segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Títulos que lemos e conhecimentos que temos


A compreensão do que lemos depende de várias e diferentes condições. Por exemplo, de qualidades intrínsecas ao texto – como clareza, conexões bem feitas, coesão entre ideias, adequação do título. 


Entretanto, tal compreensão depende, também, de particulares do leitor – como ter conhecimento da língua e do assunto a ser tratado, além de conseguir relacionar o que lê àquilo que já conhece, por experiência de vida e de outras leituras.
É essa experiência de leitor que focalizo hoje, para comentar a relação que tem com uma parte específica do texto: seu título.
Não nos damos conta, geralmente, mas o título é a primeira “cutucada” em nossos prévios conhecimentos, enquanto leitores. Chama-nos a acionar o que já sabemos, até a respeito do gênero a que pertence o que lemos.
Assim, “A abelha e o urso”, ou “A princesinha dos cabelos cacheados” remetem-nos preferencialmente à literatura de ficção. São nossos saberes, adquiridos em leituras anteriores, que aqui nos ajudam: o título com animais faz lembrar vários semelhantes, como “A cigarra e a formiga”, “A rã e o boi”, “A raposa e as uvas”, que reconhecemos serem introdutórios de pequenas historietas do gênero fábula“A princesinha dos cabelos cacheados” poderá fazer-nos pensar em títulos de contos de fada, que tantas vezes ouvimos e lemos na infância, como “A princesa do grão de ervilha”, “A menina dos cachinhos dourados”.
Não seria o mesmo, se o título fosse “A vida das abelhas e dos ursos”, ou “Como manter por mais tempo seus cabelos cacheados”, concordam?  Porque o primeiro apontaria, quem sabe, para um texto de explicação / divulgação científica; o segundo, para um texto instrucional, uma orientação estética.

O outro lado
Ah!, quantos meandros comporta o estudo do texto...
Meu assunto continua a ser a relação título X conhecimentos prévios. Entretanto, meu ponto de vista, agora, será outro.
Em matéria anterior (30/08/2016), comentei as brechas na compreensão que podem ser causadas pela falta de título. Quero mostrar, agora, o inverso: como a mesma falta de título pode ser (ao menos parcialmente) suavizada pelos conhecimentos prévios do leitor.
Para isso, peço, antes, a leitura do fragmento de narrativa sem título, que transcrevo a seguir .
_____?_______
Acordou. Levantou-se. Aprontou-se. Lavou-se. Barbeou-se. Enxugou-se. Perfumou-se. Lanchou. Escovou. Abraçou. Beijou. Saiu. Entrou. Cumprimentou. Orientou. Controlou. Advertiu. Chegou. Desceu. Subiu. Entrou. Cumprimentou. Assentou-se. Preparou-se. Examinou. Leu. Convocou. Leu. Comentou. Interrompeu. Leu. Despachou. Conferiu. Vendeu. Vendeu. Ganhou. Ganhou. Ganhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou. Lesou. Explorou. Escondeu. Burlou. Safou-se. Comprou. Vendeu. Assinou. Sacou. Depositou. Depositou. Depositou. Associou-se. Vendeu-se. Entregou. Sacou. Depositou. Despachou. Repreendeu. Suspendeu. Demitiu. Negou. Explorou. Desconfiou. Vigiou. Ordenou. Telefonou. Despachou. Esperou. Chegou. Vendeu. Lucrou. Lesou. Demitiu. Convocou. Elogiou. [...]
O que acharam, soou compreensível? Sentiram necessidade de ler uma vez mais, ou de voltar atrás na leitura?
Creio que, por ser diferente do usual, esse conjunto de palavras cause estranhamento. À primeira vista, assemelha-se, até, a mera listagem para estudo do pretérito perfeito de verbos – decoreba para a escola...
Quem lê, provavelmente, reluta em perceber que são “palavras tecidas em texto” – ligadas, conectadas para apresentar uma ideia organizada. Contudo, aos poucos, formam-se imagens na cabeça do leitor experiente – e elas têm a ver com o mundo que ele já conhece.
Observem: os verbos expressam ações da vida diária e, em sua sucessão, compõem cenas de antes e depois, que, em sua articulação, delineiam uma pequena narrativa, referente a uma só personagem – sem nome próprio, é verdade; porém, com atuação profissional definida.
E qual seria, então, sua ocupação/profissão? Certamente, ninguém deve ter pensado em padeiro, professor, faxineiro, ator...
Ah, e por que só citei personagens masculinas? Por que não: atriz, faxineira etc.? Simples: porque o gênero masculino está determinado em uma ação específica: uma só, mas esclarecedora.  Notaram? (Trata-se de “Barbeou-se”. )
Vamos em frente, em nossa pesquisa leitora / detetivesca.
Ao ler “Ganhou. Ganhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou. Lesou. Explorou. Escondeu. Burlou. Safou-se.” – o leitor de hoje (infelizmente!!) poderia até pensar em algum político...
Mas não. A sequência de ações encaminha o pensamento para outro alguém. Talvez um comerciante, porque, além de lucrar e ganhar, pratica outras ações que lhe são próprias: “Despachou. Conferiu.  [...]. Comprou. Vendeu. Assinou. Sacou. Depositou. [...]  Repreendeu. Suspendeu. Demitiu .
Contudo, não um modesto comerciante (que pouco vende e pouco lucra), pois as repetições dão conta da grandeza das transações: “Ganhou. Ganhou. Ganhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou. [...] Depositou. Depositou. Depositou.
Concluindo, pode-se pensar em um executivo e/ou dono de empresa de porte considerável, com autoridade para examinar, ler, convocar, comentar, interromper, despachar, vender, ganhar, lucrar, repreender, suspender, demitir etc. Concordam comigo?
Por esse fragmento de narrativa, podemos, ainda, conferir algumas características a tal executivo. Possui algum laço afetivo (“Abraçou. Beijou.”); é profissional de sucesso (volto às repetições: “Ganhou. Ganhou. Ganhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou.” etc.) e de poder (“Ordenou. Telefonou. Despachou. [...] Demitiu. Convocou.”); finalmente, sua moral deixa a desejar (“Lesou. Explorou. Escondeu. Burlou. Safou-se. [...] Sacou. Depositou. Depositou. Depositou. Associou-se. Vendeu-se. [...] Negou. Explorou.”).
É possível, também, perceber alguns dos espaços onde acontecem as ações (não todos, uma vez que o texto não está registrado por inteiro). De início, uma casa onde mora ou onde dorme: “Acordou. Levantou-se. Aprontou-se. Lavou-se. Barbeou-se. Enxugou-se. Perfumou-se. Lanchou. Escovou. Abraçou. Beijou. Saiu.
Em seguida, algum prédio com escada ou elevador, onde tem escritório: Entrou. Cumprimentou. Orientou. Controlou. Advertiu. Chegou. Desceu. Subiu. Entrou. Cumprimentou. Assentou-se.
Acrescento um dado, que a leitura integral do texto (ver abaixo) deixará ainda mais claro: a posição crítica (e desfavorável) do narrador em relação à personagem, evidenciada  pelo exagero das repetições e pela enumeração de ações condenáveis.
Desse modo, nosso conhecimento de mundo – mais precisamente, da rotina diária pessoal e profissional de pessoas – permite a nós, leitores,mesmo na ausência do títuloinferir que o texto narra, criticamente, a rotina de um executivo ou empresário.
Para finalizar, deixo o texto integral, que ajudará a confirmar certos aspectos da leitura e a descobrir novas pistas e sentidos. Percebam que o título está bem adequado à narrativa (construída por verbos conjugados, que montam o perfil de uma personagem).
Boa leitura!

