segunda-feira, 25 de julho de 2016

A leitura e a escrita na escola e na família - 2

Como os pais podem ajudar os jovens leitores?
Sarah S. Weber
A casa e o convívio familiar possibilitam, à criança e ao jovem, a experimentação do mundo com segurança e afeto. Entre pais e filhos, surgem vários momentos informais de troca e crescimento – seja em passeios (praia, clube, shopping), em frente à TV, em atividades no computador; seja em cinema, em teatro; seja arrumando a casa, organizando os brinquedos, fazendo compras no mercado, ouvindo música, dançando: o diálogo se faz fácil, a troca de opinião e de experiência acontece.
Entretanto, desse agradável e saudável cenário doméstico parece estar afastada a leitura... Normalmente, nos lares, os DVDs, os jogos, os brinquedos, são muitos – mas os livros, poucos. Os próprios pais, muitas vezes, não leem muito.
Já os filhos, em geral, leem como tarefa escolar – e nós, adultos, não abdicamos do direito de fiscalizar o cumprimento dessa obrigação! Perguntamos se já leram o que o professor pediu, se tiveram êxito na prova a respeito de tal ou tal livro... Porém, tudo o que se refere explicitamente ao trabalho de leitura é deixado para a escola: “deixamos para lá” aquela que seria nossa parte nessa missão.
Nossa parte, por que não? É bastante possível fazer o compartilhamento de experiências e opiniões sobre livros – semelhante àquele que pais e filhos desfrutam em relação à TV, ao shopping, ao filme. É viável (e agradável) organizar momentos conjuntos de leitura, tal qual se organizam momentos de assistir a um filme, por exemplo.
Porque a leitura não se limita ao movimento solitário. Ler, em última análise, é compartilhar: o leitor recebe a visão de mundo do autor de um texto, a ela relaciona sua própria visão de mundo, replica, critica, elogia, amplia ideias, especialmente conversando com outras pessoas.
Isso pode ser dito não só em relação à palavra, mas, igualmente, quando pensamos na leitura em sentido amplo. Assim, quando “leio”/assisto a um filme, “leio”/vejo uma propaganda, “leio”/jogo um videogame, “leio”/sigo uma receita de doce ou uma instrução de jogo, leio um jornal, uma revista ou um livro – eu, como leitor, considero o que aquela mensagem tem de novidade, de interessante, e comparo ao que já sei ou não, avalio e comento se gosto ou não, se me é útil ou não, se concordo com ela ou não: este filme tem imagens que me chocam ou emocionam, este jogo é muito mais difícil ou mais fácil que os anteriores, esta propaganda fala bem de um produto do qual eu tinha referências negativas, esta canção me fala ao coração, esta notícia me choca, este livro tem tudo a ver comigo, esta receita de doce é mais fácil que... Pensamos e comunicamos o que pensamos.
Essas são experiências comuns, do dia a dia. E, mesmo que não tenhamos muita consciência de que estamos, desse modo, praticando leituras, no fundo nós, adultos, intuímos a importância desses vários diálogos expressivos com o mundo. E esperamos que nossos filhos sejam tão ou mais competentes que nós, nesse aspecto. Com esse objetivo, procuramos dar-lhes a melhor educação; pois sabemos que, para viver neste nosso planeta, e para atuar nele, tal vivência tem de ser ampliada e aprofundada.

