso da ruptura fica ainda maior, com a confirmação dos antigos laços. O jovem soldado não é “sem nome e sem mãe”, como na crônica de Utzeri. Ao contrário, revela um passado de tal maneira enriquecido pelo amor materno, que é nomeado “o menino da sua mãe”.
As duas estrofes seguintes (4ª e 5ª) comprovam o ambiente afetuoso, onde, além da mãe, há a velha criada, a darem-lhe presentes e cercá-lo de proteção, no passado. A segurança do lar (mãe, criada, colo, presentes) ainda existe, mas não acompanha o filho no campo de batalha, como atestam os versos: “Está inteira / E boa a cigarreira. / Ele é que já não serve”, pois teve a vida abreviada. Daí, “a cigarreira breve” – outra vez, a contaminação de um elemento (a cigarreira) por outro (a vida do jovem: esta, sim, breve).
Daí, também, a última estrofe, em que se contrapõem as duas realidades: a do lar, onde se reza pelo regresso, e a do campo, onde o menino perde a vida e, com ela, a capacidade de ser “o menino da sua mãe” – esta, por sua vez, despojada de seu “filho único”.


Pergunta final
Querido/a leitor/a, em uma comemoração como o Dia das Mães, se não for dos que ignoram a data, onde e como você se situa: junto aos rotineiramente consumistas, ou aos alegremente afetuosos? Ainda: a comemoração lhe desperta sorrisos e sentimentos doces, ou olhares sombrios e reflexões melancólicas?
Esperando sua resposta, deixo meu abraço.

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