terça-feira, 2 de agosto de 2016

A ambiguidade e seus estragos

Ah!, bendita multiplicidade de significados das palavras! A nós, ouvintes ou leitores, faz pensar mais, voltar ao dito que se “indefine”, para saber o que o falante ou escritor quis, mesmo, dizer.
Se se tratar de poesia, então, quanto nos confunde de maneira intrigante e deliciosa! Manoel de Barros é mestre na arte de torcer significados e criar ambiguidades, para fazer o leitor “enxergar” mais longe, jogando fora os olhos e a cabeça, a fim de flagrar sentidos inaugurais, onde antes via apenas o corriqueiro:


Uso um deformante para a voz.
Em mim funciona um forte encanto a tontos.
Sou capaz de inventar uma tarde a partir de uma garça.
Sou capaz de inventar um lagarto a partir de uma pedra.
Tenho um senso apurado de irresponsabilidades.
Não sei de tudo quase sempre quanto nunca.
[...]
[BARROS, Manoel de.  Retrato do Artista Quando Coisa. Rio de Janeiro: Record, 2007.]

Ou:
Caracol é uma casa que se anda 
E a lesma é um ser que se reside.

[BARROS, Manoel de. Biografa do orvalho. In Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record,  2007.]

Mário Quintana, por sua vez, ensina que nem todos têm sabedoria para alcançar o êxtase caleidoscópico de sentidos que o mundo oferece ao poeta:
Cada vez que o poeta cria uma borboleta, o leitor exclama: “Olha uma borboleta!”.  O crítico ajusta os nasóculos e, ante aquele pedaço esvoaçante de vida, murmura: – Ah! sim, um lepidóptero...
[QUINTANA, Mário. A borboleta. In Sapo amarelo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1984.]

No entanto...
A pluralidade de sentidos concebida pelos artistas da palavra remove a cristalização da língua, torna-a movente e até imprevisível. No entanto, em inúmeras situações, o que os usuários necessitam é da segurança de uma linguagem precisa, pouco sujeita a ambiguidades.
Quando alguém pergunta ao jornaleiro quando chegará a próxima edição de sua revista preferida, não espera que a resposta seja à Manoel de Barros: “Não sei de tudo quase sempre quanto nunca”. De igual modo, o professor de Ciências, na avaliação, não aceitará do aluno a resposta: “Caracol é uma casa que se anda”.
Por mais que a ambiguidade seja desejável em poemas, narrativas, crônicas, anedotas e tiras humorísticas, espera-se de um artigo científico, de um texto didático, de uma notícia ou reportagem, um grau de objetividade bem distante da linguagem literária.
Do contrário, a compreensão fica prejudicada, e não são poucos os possíveis causadores. Por vezes, a dubiedade provém da frase mal elaborada; outras vezes, de uma palavra mal colocada ou mal escolhida; outras, ainda, da pontuação deficiente. E há casos em que o texto todo se apresenta desorganizado e, em decorrência, pouco inteligível.
Ilustro com alguns exemplos, colhidos aqui e ali, em livros didáticos, internet e no cotidiano.
Frases
- O ator reclamou das palmas só no fim do espetáculo.
(O que incomodou o ator foram as palmas ocorridas apenas no fim, e não antes? Ou as palmas o incomodaram, mas ele só as criticou quando acabou o espetáculo?)

- Pedro disse a Paulo que ele está doente.
(Quem está doente, Pedro ou Paulo?)

- Maria prendeu o dedo de João na porta do seu carro.
(No carro de Maria ou de João?)

Cartas de leitor
Estas duas cartas de reclamação foram colhidas em sites. Conservam sua essência, mas foram devidamente editadas, para conservar o anonimato. Reparem na significação confusa dos trechos sublinhados.
Carta 1 - O leitor reclama da poda de árvores em praça:
Havia árvores de grande porte, em sua sabedoria a prefeitura "podou" ou simplesmente exterminou-as deixando a praça sem as mesmas, retirando dos moradores e demais usuários sem sua sombra e frescor.
Pode-se imaginar que o remetente da carta vislumbrasse duas formas alternativas de expressar a consequência da retirada das árvores, a saber:
1. “deixando os moradores e demais usuários sem sua sombra e frescor.”
2. “retirando dos moradores e demais usuários sua sombra e frescor.”
Entretanto, ao fazer a seleção das palavras para organizar sua ideia (e optar por uma forma ou outra), os modos de dizer entrelaçaram-se indevidamente, causando confusão de sentido.
Carta 2 - Este leitor clama contra a ação predatória de moradores:
Moradores impunemente resolvem exterminar as poucas árvores ainda restantes, que no mínimo costumam oferecer, no dia a dia, algumas indispensáveis sombras durante o verão, mas também servindo de abrigo temporário no período chuvoso quando passar a incomodar os transeuntes.
Nesta segunda carta, a imprecisão poderia ser contornada explicitando-se o sujeito (“período chuvoso” ou “chuva”) da ação de incomodar: “quando a chuva passar a incomodar os transeuntes”.
Ressalte-se, porém, que outros problemas organizacionais também contribuem para dificultar o entendimento do texto (a partir de “mas também”). Com algumas modificações, e preservando o original do autor, o parágrafo ficaria mais claro, por exemplo, assim:
Moradores impunemente resolvem exterminar as poucas árvores ainda restantes, que no mínimo costumam oferecer, no dia a dia, não só algumas indispensáveis sombras durante o verão, mas também abrigo temporário no período chuvoso, quando a chuva vier a incomodar os transeuntes.”

