terça-feira, 30 de agosto de 2016

Título, para quê?


Na matéria “A ambiguidade e seus estragos”, de 02/08/2016, registrei o seguinte título de notícia: “Relatora vota contra autorização para publicar biografias” – que, por sua imprecisão, distorcia o verdadeiro teor da informação que se queria divulgar, ou seja: que a relatora de determinado processo era contra a obrigatoriedade de autorização prévia para a publicação de biografia; e não estava, como o título fazia supor, desautorizando a publicação em si.
A verdade é que o mau título pode comprometer, contrariar ou distorcer o verdadeiro sentido da informação veiculada. Em contrapartida, o bom título pode antecipar o assunto e, ainda, espicaçar a curiosidade do leitor, levando-o a proceder à leitura integral do texto.
Imaginemos, por exemplo, que o leitor ou a leitora encontre, em seu jornal diário, o título:
Foram trens que passaram em minha vida
A frase, com um quê “romântico”, poderia ser até o título de uma crônica, não acham? No entanto, nesse exercício de imaginação que fazemos, a matéria está publicada na seção “Questões urbanas” de um hipotético jornal, em que vocês, leitores assíduos, invariavelmente encontram debates que muito interessam ao morador de médias e grandes cidades. Essa pista faz com que esperem, então... algo relacionado a trens: quem sabe, a necessidade de se revalorizar o transporte ferroviário? Ou, então, a moderna (e eterna) carência de trens metropolitanos?
Mas, vamos adiante. 

Esqueçam aquele título. Agora, a mesma matéria, no mesmo espaço do jornal, intitula-se:
A gestão da mobilidade nas grandes cidades
Neste segundo caso, em comparação com o anterior, vocês devem estar notando que as palavras permitem prever mais: justificando estar na seção “Questões Urbanas”, o artigo, certamente, irá tratar de mobilidade, problema recorrente em metrópoles. Em compensação, a frase não delimita um foco, uma vez que não fala especificamente em “trens”. Dizendo de outro modo: é título mais objetivo no que se refere ao assunto a ser tratado e, ao mesmo tempo, mais vago (ou amplo) quanto ao ponto, ou pontos específicos que abordará.
Seria diferente se fechasse mais:
A gestão da mobilidade sobre trilhos nas grandes cidades
Ah! Agora, sim: já sabemos que o artigo não tratará da mobilidade do ciclista, ou do pedestre, ou de quem se locomove sobre quatro rodas, mas...

Para efeito de comparação
Pronto. O último título – A gestão da mobilidade sobre trilhos nas grandes cidades –, com pequena modificação, ficou claro e direto. E é ele que vamos comparar àquele primeiro, lembram-se dele? (Foram trens que passaram em minha vida.)
Nas condições de suporte (jornal) e seção (“Questões Urbanas”) dadas acima, ambos são possíveis para introduzir a matéria sobre mobilidade urbana; porém, sugerem diferenças significativas – na intenção do autor e no direcionamento do público leitor. Assim:
A gestão da mobilidade sobre trilhos nas grandes cidades – além de antecipar com precisão o assunto, indicia a intenção de alcançar, prioritariamente, leitores interessados em dados mais técnicos quanto à mobilidade urbana.
Por outro lado, em Foram trens que passaram em minha vida, o eventual autor do artigo opta por uma abertura menos técnica, talvez em favor de atrair um universo mais amplo de leitores, ou seja: não apenas aquele conhecedor e interessado na gestão da cidade, mas também o cidadão leigo e usuário do transporte coletivo. Para isso, usa o componente afetivo e a vivência do leitor, isto é: faz alusão à realidade do usuário – que está acostumado a esperar uma, duas, três conduções – e parafraseia, simultaneamente, um título de canção popular brasileira famosa – “Foi um rio que passou em minha vida”, de Paulinho da Viola.

Nos títulos, pistas variadas
Além de dar mostras do que se vai dizer e de indicar o público leitor, o título pode revelar a opinião/posição do autor a respeito do tema abordado. Comparem os títulos que se seguem e infiram, por eles, a direção argumentativa do texto:

Velhos casarões: valerá a pena conservar?
Velhos casarões: é imprescindível conservar
A opinião incisiva a favor da preservação só se manifesta em um deles. No outro, o tempo verbal (“valerá”) e a interrogação insinuam um posição dúbia, ou até contrária à preservação. Em contrapartida, o segundo pode espicaçar mais a curiosidade do que o primeiro, tão afirmativo.

Nada como a prática...
Ainda que breves, essas pinceladas permitem depreender que a presença e a escolha do título não é mera formalidade. Contudo, nada como a prática: para que vocês, leitores e leitoras, experimentem sua importância para a compreensão do texto, convido-os à leitura de uma narrativa – editada sem título e com pequenas alterações.
Proponho que, ao fim, descubram a identidade da personagem principal.
Convite (ou desafio...) aceito?