A leitura é domínio da escola?
Por que, muitas vezes, a experiência de ler e de estimular a leitura fica limitada ao meio escolar e tão distante do convívio familiar?
Como já dito, delegamos à instituição ESCOLA o poder e o dever de encaminhar nossos filhos na direção de saberes múltiplos, entre eles, e especialmente, a leitura e a escrita. Esperamos dela a orientação indispensável, principalmente em relação àquelas experiências que consideramos mais formais e/ou mediadas pela palavra, como livros, textos científicos, jornais, revistas. Sabemos que uma boa escola tem a capacidade de ensinar o aluno a ler adequadamente, adquirir informações, conhecimentos e, também, gosto pela leitura.
Por isso, não abrimos mão de bons estabelecimentos de ensino. E, muitas vezes, achamos que nossa missão termina aí, por entendermos que a escola é a encarregada de ensinar a ler; e que ao aluno cabe usar seu “saber ler” principalmente... em função da escola.
Isso mesmo: a aprendizagem da leitura e da escrita parece ser não só atribuição, como também destinação tão somente da escola!
Tal visão (limitada) implica pensar a leitura apenas como instrumento para “aprender matérias”, informar-se sobre elas, cumprir o que o professor exige e garantir notas razoáveis – nada mais. Para quem assim pensa, o livro didático adquire suprema importância; e não ficam muito claros quais seriam os objetivos de outras leituras – obras literárias, jornais, revistas, textos publicitários, etc. – solicitadas por professores. Talvez só o de reforçar a aprendizagem da leitura? Talvez porque tais textos são exigidos no vestibular?
Se o ato de ler fosse assim particularizado e circunscrito à esfera escolar, estaria divorciado do cotidiano e da vida do aluno e não poderia, evidentemente, proporcionar prazer. Seria tarefa obrigatória, o que, para crianças e jovens, é significado de aridez e chatice. Sem descobrir-lhe a verdadeira finalidade, a criança ou o jovem não teria (não tem) estímulo e entusiasmo para ler...
Felizmente, muitos pais já percebem a abrangência e importância da leitura. Entendem que esta não se resume ao mero “ler para a escola”, compreendem-na como um passaporte e instrumento para a atuação do cidadão no mundo e aplaudem as providências de educadores para que seus filhos se tornem leitores habituais e competentes.
No entanto, mesmo esses esclarecidos deixam apenas a cargo da escola tal tarefa, ou por não saberem que podem ajudar, ou por não saberem como e o que fazer para dar sua contribuição.
É explicável: existe a crença de que só o professor, como autoridade e especialista, tem o poder e a chave para ensinar a leitura “correta”, quer se trate do livro didático ou de outros textos. Está aí embutida uma visão que privilegia uma leitura única (e não múltipla) e mais ou menos mágica do texto: este, principalmente se literário, guardaria segredos que só um especialista teria o poder de decifrar e dar-lhes a interpretação possível.
Verdadeiramente, não é assim. A intenção de leitura e a visão de mundo de cada leitor ilumina o texto e lhe confere nuances particulares; a Leitura é sempre relação entre autor, texto e leitor – é uma Troca.
Já vimos: ao ler, cada leitor traz suas experiências de vida, de outras leituras e da língua. De certa forma, aceita o desafio do texto (“O que será que eu sou capaz de descobrir em você, texto?”) e, ao mesmo tempo, desafia-o (“Será que você, texto, pode me impressionar ou mudar alguma coisa em mim?”). Ao aproximar-se dessa forma, o leitor estabelece um jogo de decifração, compreensão e descobertas.
É mais ou menos como se tivéssemos dois jogadores (autor e leitor), um em frente ao outro, e um tabuleiro de xadrez ou damas (o texto) no meio. Cada um dos dois jogadores traz sua bagagem de conhecimentos (das regras do jogo, das outras partidas que já jogou, do que conhece do outro jogador) e sua intenção (treinar uma nova jogada, vencer em pouco tempo, certificar-se do quanto evoluiu...).
Após o primeiro jogador concretizar seu lance, o outro lê a “jogada-mensagem” que foi inscrita no tabuleiro, interpreta-a e, a partir dela, faz sua própria jogada. A cada novo lance, a experiência e o conhecimento dos dois se faz presente.
Imaginemos agora que, diante de determinada jogada do jogador/autor se posicionasse outro jogador/leitor (ou um espectador que, em dado momento, começasse a dar palpites...). Então, poderíamos esperar outras direções para a partida: o novo participante poderia enxergar uma possibilidade de movimentação de peças diferente; ou perceber mais claramente a intenção com a qual jogador/autor moveu esta ou aquela peça...
Assim como o jogador ou o palpiteiro, os pais têm a possibilidade de ajudar o aluno a entender ou ver novos aspectos do texto que está sendo lido. Muitas vezes, o simples fato de um pai ou mãe interessar-se pela leitura do filho já confere à atividade maior prazer e proveito, dada a nova dimensão afetiva conferida à tarefa.
A experiência da leitura tem a capacidade de ensinar a ver as coisas de outra maneira”, diz Larrosa. O ganho que se consegue quando a leitura tem o acréscimo da visão de leitores mais experientes (melhor ainda, se afetivamente próximos) é imenso, pois ajuda o leitor-aprendiz a dialogar com o texto e a ampliar a própria compreensão.
Em vez de uma postura passiva de aceitação, a discussão sobre o que está sendo lido faz com que a criança ou o jovem reflita sobre o que lê e proceda a uma avaliação crítica, exercitando sua capacidade de discernimento e raciocínio, pesando pontos de vista e argumentos alheios e comparando-os aos seus próprios, recriando ideias e revendo conceitos.

