quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Quando o conhecimento prévio precisa de (mais) apoio

Picasso - "Meninas Lendo"
Texto, tecer, tecido – palavras de mesma raiz – têm em comum a ideia do entrelaçar, tramar, enredar...
É bem assim: um texto verbal (principalmente o escrito) “redondinho”, amarradinho – com todas as palavras, pontuações e ligações realmente significantes – parece algo como a tessitura de um belo tapete persa... Nada pode estar fora do lugar, nada pode quebrar a harmonia do conjunto, para que o leitor não se perca.
Nem seu título – e, por isso mesmo, venho me detendo sobre ele.


Já comentei, em artigos anteriores, que o título pode comprometer ou auxiliar a compreensão leitora. Pode fornecer pistas e, até mesmo, antecipar aspectos do conteúdo, principalmente quando aciona os conhecimentos prévios de quem lê.
Por outro lado, pontuei que, por vezes, sua ausência faz com que o texto fuja de tal maneira à compreensão do leitor, que este não consegue associá-lo a nada antes lido e/ou vivido. A narrativa baseada em “O Leão Apaixonado”, que propus na matéria de 30/08/2016, é exemplo disso: a linguagem era clara, direta, simples; mas o conteúdo se escondia... por falta de título.
Com igual perspectiva de estudo, registro mais um texto. Aqui, a ausência de título só poderá ser compensada pelo eventual conhecimento do assunto, por parte do leitor. Mais: a linguagem metafórica torna a compreensão difícil, senão impossível, sem seu título. 

Contudo, será que apenas saber o título do que lemos basta, sempre? Será que bastará, no texto que agora proponho? Vamos à sua leitura. 
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Com gemas para financiá-lo, nosso herói desafiou valentemente todos os risos desdenhosos que tentaram dissuadi-lo de seu plano. ‘Os olhos enganam’, disse ele, ‘um ovo e não uma mesa tipifica corretamente esse planeta inexplorado’.
Então as três irmãs fortes e resolutas saíram à procura de provas, abrindo caminho, às vezes através de imensidões tranquilas, mas amiúde através de picos e vales turbulentos. Os dias se tornaram semanas, enquanto os indecisos espalhavam rumores apavorantes a respeito da beira.
Finalmente, sem saber de onde, criaturas aladas e bem-vindas apareceram, anunciando um sucesso prodigioso.
[Dooling e Landman. In KLEIMAN, Angela. Texto & Leitor: aspectos cognitivos da leitura. Campinas, SP. Pontes, 2004.]


Teste de compreensão

Proponho algumas questões de compreensão de texto, semelhantes àquelas frequentemente apresentadas a jovens estudantes com certa prática de leitura (digamos, do Ensino Médio ou, ao menos, dos últimos anos do Fundamental).

I. Reconte o que leu.

II. Responda às questões seguintes (via Angela Kleiman):
1- Quem é o herói?
2- Qual é seu plano?
3- De que planeta se trata?
4- Quem são as irmãs e onde elas estão abrindo caminho?
5- Quem eram as criaturas aladas e de onde elas vieram?


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Leitor/a, agora que respondeu, diga: como se saiu no teste? Não muito bem, talvez... Não desanime, volte a ele, agora sabendo seu título: A descoberta da América por Colombo”.


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E então, melhorou?

A você, que estuda ou estudou um pouquinho de História das Américas, o texto, embora metafórico, deve ter-se tornado mais acessível, não? 

De todo modo, se não é professor/a (ou aficionado/a) da matéria, pode ainda ter pairado alguma dúvida, em relação às duas questões finais. O título, apenas, talvez não tenha sido suficiente. Isso aconteceu porque a linguagem figurada costuma encobrir o sentido e impedir uma fácil relação com os saberes que temos.

Por isso mesmo, qualquer pessoa com razoável experiência leitora, jovem ou adulto, pode derrapar na compreensão de textos mais complexos, ainda que haja título e embora ela tenha os conhecimentos prévios (de mundo, de recursos linguísticos e de textos) necessários ao seu entendimento.

Nesse caso (sabe disso o professor, o pesquisador, o estudante, o leitor experiente), até os conhecimentos que temos precisam de apoios extras, dados por novas explicações ou por textos mais acessíveis. 

Proponho comprovar o fato com outra leitura  esta de texto didático, com linguagem simples e direta, para relacionar àquele primeiro. O leitor verá como, a partir dele, o reconto e as questões anteriores tornam-se luminosamente cristalinas.

(Indispensável orientação, pré-segunda-leitura: ambos os escritos referem-se ao mesmo fato histórico.)
Na década de 1480, Colombo esteve envolvido tanto com construtores de naus quanto com navegadores portugueses, em Lisboa e nas ilhas do Atlântico já sob o poder lusitano. Foi nessa época que começou a conceber a ideia de que era possível chegar até o Oceano Índico (desconhecia-se o Pacífico nessa época) e, por consequência, até as Índias, fazendo uma viagem ultramarina que circundasse não a costa africana, mas o próprio globo terrestre, a esfera planetária. Colombo acreditava plenamente na possibilidade de a Terra ser esférica – o que já era uma hipótese mais ou menos sólida para alguns estudiosos da época.
Colombo apresentou seu projeto para chefes políticos genoveses e portugueses, mas nenhum teve interesse em bancar sua aventura. Os únicos que levaram a sério o projeto de Colombo foram os reis da Coroa Espanhola, Fernando e Isabel. Os reis espanhóis forneceram a Colombo e a seus tripulantes três naus, chamadas de Nina, Pina e Santa Maria.
Ele saiu do Porto de Palos, na Espanha, no dia 3 de agosto de 1492. Com ele, viajavam cerca de 190 homens em busca de novos horizontes. Em determinado momento da viagem, os tripulantes se revoltaram contra Colombo, mas ainda assim ele não desanimou e manteve a certeza de que iria encontrar novas terras.
Finalmente, no dia 12 de outubro de 1492, a caravela Pinta deu sinal de descoberta de terra, disparando um tiro de canhão. Colombo atracou numa ilha, chamada pelos nativos de Guanahani, a qual batizou com o nome de São Salvador.
[Texto editado com o auxílio de duas fontes: escolakids.uol.com.br/descobrimento-america.htm ; www.grupoescolar.com/pesquisa/12-de-outubro--dia-do-descobrimento-da-america.html]

É exatamente a observação de que ambos os textos relatam o mesmo fato (a viagem de Colombo ao continente americano) que "acorda" nossos conhecimentos prévios e faz acender a luz da compreensão sobre o texto metafórico que, pelo modo de dizer –  ainda mais sem seu título, como foi minha proposição inicial – encobre o conteúdo.
Bem entendido: o texto didático, para ser compreendido por leitor razoavelmente hábil, não requer auxílio nem do texto auxiliar nem do título. Em compensação, o texto metafórico tornar-se um pouco mais acessível, se quem lê conhece seu título. E plenamente acessível, quando o leitor pode se valer do apoio do texto didático  –  especialmente com os trechos sublinhados a conduzirem a leitura...
Essas pontes para o entendimento dão, ao leitor, todas as condições de responder às questões formuladas, não é verdade?

Na esperança de que assim seja, deixo meu abraço.

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