Narrativa
Um dia, ele resolveu fazer uma aliança com os homens.
E por que não? – perguntava. – Tenho coragem, inteligência e, ainda por cima, sou bonito.
Acontece que, além dessas qualidades, era também muito arrogante e achava-se o maior e o mais importante de todos os seres vivos. Ora, quem é assim costuma afastar os outros, em vez de atraí-los.
– Aliar-me a ele? Deus me livre! – horrorizavam-se as pessoas. – Seria como aliar-me ao próprio Diabo.
– Se não for por bem, vai por mal – ameaçava o arrogante, como se fosse possível fazer alianças por mal.
Mas até os tiranos têm o seu momento de fraqueza e esse momento chegou também para ele. Passando por certa campina, avistou uma linda pastora e, no mesmo instante, apaixonou-se perdidamente por ela.
Não teve dúvidas:
– Já sei como fazer minha aliança com os homens: casando-me com essa pastora.
Habituado a ver suas vontades atendidas, procurou o pai da moça e pediu-a em casamento.
Diante daquele pretendente, que pedia em casamento exigindo, que fazer? O pai ficou de dar uma resposta dentro de dois dias, e o pretendente retirou-se, não muito satisfeito. Só mesmo por estar tão apaixonado é que aceitava aquela demora. Era a primeira vez na vida que admitia esperar.
– Prefiro um genro um pouco menos feroz – disse a mãe da moça, depois que o candidato se foi.
– Eu também – respondeu o pai. – Mas se recusarmos o pedido, isso pode ser perigoso para a nossa família.
– Pode – concordou a mãe. – E, além do mais, se a resposta for negativa, tenho medo de que eles se casem às escondidas.
– Imagina se a minha filha vai querer casar-se com ele! – indignou-se o pai.
 – A tua filha não é diferente das outras moças – respondeu a mãe. – E as moças encantam-se facilmente por ninharias, como, por exemplo, uma bela cabeleira. Já reparaste que bonita cabeça ele tem?
O pai foi dormir muito preocupado.
Dois dias depois, o apaixonado veio saber a resposta. E veio certo de receber um sim. Já não via a hora de ter sua amada só para si.
Ficou muito espantado quando o pai disse:
Eu teria muito gosto nesse casamento, se não fosse uma coisa.
– Ora, mas que coisa? O senhor está me fazendo perder a paciência! Quero casar-me com a sua filha e está acabado.
– Não há dúvida, não há dúvida! – respondeu o pai. – Mas a minha filha é uma jovem muito delicada. Unhas longas poderão feri-la, quando o senhor quiser abraçá-la. Se permitir que sejam aparadas, estará tudo resolvido.
– Bom, bom. Se é só isso, então está bem. Mas que seja logo. Quero casar-me o quanto antes.
O pai não esperou segunda ordem e mandou aparar-lhe as unhas.
– Está satisfeito agora? – esbravejou o pretendente. – Para quando marcamos a data?
– Para breve – disse o pai. – Vou consultar minha mulher e amanhã mesmo dou-lhe uma resposta.
– Eu já estou ficando farto! Se até amanhã não tiver essa tal resposta, levo a sua filha à força e caso-me com ela, mesmo sem o seu consentimento.
– Imagine! Não será preciso chegar a tais extremos – disse o homem. – Sempre foi nosso desejo tê-lo na família. Mas sabe como são as mulheres: gostam de ser consultadas para tudo.
Resmungando ameaças, o pretendente retirou-se. E só fez isso porque não queria desagradar à sua eleita.
No dia seguinte, pontualmente, veio saber a resposta.
– Desculpe a insistência – disse o pai, cheio de mesuras –, mas ainda há um problema: são os seus dentes. Minha mulher acha que é indispensável limá-los porque, senão, está convencida de que nossa filha não quererá beijá-lo nunca.
– Mas por quê? – impacientou-se. – São dentes absolutamente normais.
– Sim, sim. Normais para você. Mas compreenda: ela não está habituada.
Então, o pobre apaixonado acabou por permitir que lhe serrassem os dentes.
[...]

Quais são as hipóteses?
Imagino que, a cada trecho, possa ter-lhes ocorrido um perfil de personagem: um gigante, um monstro, um vampiro, um...
Claro, não é sempre que a ausência de título causa tamanha confusão no entendimento de textos. Essa narrativa, como já disse, foi adaptada para fins didáticos, de modo a ter (exemplarmente) nublada sua clareza. Mas, garanto, há muitos outros textos com essas características: redações escolares e... de jornais, revistas, artigos etc.
Entretanto, sosseguem: o original (uma fábula) vem logo aí, na íntegra. Comparem!
Abraços.