A leitura aconchegada e aconchegante
Anni Matsick
Como se pode dar ajuda familiar à atividade de leitura e escrita?
O meio eletrônico está absolutamente prestigiado – quer para chats, jogos, filmes, apresentações musicais, quer para leituras informativas, estudos e pesquisas. Em paralelo, escolas “antenadas” acolhem e incentivam (acertadamente, diga-se) o uso da internet e do computador.
Os múltiplos apelos – internet, filmes, games, shoppings,... – deixam pouco tempo e espaço para que a criança se interesse pela leitura em papel, e torna-se cada vez mais difícil atrair a nova geração para livros e revistas em papel.
Contudo, ainda o papel impresso (o jornal, a revista, a bula de remédio, os rótulos, o cartaz) faz parte de nossas vidas. Isso aumenta a importância da intervenção dos pais no sentido de, com seu entusiasmo e presença afetiva, criarem um ambiente favorável aos momentos de leitura, ora fornecendo aos filhos um livro atraente, ora propondo um desafio que envolva a atividade de ler, ora levando-os a livrarias, para escolhas personalizadas.
Não se está pensando, aqui, na leitura com função didática (dessa, a escola já se encarrega...), mas daquela que alimenta a alma, que diverte, desafia e faz sonhar.
O ideal é que os pais tenham o hábito de ler. Quando ler é hábito dos pais, a criança, desde cedo, tem a percepção de que ler é bom. Pais leitores são um grande estímulo na formação de filhos leitores. Quando o livro ou a leitura não faz parte do universo dos pais, os filhos tendem a considerar a atividade como exclusiva da escola.
Outro procedimento importante é o de ler, desde cedo, para a criança. E, mais tarde, ler com a criança ou jovem. Também, do mesmo modo como se oferecem brinquedos e jogos, oferecer-lhe material de leitura que divirta, desperte a curiosidade, faça sonhar...
Em nossas casas, é comum elegermos um cantinho para o aparelho de som, outro para esticar o corpo e relaxar... Por que não, um espaço gostoso para ler e uma pequena biblioteca, organizada e atraente, que convide à leitura? Não precisa ser nada oneroso ou sofisticado; quem sabe, uma almofada macia ou uma cadeira confortável, perto de um cesto com revistas e livros, que vão sendo renovados. O fundamental é que a criança ou jovem se sinta participante e até protagonista, no que diz respeito à organização do tempo e espaço e na escolha de obras para ler.
Os pais podem colocar à disposição dos filhos, segundo suas inclinações e idades, boa variedade de materiais: revistas em quadrinhos, revistas especializadas em esportes, moda, carros, motos; folhetos; jornais com assuntos variados ou aqueles especificamente destinados ao público infantil e juvenil; textos humorísticos, livros com textos curtos, como crônicas e contos, livros ilustrados, com pinturas, referências a outros povos, à natureza, a lugares exóticos ou pitorescos, etc.
É interessante, ainda, propor atividades que exijam leitura: cozinhar (e ler receita), montar um brinquedo (e ler instruções); descobrir coisas curiosas em livros, informações/intenções mais ou menos ocultas em anúncios e erros de gramática em cartazes e outdoors; comparar para perceber semelhanças e diferenças em imagens... (Afinal, ler não é só em livros...)
Providência acolhedora: estabelecer um horário ou dois, na semana, para leitura individual e silenciosa – curto, mas, na medida do possível, contando com a participação de todos da família. Está claro que não será no horário do programa favorito de TV... Que tal uma roda de leitura, em que cada pessoa leia um pequeno texto ou um trecho de texto maior, a ser continuado na próxima vez? A roda poderia ser encerrada com breves comentários sobre o que se leu.
Se os horários forem divergentes, pais, filhos, irmãos poderão ler o mesmo texto – livro, artigo de jornal, etc. –, em momentos diversos, e reservar um breve horário do dia ou da semana, para os comentários. E que boa oportunidade será, para indicações e críticas a serem transmitidas por escrito!
Por outro lado, dessas atividades coletivas, não devem ficar de fora as ações de leitura e escrita em meio eletrônico.
Ler por gosto, escrever por vontade própria aguçam a imaginação, ampliam capacidades cognitivas e ações criativas, além de trazerem ganhos inimagináveis em termos de repertório linguístico.

