sexta-feira, 19 de agosto de 2016

As delícias da ambiguidade

Não são apenas os poetas que se servem de ambiguidades e plurissignificações. Vários cronistas elegem as duplicidades de sentido como linha condutora para textos leves e bem-humorados.
Drummond, o artífice de maravilhosos textos de prosa e poesia, é um deles. E é sua, a deliciosa criação que venho oferecer aos leitores e leitoras, como complemento ao tema ambiguidade, da matéria anterior (de 02/08/2016).



Notem a escolha feliz: com apenas uma (1) expressão de sentido dúbio, o autor compõe uma linha ininterrupta de desentendimentos familiares e aponta aspectos da personalidade (especialmente, a paterna) e do relacionamento de personagens.

Vó caiu na piscina











Noite na casa da serra, a luz apagou. Entra o garoto:
– Pai, vó caiu na piscina.
– Tudo bem, filho.
O garoto insiste:
– Escutou o que eu falei, pai?
– Escutei, e daí? Tudo bem.
– Cê não vai lá?
– Não estou com vontade de cair na piscina.
– Mas ela tá lá...
– Eu sei, você já me contou. Agora deixe seu pai fumar um cigarrinho descansado.
– Tá escuro, pai.
– Assim até é melhor. Eu gosto de fumar no escuro. Daqui a pouco a luz volta. Se não voltar, dá no mesmo. Pede à sua mãe pra acender a vela na sala. Eu fico aqui mesmo, sossegado.
– Pai...
– Meu filho, vá dormir. É melhor você deitar logo. Amanhã cedinho a gente volta pro Rio, e você custa a acordar. Não quero atrasar a descida por sua causa.
– Vó tá com uma vela.
– Pois então? Tudo bem. Depois ela acende.
– Já tá acesa.
– Se está acesa, não tem problema. Quando ela sair da piscina, pega a vela e volta direitinho pra casa. Não vai errar o caminho, a distância é pequena, você sabe muito bem que sua avó não precisa de guia.
– Por que cê não acredita no que eu digo?
– Como não acredito? Acredito sim.
– Cê não tá acreditando.
– Você falou que a sua avó caiu na piscina, eu acreditei e disse: tudo bem. Que é que você queria que eu dissesse?
– Não, pai, cê não acreditou ni mim.
– Ah, você está me enchendo. Vamos acabar com isso. Eu acreditei. Quantas vezes você quer que eu diga isso? Ou você acha que estou dizendo que acreditei mas estou mentindo? Fique sabendo que seu pai não gosta de mentir.
– Não te chamei de mentiroso.
– Não chamou, mas está duvidando de mim. Bem, não vamos discutir por causa de uma bobagem. Sua avó caiu na piscina, e daí? É um direito dela. Não tem nada de extraordinário cair na piscina. Eu só não caio porque estou meio resfriado.
– Ô, pai, cê é de morte!
O garoto sai, desolado. Aquele velho não compreende mesmo nada. Daí a pouco chega a mãe:
– Eduardo, você sabe que dona Marieta caiu na piscina?
– Até você, Fátima? Não chega o Nelsinho vir com essa ladainha?
– Eduardo, está escuro que nem breu, sua mãe tropeçou, escorregou e foi parar dentro da piscina, ouviu? Está com a vela acesa na mão, pedindo para que tirem ela de lá, Eduardo! Não pode sair sozinha, está com a roupa encharcada, pesando muito, e se você não for depressa, ela vai ter uma coisa! Ela morre, Eduardo!
– Como? Por que aquele diabo não me disse isto? Ele falou apenas que ela tinha caído na piscina, não explicou que ela tinha tropeçado, escorregado e caído!
Saiu correndo, nem esperou a vela, tropeçou, quase que ia parar também dentro d’água.
– Mamãe, me desculpe! O menino não me disse nada direito. Falou que a senhora caiu na piscina. Eu pensei que a senhora estava se banhando.
– Está bem, Eduardo – disse dona Marieta, safando-se da água pela mão do filho, e sempre empunhando a vela que conseguira manter acesa. – Mas de outra vez você vai prestar mais atenção no sentido dos verbos, ouviu? Nelsinho falou direito, você é que teve um acesso de burrice, meu filho!
[ANDRADE, Carlos Drummond. Vó caiu na Piscina. São Paulo: Editora Record. Disponível em portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.]


...E não apenas crônicas
Propagandas, anedotas e tiras também se valem da confusão de sentidos para efeitos de humor.
Trago um exemplo de anedota colhido no artigo Análise de Texto Humorístico¹:
A velhota, superantiquada, recomenda à neta:
– Benzinho, há duas palavras que eu quero que você prometa nunca mais dizer. Uma é bacana e a outra é nojenta. Você promete?
– Claro, vovó. E quais são as palavras?
No pequeno texto, a oralidade favorece a interpretação diversa dada por avó e neta. Observem que, na escrita, a ambiguidade seria resolvida com o recurso da pontuação... e a piada não existiria, a menos que a neta fosse má leitora. Mais ou menos como segue:
A velhota, superantiquada, recomenda à neta: – Benzinho, há duas palavras que eu quero que você prometa nunca mais dizer. Uma é: “bacana”; e a outra é: “nojenta”. Você promete? [...]
¹BORGES, Eliana M; FREITAS, Sonia M. P. Análise de texto humorístico - As piadas. Disponível em: www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno05-05.html.

Para terminar
Fecho o tema, com dois textos (uma propaganda e um outdoor) que jogam com a duplicidade de sentido, aliada aos conhecimentos prévios do leitor brasileiro e, no segundo caso, ciente da história recente de nosso futebol. (Ambos facilmente encontrados em sites da internet.)





Abraços.

3 comentários:

  1. Muito interessante, Lilian. Beijo e obrigada por nos trazer.

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  2. Muito interessante, Lilian. Beijo e obrigada por nos trazer.

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