O Leão apaixonado (texto original)
Um dia, o Leão resolveu fazer uma aliança com os homens.
E por que não? – perguntava. – Tenho coragem, inteligência e, ainda por cima, sou bonito.
Acontece que, além dessas qualidades, era também muito arrogante e achava-se o maior e o mais importante de todos os seres vivos. Ora, quem é assim costuma afastar os outros, em vez de atraí-los.
– Aliar-me ao Leão? Deus me livre! – horrorizavam-se as pessoas. – Seria como aliar-me ao próprio Diabo.
– Se não for por bem, vai por mal – ameaçava o Leão, como se fosse possível fazer alianças por mal.
Mas até os tiranos têm o seu momento de fraqueza e esse momento chegou também para ele. Passando por certa campina, avistou uma linda pastora e, no mesmo instante, apaixonou-se perdidamente por ela.
Não teve dúvidas:
– Já sei como fazer minha aliança com os homens: casando-me com essa pastora.
Habituado a ver suas vontades atendidas, procurou o pai da moça e pediu-a em casamento.
Diante daquele pretendente, que pedia em casamento rugindo, que fazer? O pai ficou de dar uma resposta dentro de dois dias, e o Leão retirou-se, não muito satisfeito. Só mesmo por estar tão apaixonado é que aceitava aquela demora. Era a primeira vez na vida que admitia esperar.
– Prefiro um genro um pouco menos feroz – disse a mãe da moça, depois que o candidato se foi.
– Eu também – respondeu o pai. – Mas se recusarmos o pedido, isso pode ser perigoso para a nossa família.
– Pode – concordou a mãe. – E, além do mais, se a resposta for negativa, tenho medo de que eles se casem às escondidas.
– Imagina se a minha filha vai querer casar-se com um leão! – indignou-se o pai.
 – A tua filha não é diferente das outras moças – respondeu a mãe. – E as moças encantam-se facilmente por ninharias como, por exemplo, uma bela cabeleira. Já reparaste que bonita juba ele tem?
O pai foi dormir muito preocupado.
Dois dias depois, o Leão veio saber a resposta. E veio certo de receber um sim. Já não via a hora de ter sua amada só para si.
Ficou muito espantado quando o pai disse:
Eu teria muito gosto nesse casamento, se não fosse uma coisa.
– Ora, mas que coisa? O senhor está me fazendo perder a paciência! Sou o Leão, quero casar-me com a sua filha e está acabado.
– Não há dúvida, não há dúvida! – respondeu o pai. – Mas a minha filha é uma jovem muito delicada. Suas garras poderão feri-la, quando o senhor quiser abraçá-la. Se permitir que sejam aparadas, estará tudo resolvido.
– Bom, bom. Se é só isso, então está bem. Mas que seja logo. Quero casar-me o quanto antes.
O pai não esperou segunda ordem e mandou aparar as unhas do Leão.
– Está satisfeito agora? – rugiu o pretendente. – Para quando marcamos a data?
– Para breve – disse o pai. – Vou consultar minha mulher e amanhã mesmo dou-lhe uma resposta.
– Eu já estou ficando farto! – urrou o Leão. – Se até amanhã não tiver essa tal resposta, levo a sua filha à força e caso-me com ela, mesmo sem o seu consentimento.
– Imagine! Não será preciso chegar a tais extremos – disse o homem. – Sempre foi nosso desejo ter um leão na família. Mas sabe como são as mulheres: gostam de ser consultadas para tudo.
Resmungando ameaças, o Leão retirou-se. E só fez isso porque não queria desagradar à sua eleita.
No dia seguinte, pontualmente, veio saber a resposta.
– Desculpe a insistência – disse o pai, cheio de mesuras –, mas ainda há um problema: são os seus dentes. Minha mulher acha que é indispensável limá-los porque, senão, está convencida de que nossa filha não quererá beijá-lo nunca.
– Mas por quê? – impacientou-se o Leão. – São dentes absolutamente normais.
– Sim, sim. Normais para um leão. Mas compreenda: ela não está habituada.
O Leão acabou por permitir que lhe serrassem os dentes.
– Bem, espero que agora esteja tudo resolvido – disse, quando o serviço terminou.
– Sim, está – respondeu o pai. – Passe daqui para fora!
O Leão ficou pasmo:
– Como assim? Não estou entendendo!
– Pensou que eu ia dar a minha filha em casamento a uma fera como o senhor? Tem muita graça! – zombou o pai.
E gritou para dentro:
– Soltem os cães!
Só então o Leão deu-se conta de que, sem garras e sem dentes, não tinha como reagir.
Antes que os cães aparecessem, fugiu com quantas pernas tinha e nunca mais foi visto pelos arredores.
[ALMEIDA, Fernanda Lopes de. A lei do mais forte e outros males que assolam o mundo. São Paulo: Ática, 2007.]

Nenhum comentário:

Postar um comentário