Ler e ouvir histórias na cama
Muitos pais e filhos têm o hábito de compartilhar leitura à noite, na cama. O doce aconchego da voz de pai ou mãe, lendo (ou contando) histórias, descansa, acalma, prepara o sono e, por fim, faz dormir. A leitura noturna acompanha, também, o pré-sono de muitos jovens: aquele que já provou sabe a delícia que é ler um capítulo emocionante, que prende e põe o sono em suspensão... até que o adulto venha lembrar que, no dia seguinte, o despertador tocará cedinho.
Por outro lado, muitas vezes, o livro faz a função de um acalanto: é quando, em vez de aproveitarmos sua leitura, nós o tornamos o brinquedo que afagamos e abraçamos, para melhor nos entregarmos ao sono. Mesmo aí, o livro se oferece como companheiro – principalmente, naquele dia em que o leitor se sente como este, do poema de Millôr:
Poeminha tentando justificar minha Incultura 
Ler na cama
É uma difícil operação
Me viro e reviro
E não encontro posição
Mas se, afinal,
Consigo um cômodo abandono,
Pego no sono.

[FERNANDES, Millôr, in Pif-Paf. Disponível em www.citador.pt/poemas]

E você, leitor / leitora...
Qual sua experiência de leitura? Lê muito, pouco, por prazer ou obrigação? Quais suas influências e preferências? Apenas lê, ou lê e escreve?
Ah!, como gostaria de ter suas respostas...
Um abraço.

terça-feira, 12 de julho de 2016

A leitura e a escrita na escola e na família - 1

Renoir

Leitura, escrita e sociedade
A leitura e a escrita (bastante ampliadas e transformadas pelos sistemas altamente sofisticados da informática) ainda são a base de grande parte da transmissão do conhecimento humano. Constituímos uma sociedade letrada e, nela, tudo gira em torno da leitura: desde os cadastramentos para instituições, formulários a serem lidos e preenchidos, talões de cheques, contratos, computadores, jornais e revistas, livros, anúncios publicitários... tudo nos solicita ler (e escrever, seu ato parceiro).
Temos consciência de que precisamos equipar as novas gerações para essa demanda e formá-las para conviver nesse mundo de comunicação infinita: são providências que lhes permitirão aproximarem-se da diversidade de pessoas e povos, crenças e opiniões, culturas e grupos, manifestando-se e atuando produtivamente numa coletividade multíplice e crítica.
Como alcançar tal propósito? Por meio de agentes de leitura/escrita, interessados e dispostos a contribuir para a formação de novos e competentes leitores/escritores. E que sejam capazes de provocar, nos jovens, a necessidade de ler – ou seja, o anseio de conhecer, de apoderar-se de bens culturais representados na escrita, de descobrir outros mundos, de buscar outras leituras que conversem com o leitor e com suas leituras anteriores –, além do desejo de expressar, por linguagem e ação, suas conclusões e descobertas.
Naturalmente, leitor e leitora, vêm-nos logo à mente, nessa função, os educadores e professores a quem confiamos nossos filhos. Simples, não?
Não tanto, se entendermos todo o alcance de leitura e escrita.

Jenny Nystrom
Ler é mais que decifrar e juntar palavras..
Escrever é mais que alinhavar frases...


