quarta-feira, 29 de junho de 2016

A saudade e as festas juninas

Anita Malfatti
Não adianta, parece que o clima das festas juninas não se desapega do sentimento saudosista. Há sempre um quê de romantismo e afetividade rondando as comemorações, ainda mais quando a “modernidade” abafa ou esmaece suas alegres características tradicionais.
Então, surge a saudade, em palavras e canções. Pode ser a saudade da própria antiga festa. Ou pode, a festa, ser apenas um pretexto para falar de “tempos que não voltam mais”, ingênuos e recheados de esperança.

A seguir, uma amostra.
Sodade
A “sodade” de Cornélio Pires é ampla, não se refere explicitamente às festas tradicionais; porém, por ser caipira no linguajar e universal quanto ao tema, eu a relaciono intencionalmente às tradições dos festejos juninos.
Pois se trata, agora, de apontar a saudade de eventos que se modificaram, ganharam novos contornos, e que só nosso lembrar persistente mantém vivos, porque “a gente pega e cutuca pra num deixar de doer”.

Sodade é uma dor que dá
mas num é dor de doê
é vontade de alembrá
é vontade de esquecê
é dor de dente, machuca
mas onde dói num se vê
e a gente pega e cutuca
pra num deixar de doer.
[PIRES, Cornélio. Disponível em: almanaquenilomoraes.blogspot.com.br/2014/03/poesia-caipira-de-cornelio-pires.]


Era uma vez...
“Era”, “tinha”, “mudou”... A memória do passado dita as palavras. E a nostalgia da canção de Luiz Gonzaga faz-me lembrar e parafrasear Machado de Assis: “mudaria o São João ou mudei eu?”. (O Soneto de Natal, de Machado, traz no último verso: “Mudaria o Natal ou mudei eu?".)
Em vídeo, a versão cantada pelo compositor.
São João Antigo
Era a festa da alegria (São João)
Tinha tanta poesia (São João)
Tinha mais animação
Mais amor, mais emoção
Eu não sei se eu mudei
Ou mudou o São João

Vou passar o mês de junho
Nas ribeiras do sertão
Onde dizem que a fogueira
Ainda aquece o coração

Pra dizer com alegria
Vai chorando
de saudade
Não mudei meu São João
Quem mudou foi a cidade.





A conversa saudosista de Chico
O lindo poema de Chico Buarque permite ao menos duas leituras: uma, suavemente lírica, que rememora a infância feliz, povoada de festejos, amores e projetos, deixada para trás. E outra, de sentido mais amplo e sutil, que se insinua metaforicamente e abarca a esfera política, em que o sonho de paz é substituído pela angústia da opressão.
Maninha
Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões
A roupa no varal
Feriado nacional
E as estrelas salpicadas nas canções
Se lembra quando toda modinha
Falava de amor
Pois nunca mais cantei ó maninha
Depois que ele chegou

Se lembra da jaqueira
A fruta no capim
O sonho que você contou pra mim
Os passos no porão
Lembra da assombração
E das almas com perfume de jasmim
Se lembra do jardim ó maninha
Coberto de flor
Pois hoje só dá erva daninha
No chão que ele pisou

Se lembra do futuro
Que a gente combinou
Eu era tão criança e ainda sou
Querendo acreditar
Que o dia vai raiar
Só porque uma cantiga anunciou
Mas não me deixe assim tão sozinho
A me torturar
que um dia ele vai embora maninha
Pra nunca mais voltar.




Ouçam, dancem, lembrem-se...

Abraços juninos e julinos.

