quinta-feira, 20 de abril de 2017

De sapos, versos e lições


Nestes tempos em que se afirma (e quase se impõe) a praticidade, a lógica, o utilitário como prioridade, teimo em falar de poesia.
Na verdade, insisto em falar de Arte – todas as Artes –, não como universo periférico para refúgio do indivíduo, mas como centro do Universo do Ser, aqui entendido em sua totalidade – mente, corpo, emoção, ação – em sua “inteiridade”/inteireza, portanto, que só se realiza na comunicação e na comum-ação com o Outro e com os Outros.
Entre as Artes, volto a atenção à Poesia e ao Poetar, essa capacidade de usar palavras comuns, resgatando-as do consumível e unívoco; de apropriar-se do ritmo e da sonoridade da Música e fazê-los próprios; de evocar e compor imagens, sem ser Arte Visual. A Poesia retoma, revigora, desvela, desoculta.
Segundo Octavio Paz, o poema nos faz recordar o que esquecemos: o que somos realmente.
E assim é: no tête-à-tête criador-fruidor, o poema instaura/reafirma a identidade do Ser, em meio à massa geral comunicante. Por isso mesmo, e porque há um bom tanto de massa amorfa em cada um de nós, é imprescindível abraçar a Poesia, na escola e fora dela, como escritor, escrevinhador, leitor, recitador, ouvinte...
A sensibilidade do poeta resgata e transforma o comum, o óbvio, e dá a conhecer o novo, ou o ignorado. Lembremos de Chico Buarque, revivescendo e ressignificando o conto de fada, a brincadeira e a fantasia infantil, em sua canção-poema João e Maria (aqui, na voz de Chico e Nara Leão):

Lembremos também de Drummond, em dois poemas, nos quais as palavras “pedra” e “elefante” decolam do significado original, adquirem sentidos múltiplos e se reinventam: a primeira, enquanto metáfora do sofrimento existencial; a segunda, enquanto metáfora da própria construção poética. Registro, para ajudar a memória, o início de cada poema¹:

“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.”
[...]
________________

“Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.”
[...]

É “a recriação e multiplicação dos sentidos, pela construção original da Palavra”, como já comentei em matérias anteriores, ao visitar Drummond.
O mesmo se pode dizer de “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, que desejo visitar agora, na companhia de quem me lê.
¹ Para não me repetir e cansar o leitor, remeto-o aos comentários referentes ao poemas citados, nas seguintes matérias: “O elefante”, em Onde fica o prazer de escrever, de 16/08/2014,;  “No meio do caminho”, em A repetição necessária em Drummond, de 21/04/2016.

Lição de saparia
Lendo (ou relendo) o poema de Manuel Bandeira:
Os Sapos²
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:

– "Meu pai foi à guerra!"
– "Não foi!" – "Foi!" – "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz
: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi:
– "Meu pai foi rei!" – "Foi!"
– "Não foi!" – "Foi!" – "Não foi!".

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro
:

– “A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,

– "Sei!" – "Não sabe!" – "Sabe!".
...
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...
[BANDEIRA, Manuel. Carnaval. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

Como numa lição, mestre Bandeira apresenta tipos de sapos e até os descreve. No entanto, sua descrição, em vez de desenvolver uma aula de Ciências, cria, sutilmente, uma aula de... Literatura Comparada.
Como? Vamos por partes.
A primeira estrofe, vê-se bem, serve de introdução / apresentação da saparia em seu habitat – noturno, segundo se perceberá na 12ª estrofe –, mas postos em plena luz. Em seguida, das estrofes 2 a 11, o eu poético põe em cena os sapos e suas vozes.
E onde fica, então, a “descrição” que mencionei mais acima? Pois bem: ela se constrói a partir das características (negativas) das vozes, que se vão delineando.
Assim, já de início, o sapo-boi “berra, em ronco que aterra” (2ª estrofe). Enquanto isso, o sapo-tanoeiro apenas “diz” – e aqui, o leitor percebe nas entrelinhas: apenas diz, não por ser comedido, mas por ser um “parnasiano aguado” (3ª estrofe). Não é melhor a posição dos sapos-pipas, que “falam pelas tripas”...
Só aparentemente em diálogo, os sapos aparecem em disputa, cada qual procurando mostrar seu valor e questionando o valor do outro: “foi/não foi; sabe/não sabe”.
Assim, enquanto os sapos-pipas, orgulhosos de si, proclamam sua sabedoria e “um mal em si cabe”,  o sapo-boi procura valorização na linhagem: "Meu pai foi à guerra!"; "Meu pai foi rei!". Por sua vez, o tanoeiro exalta a si próprio pelo fazer poético, como em: “Que arte!”; “O meu verso é bom / Frumento sem joio”.
Aliás, a genialidade do poeta está em insinuar – dizer sem dizer –, por meio do monólogo de cada um... a presunção de todos.
De todos, eu disse?
Não. A partir do 12º verso, algo muda. Observem: o espaço é outro, a intensidade do som e da luz é outra:
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa
E nesse “lá” mais distante, está um só tipo de sapo, caracterizado de modo bem diferente dos anteriores:
Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...
... Solitário, sem louros, está o sapo-cururu, no qual o eu lírico deposita seu afeto, sua preferência: em vez de narrar e/ou descrever, como antes, dirige-se a ele como que em diálogo (“... soluças tu”) e observa suas condições precárias: no barranco (perau) da beira do rio, onde passa frio e ninguém o ouve.