Se a leitura se limitasse a um jogo de decifração, talvez não precisássemos, nem mesmo, de tantos professores, pois bastaria seguir algumas regras e ter agudeza e persistência para avançar cada vez mais. Como na montagem de um quebra-cabeça, por exemplo...
Contudo, sabemos: compreender o que se lê, entender que situação o texto aponta, avaliar e criticar as ideias é “jogo” bem mais complexo.
Ler não é apenas decifrar letras, palavras e frases, mas descobrir e recriar os sentidos do texto, entendendo suas intenções, sua função social e as múltiplas possibilidades de sentido; O leitor competente compreende o que lê, percebe os vários sentidos que podem ser atribuídos ao texto e estabelece relações entre o que lê e outros textos já lidos, à luz de conhecimentos que já tem.
Assim também o escritor competente: não apenas organiza suas ideias, mas escolhe palavras e modos de dizer, de acordo com sua intenção, a situação de comunicação e ao provável leitor (ou leitores) – pelo menos.
Para aclarar as duas afirmações (sobre ler e escrever), imaginemo-nos emitentes e, depois recebedores das três cartas que seguem:

Carta 1
Ao Excelentíssimo Senhor Juiz Federal do Juizado Especial do Município de Lagoa, Estado de Baía do Sul
Ermírio Silva, brasileiro, casado, jardineiro, inscrito no Cadastro de Pessoas Físicas sob o número XXX. XXX. XXX-XX, portador da cédula de identidade Registro Geral número 000. 000-00, residente e domiciliado à Rua do Monte, número 10, município de Lagoa, Estado de Baía do Sul, vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, por seus advogados infra-assinados (mandato anexo), com Escritório Profissional no endereço descrito no rodapé, onde recebem intimações de estilo, requerer Aposentadoria por Tempo de Serviço, mediante apresentação de documentação anexa e com base nos fatos e fundamentos jurídicos a seguir detalhados: [...]

Carta 2
São Paulo, 11 de janeiro de 2015
Sr. Editor do Jornal O Cidadão,
Aposentei em 2008 por idade com 70 anos e 30 anos de trabalho como jardineiro. Com sol ou chuva e com dor sempre trabalhei e sempre contribuí com o órgão competente pelo máximo. Na época fui informado que o valor de minha aposentadoria devia ser proporcional ao tempo trabalhado, o que dava mais ou menos 80% do máximo, mas hoje recebo em torno de 40%. Gostaria de receber uma explicação da Seção Justiça para Você sobre o fato, e saber se existe possibilidade de rever meu benefício.
Agradecido.
João de Oliveira.

Carta 3
Seu Governo,
Meu avô trabalhou a vida inteira e está muito cansado. Precisa descansar e não aguenta mais ficar suando no calorão do sol.
Precisa se sentar para ficar olhando o mar, tomando água de coco e pensando na vida. Ou conversando e jogando dominó com os amigos, debaixo de alguma das árvores que ele plantou. Não quer se preocupar mais com trabalho.
Ele tem direito, sabe? [...]
Quem disse que ele tem direito foi a minha professora. Ela é bonita e sabe muitas coisas. Ela ensina para muita gente. Pode até lhe ensinar, senhor Governo. Se você precisar aprender com ela, vou lhe explicar: a escola fica em frente à igreja e ainda tem umas carteiras vazias na minha sala. Mas no time de futebol, não tem lugar. [...]
Responda logo, porque meu avô José está velhinho e não aguenta mais esperar muito tempo.
Atenciosamente, Pepe.¹
O aflitivo assunto das três cartas é o mesmo: problemas com a aposentadoria, referentes a quem já deveria estar sossegado na vida. Mas o emissor, o destinatário, o objetivo, o suporte (veículo em que circula o texto) são diferentes e determinam dessemelhanças entre as missivas.
Não deve ter passar despercebido que a carta nº 1 é escrita por advogado e tem como destinatário o órgão competente para julgar o caso exposto. Por isso mesmo, os termos são convencionalmente formais e técnicos, comuns à esfera de atuação de remetente e destinatário.
Na segunda carta, o emissor da “carta de leitor” escreve em causa própria. O tom é convenientemente formal, mas as palavras são mais simples. Pode-se pensar que é pessoa com razoável instrução, muito embora haja traços de linguagem coloquial (“aposentei com...”; “... que o valor de minha aposentadoria devia ser proporcional ao tempo trabalhado, o que dava mais ou menos...”) e pontuação deficiente.
Escolha de tom e palavras da carta nº 3 – a linguagem coloquial e ingênua, a informalidade e a subjetividade (e lirismo) dos argumentos não deixam dúvida: é a ficção interpretando o sentimento de cuidado e amor entre gerações.