Ambiguidade em título de matéria jornalística
No texto a seguir, se o leitor se limitar ao título, deixando de ler o corpo da matéria, entenderá que a ministra não dá autorização para a publicação de biografia. Entretanto, o caso é bem diferente.
Vamos à leitura, com atenção ao trecho grifado, que esclarece o verdadeiro sentido.

Relatora vota contra autorização para publicar biografias
A ministra Cármen Lúcia, do STF, entendeu que pedir consentimento do biografado seria "censura prévia"
10 JUN 2015- 17h15
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), votou nesta quarta-feira (10) contra autorização prévia para publicação de biografias não autorizadas. A ministra é relatora da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) da Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) contra liminares que proíbem o lançamento das biografias. Após o voto de Cármen Lúcia, nove ministros ainda irão proferir seus votos.
Para a ministra, é inconstitucional o entendimento de que é preciso autorização prévia dos biografados para publicação de obras bibliográficas ou audiovisuais. Segundo ela, o entendimento contrário significa censura prévia. Apesar de garantir a liberdade aos biógrafos, Cármen Lúcia garantiu que reparação material poderá ser concedida em casos de abusos.
[Disponível em: noticias.terra.com.br › Notícias › Brasil]

Continho e Notícia
Eu reforço: a interlocução diária pede clareza e precisão. Se “o que se diz” é expresso de maneira desorganizada (com pontuação deficiente, palavras mal escolhidas ou frases mal elaboradas, por exemplo), o ouvinte/leitor pode não interpretar do modo como o emissor esperava, e a incomunicação se fará presente.
Que o digam o vigário, do conhecido Continho, de Paulo Mendes Campos; ou o gerente da loja de Guarabira, em episódio noticiado há algum tempo (2015).
No primeiro caso, as respostas são baseadas numa interpretação ao pé da letra – correta, mas não usual – das perguntas feitas, prejudicando o diálogo. No segundo caso, o anúncio com informação (intencionalmente ou não) pouco clara tem o condão de atrair o consumidor, mas... o resultado não é o esperado.
Vamos aos textos.

Continho
Era uma vez um menino triste, magro e barrigudinho, do sertão de Pernambuco. Na soalheira danada de meio-dia, ele estava sentado na poeira do caminho imaginando bobagem, quando passou um gordo vigário a cavalo:
– Você aí, menino, para onde vai essa estrada?
– Ela não vai não: nós é que vamos nela.
– Engraçadinho duma figa! Como você se chama?
– Eu não me chamo não: os outros é que me chamam de Zé.
[CAMPOS, Paulo Mendes. Disponível em: mgme1.blogspot.com.br/p/texto-e-interpretacao.]

O erro de português que virou caso de polícia
Erro de português em anúncio de loja virou caso de polícia na Paraíba. No cartaz afixado na entrada da loja constava o anúncio “Oferta imperdível Chip Vivo R$ 1 com aparelho”
Um erro de quem escreveu um cartaz para anunciar uma promoção numa loja de eletrodomésticos criou uma grande confusão na cidade de Guarabira, no interior da Paraíba.
No cartaz estava escrito “Oferta imperdível. Chip Vivo. R$ 1 com aparelho”. Ao ler, o professor Aurélio Damião, 38, considerou a proposta irrecusável.
Com R$ 4 no bolso, ele entrou na loja e pediu chips – com os quatro aparelhos celulares correspondentes. Ele havia registrado a oferta com uma foto antes de ir ao trabalho e decidiu fazer a compra no final do expediente.
“Passei na loja e pedi: me veja quatro aparelhos de R$ 1 da promoção”, contou Damião. O atendente da loja “explicou” o anúncio. Na verdade, o redator queria dizer que os chips da operadora em questão sairiam por R$ 1 no caso da compra de qualquer celular adquirido pelo preço normal de tabela.
O caso só foi resolvido na delegacia
“Eu quis mesmo era dar mais uma lição na loja do que qualquer outra coisa. Estava escrito errado, foi um erro de português. Cheguei e falei que queria comprar quatro celulares e o gerente começou a me destratar, me chamar de maluco. Disse que eu não era louco de pegar um celular de lá. Eu falei que não queria pegar, não ia roubar. Eu estava lá para comprar. Ele se recusou a vender e eu chamei a polícia”, explica Aurélio.
Uma viatura da polícia militar chegou ao local e convidou os dois – o professor e o gerente da loja – até a delegacia. Aurélio alegou que a loja estava fazendo propaganda enganosa e que tinha por direito, como consumidor, receber o que estava escrito no cartaz.
Na delegacia, as partes chegaram a um acordo. Damião recebeu a doação de um vale de R$ 100 para aquisição de um aparelho. Com chip. “Caso não chegassem a um acordo, teria de se usar a Justiça, e as partes resolveram se entender logo”, disse um agente do 4º DP.
[Disponível em: www.pragmatismopolitico.com.br/2015/01/o-erro-de-portugues-que-virou-caso-de-policia.]
Meu abraço, amigo e nada ambíguo, a todos.

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