sábado, 25 de junho de 2016

Festa, arte e tradição dão... São João



Heitor dos Prazeres

Festas juninas ou joaninas?
Se um dia, em algum lugar, foram joaninas (apenas em homenagem a São João), há muito tempo abarcaram também os santos Antonio e Pedro (e ainda Paulo, em tempos mais antigos).
Dos rituais pagãos em que se inspiraram – talvez o mais forte tenha sido o costume de desafiar fogueiras –, até chegar aos nossos dias, poucos traços sobraram. Ficou o clima de congraçamento e alegria.
Vindas pela via das tradições católicas da Europa, as festas juninas foram definitivamente marcadas por costumes das nações que tinham contato com o Portugal colonizador:
Da França veio a dança marcada, característica típica das danças nobres e que, no Brasil, influenciou muito as típicas quadrilhas. Já a tradição de soltar fogos de artifício veio da China, região de onde teria surgido a manipulação da pólvora para a fabricação de fogos. Da Península Ibérica teria vindo a dança de fitas, muito comum em Portugal e na Espanha.” ¹
Por outro lado, viajando no espaço e no tempo pelo Brasil, não poderiam ficar sem nossas marcas: aqui, traços estrangeiros se abrasileiraram e tomaram feições domésticas e regionais; mesclaram traços de religiosidade de índios, africanos e imigrantes, incorporaram rituais da colheita do milho, amendoim e feijão (com as características de cada lugar) e absorveram peculiaridades culturais dos diferentes estados brasileiros.
Nós, urbanos apressados, parece não termos tempo para tal manifestação de cultura e arte popular. Mas sua força, colorido, diversidade e beleza sobrevivem e renascem, todo ano, por terras interioranas e recantos mais tradicionais. Provavelmente, sem balões e fogueiras (por consciência ecológica), com danças e comidas, às vezes, “modernas” ou modernizadas, nas férias de julho, e não em junho...
Sinal dos tempos, sem dúvida. Sinal que me espicaça a visitar pintores, cantores e poetas que nos deixaram gravadas impressões de suas vivências juninas. Porque, se não temos acesso às festas, ainda genuínas, de regiões onde a tradição é preservada, podemos, ao menos, revisitar e admirar obras de artistas que as perpetuaram.
Deixo, para a apreciação de quem me lê, pinturas, poemas e canções de brasileiros que usaram sua sensibilidade para registrar momentos e referir-se a aspectos das festas de junho.

¹[História da Festa Junina e tradições. Disponível em: http://www.suapesquisa.com/musicacultura/historia_festa_junina.htm]



O São João de Paulo Setúbal e Di Cavalcanti
Di Cavalcanti


São João

É noite… O santo famoso,
O doce, o meigo S. João,
Tivera um dia glorioso,
Dia de festa e de gozo,
Que encheu de estrondo o sertão.

Já cedo, em meio aos clamores,
Aos vivas do poviléu,
Lindo, enramado de flores,
Um mastro de quentes cores,
Subira em triunfo ao céu!

E agora, enquanto, alva e lesta,
Palpita a lua hibernal,
Na fazenda, toda em festa,
Referve a alegria honesta
Da noite tradicional.

Dentro, com grande aparato,
Brilha enfeitado o salão:
Que há, nessa festa do mato,
Pessoas de fino trato,
Chegadas para o S. João…
[...]

Lá fora, alegre e gabola,
Num terreiro de café,
Ao rude som da viola,
A caboclada rebola
Num tremendo bate-pé!

A filha do Zé-Moreira
É o mimo deste São João;
À luz da rubra fogueira,
Requebra a guapa trigueira
Ao lado de Chico Peão.

Candoca, a noiva do Jango,
Baila num passo taful;
É a flor que, nesse fandango,
Tem lábios cor de morango,
Vestido de chita azul.

No sapateio se nota,
Aos risos dos que lá estão,
Nhô Lau, de esporas e bota.
Dançando junto à nhá Cota,
Viúva do Conceição….

À voz do pinho que chora,
Por sob a paz do luar,
Fremindo vai, noite afora,
Essa alegria sonora
Da caboclada a bailar!

E do salão, que ainda brilha
Num faiscante esplendor,
Chegam os sons da quadrilha,
Que alguém ao piano dedilha
Com indomável furor.

E no sarau campesino,
Nessa festa alegre e chã
Ruge a voz do Saturnino,
Que grita, esgalgado e fino:
Balancez! Tour! En avant...”

[SETÚBAL, Paulo. Disponível em: peregrinacultural.wordpress.com.]



Bandeirinhas de Volpi e Balõezinhos de Bandeira


Balõezinhos

Na feira do arrabaldezinho
Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor:
– "O melhor divertimento para as crianças!"
Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres,
Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.

No entanto a feira burburinha.
Vão chegando as burguesinhas pobres,
E as criadas das burguesinhas ricas,
E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.

Nas bancas de peixe,
Nas barraquinhas de cereais,
Junto às cestas de hortaliças,
O tostão é regateado com acrimônia.

Os meninos pobres não veem as ervilhas tenras,
Os tomatinhos vermelhos,
Nem as frutas,
Nem nada.

Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a
[única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável.
O vendedor infatigável apregoa:
– "O melhor divertimento para as crianças!"
E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem um
[círculo inamovível de desejo e espanto.

[BANDEIRA, Manuel. O ritmo dissoluto; em Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro. José Olympio, 1974.]

Portinari e os músicos da Bandeira de São João
Portinari

Sertão Alegre
[Composição: Antônio Madureira, Ronaldo Brito e Assis Lima]

Êi dia
Um galo canta
na crista do sol nascente
pra todo mundo acordar
É de manhã
É de manhã, de manhãzinha
Vou plantar uma semente
Ver o milho pendoar.

Contar os dias
Pra São João chegar ligeiro
Acender minha fogueira
Na sanfona chamegar
Noite de lua
De conversa na calçada
De fogo aceso e a brasa
Do amor sempre a queimar.




Meu abraço junino.

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