A lição e a polêmica

O poema, portanto, contrapõe aqueles sapos que parecem estar num palco iluminado, e aos quais “a luz os deslumbra”, ao solitário cururu que, na sombra da noite, mostra-se fugido ao mundo / Sem glória, sem fé”.
Outro aspecto, ainda: diferente da verborragia dos sapos pretensiosos, o cururu não tem voz, só o soluço.
É importante, para entender melhor os sentidos do poema, prestar atenção aos termos que compõem a fala dos que têm voz. Sem esgotar a análise (de resto, já muito bem feita, por tantos especialistas), dou uma pincelada, suficiente para demonstrar o que chamei de “aula de Literatura Comparada”.
Começo pelo sapo-tanoeiro, o mais emblemático e em evidência. Seu autoelogio percorre cinco ininterruptos versos; contém exclamações e, principalmente, termos preciosistas e linguagem rebuscada, bastante caros aos poetas parnasianos, como Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, entre outros. Por isso mesmo, entende-se melhor a contraposição entre vozerio rebuscado e silêncio, marca do poema, visualizando-o em seu tempo e espaço próprios.
O poema de Bandeira foi escrito em 1919, mas tornou-se conhecido, de fato – e rejeitado –, em 1922, em plena Semana de Arte Moderna, quando um grupo de intelectuais e artistas, representantes de todas as formas de expressão (literatura, música, dança, pintura, escultura, arquitetura) apresentou, no Teatro Municipal de São Paulo, obras e ideias que rompiam com os cânones da cultura e arte europeias (tão bem aceitas por aqui) e que se aproximavam da cultura brasileira:
Na segunda noite, enquanto Menotti del Pichia expunha a plataforma geral do movimento  [modernista], Mário de Andrade declamou “Pauliceia Desvairada” e Ronald de Carvalho, “Os sapos”, de Manuel Bandeira, que fazia uma sátira do Parnasianismo. O público reagiu com vaias, latidos, miados, relinchos. O tumulto foi tanto que as galerias do teatro tiveram que ser fechadas.”²
A plateia, acostumada aos versos de Bilac, não poderia, mesmo, aceitar a crítica ao “parnasiano aguado”, de Os “Sapos” (assim como, aliás, não aceitou as ironias agressivas de Mário de Andrade, que atacavam a estética tradicional e a burguesia conservadora, ao mesmo tempo).
Ao poeta parnasiano por excelência (“aguado”) cabe a linguagem e a técnica formal, o palavrear afetado e o tom doutoral, que Bandeira atribui ao sapo-tanoeiro:
– “A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo". 

Note-se que, para criticar o Parnasianismo, Bandeira utiliza, ironicamente, aspectos formais da própria estética, como o esquema rígido dos versos de cinco sílabas e as rimas.
Quebra, porém, toda a formalidade – e a ela se opõe – com a construção das estrofes de quatro versos, tão populares nas quadrinhas brasileiras, e com as onomatopeias que simulam o coaxar dos sapos (foi/não foi; sei/ não sabe/não sabe).
Essa mudança de direção rumo a formas nacionais populares culmina na figura do sapo-cururu. Bem diferente dos outros, sem espaço iluminado e sem voz, o cururu faz lembrar a situação dos modernistas, marginalizados naquele início do século XX. E reparem: nas estrofes finais, a linguagem, além de ser mais simples, faz menção à canção folclórica – “Sapo-cururu / Da beira do rio”³ – o que vem completar a oposição Parnasianismo / Modernismo.
Eis aí porque o poema, como eu disse no início, vale por uma pequena, sutil e inventiva aula em que se comparam e contrapõem duas estéticas: o Parnasianismo, ainda vigoroso naquele momento, e o Modernismo, que tentava se aprumar, mesmo que em “perau profundo e solitário”, e ainda “sem glória e sem fé”.
² http://www.historiamais.com/semana-de-arte-moderna.htm.

³ Aliás, é bom lembrar que essa canção foi recolhida e arranjada para coral por Villa-Lobos, outro ilustre integrante da Semana de Arte Moderna.

Ah!, os poetas, sempre nos surpreendendo...
A aparente inocência do título – “Os Sapos” –, sabe o leitor, metaforiza os poetas e duas diferentes maneiras de conceber a arte poética. O que Manuel Bandeira e tantos outros inspirados criadores de poesia fazem é restabelecer / redescobrir o frescor original da Palavra e da Língua.
Bem melhor que eu, explica Octavio Paz – com o qual me despeço, enviando meu abraço a todos que me acompanharam.
Cada vez que nos servimos das palavras, nós as mutilamos. O poeta, porém, não se serve das palavras. É seu servo. Ao servi-las, devolve-as à sua plena natureza,  fá-las recuperar seu ser. Graças à poesia, a linguagem reconquista seu estado original. Primeiramente, seus valores plásticos e sonoros, em geral desdenhados pelo pensamento; em seguida, os afetivos; por fim, os significativos. Purificar a linguagem, tarefa do poeta, significa devolver-lhe sua natureza original.

[PAZ, Octavio. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.]

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