¹ As duas primeiras cartas são invenções pessoais, baseadas em cartas reais; a última faz parte do livro: MACHADO, Ana Maria. De Carta em Carta. São Paulo: Moderna, 2002
.


Vanessa Bell


Cartas, escola, família
A carta escrita por advogado traz um apuro linguístico que só o estudo (em escola, provavelmente) proporciona. Contudo, o conhecimento sobre a resistência humana enfraquecida dos mais velhos (que faz o jardineiro sentir dores) e a compreensão dos laços afetivos e familiares que podem levar um menino a importar-se com o avô – essenciais para o leitor compreender o alcance e tom das demais cartas – são resultado de um saber vivencial amplo.
O que nos leva a perceber e entender a diferença e os sentidos das três cartas é bem mais que simples decifração: é nosso conhecimento de vida, de outros textos, e das várias esferas sociais em que atuamos, com suas convenções, mais ou menos rígidas, que se refletem na linguagem que empregamos.
Sem dúvida, a educação e instrução escolar são valiosas mediadoras de todo esse conhecimento. No entanto, essas e outras situações estão no dia a dia e requerem – exigem –, em paralelo, aprendizado contínuo e cotidiano. E quem melhor que as pessoas do círculo íntimo de convivência para, em momentos de lazer e afetividade, alargar a experiência de crianças e jovens?
Daí a importância de outras esferas de formação, além da escola. Falo, especialmente, da responsabilidade da família, na formação dos pequenos leitores e escritores. Mediadores valiosos são os pais, avós, irmãos e os amigos próximos; pois o ideal é que a leitura faça parte de nossos gestos diários, gerando a naturalidade do hábito.
Termino com depoimentos de figuras conhecidas, sobre a influência de laços familiares na formação leitora / escritora.
A cantora Miúcha lembra como seu pai, o historiador e socióloga Sérgio Buarque de Holanda, incentivava os filhos a ler:
Sua influência [...] se dava de forma sutil. As paredes da casa da família eram cobertas por livros e o pai incentivava a leitura através de desafios. Ele não ficava falando para a gente ler. Mas era uma apaixonado por Dostoievski, conversava muito sobre ele. Nós todos líamos. E tinha Proust, aquela edição de 17 volumes. Ele dizia, desafiando e instigando: ‘Proust é muito interessante, vocês não vão conseguir ler, é muito grande. Ah, mas se vocês soubessem como era madame Vedurin...’ Aí, todo mundo pegava para ler.
[ZAPPA, Regina.Chico Buarque. In ROJO, Roxane. Letramento e capacidades de leitura para a cidadania. Disponível em: debragancapaulista.educacao.sp.gov.br.]
Janaina Tokitaka, escritora e ilustradora, destaca a importância da afetividade em sua formação leitora / escritora:
Minha mãe tinha o costume de ler um livro do Monteiro Lobato a cada mês de férias, um capítulo por noite, quando eu era pequena. Assim, as férias de Pedrinho e Narizinho no Sítio do Pica-Pau Amarelo ficaram para sempre misturadas às minhas próprias férias na praia, em Ilhabela. Esses momentos criaram uma memória afetiva muito importante para minha formação como leitora e escritora: a leitura como lazer, momento de ócio, como férias.
[Disponível em: http://cultura.estadao.com.br/blogs/estante-de-letrinhas/no-dia-nacional-do-livro-infantil-escritores-e-ilustradores-falam-da-importancia-de-monteiro-lobato-para-a-sua-trajetoria/]
Sonia Rosa, escritora, relata como se deu a intimidade com palavras e histórias:
Minha mãe inventava muitos versinhos com rimas engraçadas só para mim. Era gostoso viver aqueles momentos. Estas primeiras experiências despertaram o meu interesse para as histórias, me tornando íntima das palavras para sempre. Na escola, foi com grande alegria que encontrei, nos livros de Câmara Cascudo, muitas das histórias que minha mãe me contava. Eram os contos populares brasileiros registrados por esse folclorista. A partir disso, fiquei muito amiga dos livros e, desde então, as histórias e a literatura nunca mais saíram da minha vida.
[Disponível em: http://disneybabble.uol.com.br/br/criar-e-brincar/dentro-de-casa/escritores-e-ilustradores-revelam-livros-preferidos-da-inf%C3%A2ncia.]

Voltarei ao assunto.
Abraços.