sábado, 25 de junho de 2016

Festa, arte e tradição dão... São João



Heitor dos Prazeres

Festas juninas ou joaninas?
Se um dia, em algum lugar, foram joaninas (apenas em homenagem a São João), há muito tempo abarcaram também os santos Antonio e Pedro (e ainda Paulo, em tempos mais antigos).
Dos rituais pagãos em que se inspiraram – talvez o mais forte tenha sido o costume de desafiar fogueiras –, até chegar aos nossos dias, poucos traços sobraram. Ficou o clima de congraçamento e alegria.
Vindas pela via das tradições católicas da Europa, as festas juninas foram definitivamente marcadas por costumes das nações que tinham contato com o Portugal colonizador:
Da França veio a dança marcada, característica típica das danças nobres e que, no Brasil, influenciou muito as típicas quadrilhas. Já a tradição de soltar fogos de artifício veio da China, região de onde teria surgido a manipulação da pólvora para a fabricação de fogos. Da Península Ibérica teria vindo a dança de fitas, muito comum em Portugal e na Espanha.” ¹
Por outro lado, viajando no espaço e no tempo pelo Brasil, não poderiam ficar sem nossas marcas: aqui, traços estrangeiros se abrasileiraram e tomaram feições domésticas e regionais; mesclaram traços de religiosidade de índios, africanos e imigrantes, incorporaram rituais da colheita do milho, amendoim e feijão (com as características de cada lugar) e absorveram peculiaridades culturais dos diferentes estados brasileiros.
Nós, urbanos apressados, parece não termos tempo para tal manifestação de cultura e arte popular. Mas sua força, colorido, diversidade e beleza sobrevivem e renascem, todo ano, por terras interioranas e recantos mais tradicionais. Provavelmente, sem balões e fogueiras (por consciência ecológica), com danças e comidas, às vezes, “modernas” ou modernizadas, nas férias de julho, e não em junho...
Sinal dos tempos, sem dúvida. Sinal que me espicaça a visitar pintores, cantores e poetas que nos deixaram gravadas impressões de suas vivências juninas. Porque, se não temos acesso às festas, ainda genuínas, de regiões onde a tradição é preservada, podemos, ao menos, revisitar e admirar obras de artistas que as perpetuaram.
Deixo, para a apreciação de quem me lê, pinturas, poemas e canções de brasileiros que usaram sua sensibilidade para registrar momentos e referir-se a aspectos das festas de junho.

¹[História da Festa Junina e tradições. Disponível em: http://www.suapesquisa.com/musicacultura/historia_festa_junina.htm]



O São João de Paulo Setúbal e Di Cavalcanti
Di Cavalcanti


São João

É noite… O santo famoso,
O doce, o meigo S. João,
Tivera um dia glorioso,
Dia de festa e de gozo,
Que encheu de estrondo o sertão.

Já cedo, em meio aos clamores,
Aos vivas do poviléu,
Lindo, enramado de flores,
Um mastro de quentes cores,
Subira em triunfo ao céu!

E agora, enquanto, alva e lesta,
Palpita a lua hibernal,
Na fazenda, toda em festa,
Referve a alegria honesta
Da noite tradicional.

Dentro, com grande aparato,
Brilha enfeitado o salão:
Que há, nessa festa do mato,
Pessoas de fino trato,
Chegadas para o S. João…
[...]

Lá fora, alegre e gabola,
Num terreiro de café,
Ao rude som da viola,
A caboclada rebola
Num tremendo bate-pé!

A filha do Zé-Moreira
É o mimo deste São João;
À luz da rubra fogueira,
Requebra a guapa trigueira
Ao lado de Chico Peão.

Candoca, a noiva do Jango,
Baila num passo taful;
É a flor que, nesse fandango,
Tem lábios cor de morango,
Vestido de chita azul.

No sapateio se nota,
Aos risos dos que lá estão,
Nhô Lau, de esporas e bota.
Dançando junto à nhá Cota,
Viúva do Conceição….

À voz do pinho que chora,
Por sob a paz do luar,
Fremindo vai, noite afora,
Essa alegria sonora
Da caboclada a bailar!

E do salão, que ainda brilha
Num faiscante esplendor,
Chegam os sons da quadrilha,
Que alguém ao piano dedilha
Com indomável furor.

E no sarau campesino,
Nessa festa alegre e chã
Ruge a voz do Saturnino,
Que grita, esgalgado e fino:
Balancez! Tour! En avant...”

[SETÚBAL, Paulo. Disponível em: peregrinacultural.wordpress.com.]



Bandeirinhas de Volpi e Balõezinhos de Bandeira


Balõezinhos

Na feira do arrabaldezinho
Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor:
– "O melhor divertimento para as crianças!"
Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres,
Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.

No entanto a feira burburinha.
Vão chegando as burguesinhas pobres,
E as criadas das burguesinhas ricas,
E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.

Nas bancas de peixe,
Nas barraquinhas de cereais,
Junto às cestas de hortaliças,
O tostão é regateado com acrimônia.

Os meninos pobres não veem as ervilhas tenras,
Os tomatinhos vermelhos,
Nem as frutas,
Nem nada.

Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a
[única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável.
O vendedor infatigável apregoa:
– "O melhor divertimento para as crianças!"
E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem um
[círculo inamovível de desejo e espanto.

[BANDEIRA, Manuel. O ritmo dissoluto; em Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro. José Olympio, 1974.]

Portinari e os músicos da Bandeira de São João
Portinari

Sertão Alegre
[Composição: Antônio Madureira, Ronaldo Brito e Assis Lima]

Êi dia
Um galo canta
na crista do sol nascente
pra todo mundo acordar
É de manhã
É de manhã, de manhãzinha
Vou plantar uma semente
Ver o milho pendoar.

Contar os dias
Pra São João chegar ligeiro
Acender minha fogueira
Na sanfona chamegar
Noite de lua
De conversa na calçada
De fogo aceso e a brasa
Do amor sempre a queimar.




Meu abraço junino.