Como se conjuga um empresário
Acordou. Levantou-se. Aprontou-se. Lavou-se. Barbeou-se. Enxugou-se. Perfumou-se. Lanchou. Escovou. Abraçou. Beijou. Saiu. Entrou. Cumprimentou. Orientou. Controlou. Advertiu. Chegou. Desceu. Subiu. Entrou. Cumprimentou. Assentou-se. Preparou-se. Examinou. Leu. Convocou. Leu. Comentou. Interrompeu. Leu. Despachou. Conferiu. Vendeu. Vendeu. Ganhou. Ganhou. Ganhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou. Lesou. Explorou. Escondeu. Burlou. Safou-se. Comprou. Vendeu. Assinou. Sacou. Depositou. Depositou. Depositou. Associou-se. Vendeu-se. Entregou. Sacou. Depositou. Despachou. Repreendeu. Suspendeu. Demitiu. Negou. Explorou. Desconfiou. Vigiou. Ordenou. Telefonou. Despachou. Esperou. Chegou. Vendeu. Lucrou. Lesou. Demitiu. Convocou. Elogiou. Bolinou. Estimulou. Beijou. Convidou. Saiu. Chegou. Despiu-se. Abraçou. Deitou-se. Mexeu. Gemeu. Fungou. Babou. Antecipou. Frustrou. Virou-se. Relaxou-se. Envergonhou-se. Presenteou. Saiu. Despiu-se. Dirigiu-se. Chegou. Beijou. Negou. Lamentou. Justificou-se. Dormiu. Roncou. Sonhou. Sobressaltou-se. Acordou. Preocupou-se. Temeu. Suou. Ansiou. Tentou. Despertou. Insistiu. Irritou-se. Temeu. Levantou. Apanhou. Rasgou. Engoliu. Bebeu. Rasgou. Engoliu. Bebeu. Dormiu. Dormiu. Dormiu. Acordou. Levantou-se. Aprontou-se.

[MINO.
Como se conjuga um empresário. In: PINILIA, Aparecida; RIGONI, Cristina;INDIANI,Maria Thereza. Coesão e coerência como mecanismo para a construção do texto. Disponível em: rede.novaescolaclube.org.br/grupo/por-uma-leitura-proficiente/como-se-conjuga-um.]

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