quinta-feira, 16 de março de 2017

O olhar sensível da mulher – pelo olho de Galeano








Eduardo Galeano, no seu Livro dos Abraços, tem várias e deliciosas crônicas, que flagram a sensibilidade feminina, em diferentes circunstâncias. Fiz delas uma pequena seleção, que ofereço à leitora e ao leitor, ainda pensando no Mês da Mulher.
Afinal, como ensina Amós Oz, a leitura consegue nos aprofundar na compreensão do outro, mais do que a própria observação da realidade: “como leitor, [você] observa não só a mulher que olha pela janela. Está com ela dentro da sua casa, e até dentro da sua cabeça” (matéria de 08/03/2017).
Vamos aos textos.

O tempo
Alejandra é a mulher, ainda menina, mas já capaz de empatia.
Numa dessas noites – me conta Alejandra Adoum – a mãe de Alina estava se preparando para sair. Alina a olhava, enquanto a mãe, sentada na frente do espelho, pintava os lábios, as sobrancelhas e passava pó-de-arroz no rosto. Depois a mãe experimentou um vestido, e outro, e pôs um colar de coral negro, e uma tiara nos cabelos, e irradiava uma luz limpa e perfumada. Alina não desgrudava os olhos.
– Como eu gostaria de ter a tua idade – disse Alina.
– Eu, em compensação... – sorriu a mãe – daria qualquer coisa para ter quatro anos, como você.
Naquela noite, ao regressar, a mãe encontrou-a acordada. Alina abraçou suas pernas com força.
– Morro de pena de você, mamãe – disse, soluçando.

As formigas
Tracey consegue dar sentido ao que vê e ao que faz. A menina, capaz de imaginar e incorporar dor e angústia, levará a experiência (e o remorso?) por muito tempo. Observem a fina ironia de Galeano e, mais ao fim, a descrição das formigas, feita de modo a provocar a piedade do leitor.
Tracey Hill era menina num povoado de Connecticut, e se divertia com diversões próprias de sua idade, como qualquer outro doce anjinho de Deus no estado de Connecticut ou em qualquer outro lugar deste planeta.
Um dia, junto a seus companheirinhos de escola, Tracey se pôs a atirar fósforos acesos num formigueiro. Todos desfrutaram muito daquele sadio entretenimento infantil; Tracey, porém, ficou impressionada com uma coisa que os outros não viram, ou fizeram como se não vissem, mas que deixou-a paralisada e deixou nela, para sempre, um sinal na memória: frente ao fogo, frente ao perigo, as formigas separavam-se em casais e assim, de duas em duas, bem juntinhas, esperavam a morte.

Andanças/2
A premonição faz parte da sensibilidade feminina. Ouvir o vento, interpretar seus movimentos e ruídos é parte da comunhão com a natureza, que acompanha a mulher ancestral.
Não foi um vento errante, desses que vagabundeiam de déu em déu, mas uma senhora ventania certamente disparada lá do distante litoral quente até a cidade de Medellín, através das montanhas e dos países. O vento chegou até a casa de Jenny e atravessou-a de ponta a ponta: de repente abriu-se a porta da frente, como se tivesse sido chutada por algum bêbado, e em seguida abriu-se a porta dos fundos, da mesma violenta maneira.
Jenny, então, soube. Restabelecida a calma, até o ar duvidava, o ar machucado; mas ela sabia. E a lavadeira, que morava longe, na cidadezinha de La Pintada, também sabia: estava enxaguando roupa com água da chuva, naquela mesma meia-noite, quando sentiu que havia alguém às suas costas:
– Eu a vi, menina. Posso jurar.
A notícia chegou a Medellín por telegrama, na manhãzinha seguinte, mas já não era necessária: à meia-noite de ontem, morreu Paula López, mãe de Jenny, muito amiga da lavadeira, na distante cidade de Guayaquil.

Profecias/1
Se a premonição faz parte da sensibilidade feminina, como negar crédito à mulher que é maga e, portanto, privilegiada por seus dons sobrenaturais?
No Peru, a maga cobriu-me de rosas vermelhas e depois leu a minha sorte. A maga anunciou: – Dentro de um mês, receberás uma distinção. Eu ri. Ri pela infinita bondade da mulher desconhecida, que me presenteava com rosas e bons presságios e ri por causa da palavra distinção, que tem um sei lá o quê de cômica, e porque me veio à cabeça um velho amigo do bairro, que era muito tosco mas muito certeiro, e que costumava dizer, sentenciando, levantando o dedo: "Cedo ou tarde, os escritores se hamburguesam". E então ri; e a maga riu da minha risada.
Um mês depois, exatamente um mês depois, recebi em Montevidéu um telegrama. No Chile, dizia o telegrama, tinham me outorgado uma distinção. Era o prêmio José Carrasco.

A paixão de dizer/1
A mulher de Oslo, contadora de histórias, tem o poder encantatório de fazer reviver personagens e histórias.
Marcela esteve nas neves do Norte. Em Oslo, uma noite, conheceu uma mulher que canta e conta. Entre canção e canção, essa mulher conta boas histórias, e as conta espiando papeizinhos, como quem lê a sorte de soslaio.
Essa mulher de Oslo veste uma saia imensa, toda cheia de bolsinhos. Dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para ser contada, uma história de fundação e fundamento, e em cada história há gente que quer tornar a viver por arte de bruxaria. E assim ela vai ressuscitando os esquecidos e os mortos; e das profundidades desta saia vão brotando as andanças e os amores do bicho humano, que vai vivendo, que dizendo vai.

A casa das palavras
No sonho, Helena Villagra percebe que as palavras vivem: têm sons, movimentos, sabores, odores e cores.
Na casa das palavras, sonhou Helena Villagra, chegavam os poetas. As palavras, guardadas em velhos frascos de cristal, esperavam pelos poetas e se ofereciam, loucas de vontade de ser escolhidas: elas rogavam aos poetas que as olhassem, as cheirassem, as tocassem, as provassem. Os poetas abriam os frascos, provavam palavras com o dedo e então lambiam os lábios ou fechavam a cara. Os poetas andavam em busca de palavras que não conheciam, e também buscavam palavras que conheciam e tinham perdido.
Na casa das palavras havia uma mesa das cores. Em grandes travessas as cores eram oferecidas e cada poeta se servia da cor que estava precisando: amarelo-limão ou amarelo-sol, azul do mar ou de fumaça, vermelho-lacre, vermelho-sangue, vermelho-vinho...
[GALEANO, Eduardo. O Livro dos abraços. Trad. Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2002. Disponível em
www.anarquista.net/wp-content/uploads/2013/03/O-Livro-dos-Abra%C3%A7os-Eduardo-Galeano.pdf]

Ao fim e ao cabo...
O que fiz foi apenas um recorte do autor, a que você, leitora ou leitor, poderá querer juntar outros exemplos. Se for o caso – se os textos lembraram outros, de Galeano ou não –, que tal sugeri-los ou reparti-los por esse blog?
Um abraço esperançoso.

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