quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Lugar de Poesia é...


Onde o lugar da poesia?
Imagino quantos professores estão agora, neste final de janeiro, ultimando seu planejamento do semestre... Mas quantos, desses, ao organizar um documento tão importante, estarão preocupados com o sentido poético da vida?
Aquela professora de Ciências, que imagino concentrada, de cenho franzido, estará interessada em interessar seus alunos pela poesia da natureza?
Ou aquele jovem professor de Matemática, que mal abriu os olhos para a profissão, abrirá os olhos dos estudantes, mostrando-lhes a espantosa poesia dos números que existe em cada objeto do dia a dia, em cada planta do jardim da escola, na harmônica organização do Universo?
 Ah!, a alfabetizadora, esta sim, deve estar procurando poesias para suas aulas... mas apenas porque a rima auxilia no processo de alfabetização, não mais.
Não mais, que pena!
Pois é, talvez nem mesmo o experiente professor de Língua Portuguesa se preocupe com a poesia – nem da vida, nem das palavras.
Porque Poesia é para as horas de relaxamento e para os dias de folga! Em contrapartida, o trabalho sério, em classe, demanda trabalhar leitura e escrita daqueles textos que estão em jornais, em obras célebres, em livros didáticos, em enciclopédias; daqueles que serão pedidos em provas vestibulares e em conclusões de cursos; daqueles outros praticados no dia a dia, em casa, escritórios, repartições públicas, etc. etc. etc. etc. etc...
E, no entanto, a Poesia faz a vida adquirir mais sentido e amplitude:
A poesia, que faz parte da literatura e, ao mesmo tempo, é mais que a literatura, leva-nos à dimensão poética da existência humana. Revela que habitamos a Terra, não só prosaicamente – sujeitos à utilidade e à funcionalidade –, mas também poeticamente, destinados ao deslumbramento, ao amor, ao êxtase. Pelo poder da linguagem, a poesia nos põe em comunicação com o mistério, que está além do dizível.¹
Dizem as professoras e escritoras Christina Dias e Marô Barbieri²:
Há poesia por tudo. Essa é a verdade. O que precisa é ensaiar o olho para achar.
E achar poema não é coisa que se aprende assim de forma distraída. É preciso treino e alguém que mostre, no início. [...] Hoje, a única porção de leitura que a maioria das pessoas tem, ainda mais de poesia, está na escola. Se o professor não levar poesia pra dentro da escola periga o sujeito nunca ver um só poema, um só texto literário. E aí a coisa complica. Claro que sempre há jeito. Mas, sem auxílio, o caminho é individual e, se a pessoa está sozinha, é mais difícil.
Então é na escola que a poesia deve aparecer. E lá ela pode passear à vontade, significando gestos e falas. O professor atento percebe, na fala dos seus alunos, pequenos ganchos para apresentar a rima, a brincadeira com repetições e invenção de palavras.²
¹ MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. Disponível em: uesb.br/labtece/artigos/A%20Cabeça%20Bem-feita.pdf.

² DIAS, Christina; BARBIERI, Marô. Poesia, criança & escola - leituras para um professor que quer ver. Via Internet; atualmente, indisponível. 

Um poeta pensa a educação
Nada como reforçar uma ideia com um argumento de autoridade – concorda, leitor? Por isso, chamo o mestre Drummond e a agudeza de seu pensamento.
Em crônica de 1974, o poeta comenta, com precisão e lucidez, sobre o desaparecimento da poesia na vida de tantos, tão logo termina a infância. (Eu diria que, hoje em dia, até antes!)

A educação do ser poético
Por que motivo as crianças, de modo geral, são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo? Será a poesia um estado de infância relacionada com a necessidade de jogo, a ausência de conhecimento livresco, a despreocupação com os mandamentos práticos de viver – estado de pureza da mente, em suma?
Acho que é um pouco de tudo isso, se ela encontra expressão cândida na meninice, pode expandir-se pelo tempo afora, conciliada com a experiência, o senso crítico, a consciência estética dos que compõem ou absorvem poesia.
Mas, se o adulto, na maioria dos casos, perde essa comunhão com a poesia, não estará na escola, mais do que em qualquer outra instituição social, o elemento corrosivo do instinto poético da infância, que vai fenecendo, à proporção que o estudo sistemático se desenvolve, ate desaparecer no homem feito e preparado supostamente para a vida?
Receio que sim. A escola enche o menino de matemática, de geografia, de linguagem, sem, via de regra, fazê-lo através da poesia da matemática, da geografia, da linguagem. A escola não repara em seu ser poético, não o atende em sua capacidade de viver poeticamente o conhecimento e o mundo.
Sei que se consome poesia nas salas de aula, que se decoram versos e se estimulam pequenas declamadoras, mas será isso cultivar o núcleo poético da pessoa humana?
Oh, afastem, por favor, a suspeita de que estou acalentando a intenção criminosa de formar milhões de poetinhas nos bancos da escola maternal e do curso primário. Não pretendo nada disto, e acho mesmo que o uso da escrita poética na idade adulta costuma degenerar em abuso que nada tem a ver com a poesia. Fazem-se demasiados versos vazios daquela centelha que distingue uma linha de poesia, de uma linha de prosa, ambas preenchidas com palavras da mesma língua, da mesma época, do mesmo grupo cultural, mas tão diferentes.
Se há inflação de poetas significantes, faltam amadores de poesia – e amar a poesia é forma de praticá-la, recriando-a. O que eu pediria à escola, se não me faltassem luzes pedagógicas, era considerar a poesia como primeira visão direta das coisas e, depois, como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o fundo mágico, lúdico, intuitivo e criativo, que se identifica basicamente com a sensibilidade poética.
[...]
Alguma coisa que se bolasse nesse sentido, no campo da Educação, valeria como corretivo prévio da aridez com que se costuma transcrever os destinos profissionais, murados na especialização, na ignorância do prazer estético, na tristeza de encarar a vida como dever pontilhado de tédio. E a arte, como a educação e tudo o mais, que fim mais alto pode ter em mira senão este, de contribuir para a educação do ser humano à vida, o que, numa palavra, se chama felicidade?
[ANDRADE, Carlos Drummond de .Transcrito do Jornal do Brasil, Rio de Janeiro – RJ, 20.07.74. Disponível em: docslide.com.br/documents/a-educacao-do-ser-poetico.html.] 

Lugar de Poesia é na escola
Para poetas, filósofos, escritores e, também, para alguns educadores, um dos lugares (não o único) da poesia é, necessariamente, a escola, onde ela parece estar sendo esquecida. Você, leitor, concorda com eles?
Eu gostaria muito de saber o que pensa: se tem a Poesia como parte de sua vida, em que medida isso acontece...
Voltarei ao assunto. Até breve!

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