sábado, 7 de maio de 2016

“Mãe”, na visão de mulheres poetas




É tempo de carinho: de falar da maternidade e da afeição recíproca de mães e filhos. Para isso serve nosso “Dia das Mães” – apesar e além do apelo e da motivação comercial da data.
Não deixa de ser tempo de poemas, também. E voltei meu olhar para o modo como a palavra “mãe” integra o universo poético de mulheres poetas.
Registro uma pequena seleção, para sua apreciação, amigo leitor e amiga leitora. 

Roseana Murray 
A lembrança dos primeiros anos... Nela, entre outros tesouros, está a imagem materna, preparando doces e quentes afetos em sua cozinha, misturando temperos que nunca mais largam nossa memória olfativa.
Caixa 
Carregamos pela vida afora
os cheiros dos encontros raros,
dos acontecimentos,
da nossa primeira casa,
do quintal, se houve quintal,
da mãe na cozinha,
dos sonhos quando acordamos.
Se houvesse uma caixa
para guardá-los, seriam
nosso tesouro.
E então, em dias de saudade,
abriríamos nossa caixa
e mergulharíamos
como num túnel do tempo.

[Disponível em: www.roseanamurray.com/poemas.asp]

Cora Coralina 
O eu lírico louva a figura ancestral da MÃE, detentora do poder de criação e perpetuação do ser humano. É dessa perspectiva de priorizar o dom da maternidade, que a mãe / poeta olha e aconselha a mãe / mulher. 
Mãe

Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.
Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições...
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.

[Disponível em: www.jornaldepoesia.jor.br]
  
Florbela Espanca 
Poeticamente, amorosamente, a mãe embala o filho, para que ele sinta todo seu aconchego. É assim que tenta convencê-lo a ficar, pois antevê o desapego filial, a distância inevitável, e sofre desde já. 
Mãezinha

Andam em mim fantasmas, sombras, ais...
Coisas que eu sinto em mim, que eu sinto agora;
Névoas de dantes, dum longínquo outrora;
Castelos d'oiro em mundos irreais...

Gotas d'água tombando... Roseirais
A desfolhar-se em mim como quem chora...
– E um ano vale um dia ou uma hora,
Se tu me vais fugindo mais e mais!...

Ó meu Amor, meu seio é como um berço
Ondula brandamente... Brandamente...
Num ritmo escultural d'onda ou de verso!

No mundo quem te vê?! Ele é enorme!...
Amor, sou tua mãe! Vá... docemente
Pousa a cabeça... fecha os olhos... dorme...

[Disponível em: www.citador.pt/poemas/maezinha-florbela-espanca]

 Jacinta Passos 
Ah!, mãe sábia e sofrida...  Conhece (e embora doloridamente, aceita) que seus filhos, amados e cuidados por ela, vivam para o mundo. Mais ainda: isenta os filhos de qualquer culpa pela sua solidão; culpa, se há, é da vida. 
Cantigas das mães

(Para minha mãe)

Fruto quando amadurece
cai das árvores no chão,
e filho depois que cresce
não é mais da gente, não.
Eu tive cinco filhinhos
e hoje sozinha estou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Tão lindos, tão pequeninos,
como cresceram depressa,
antes ficassem meninos
os filhos do sangue meu,
que meu ventre concebeu,
que meu leite alimentou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Muitas vidas a mãe vive.
Os cinco filhos que tive
por cinco multiplicaram
minha dor, minha alegria.
Viver de novo eu queria
pois já hoje mãe não sou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Foram viver seus destinos,
sempre, sempre foi assim.
Filhos juntinhos de mim,
Berço, riso, coisas puras,
briga, estudos, travessuras,
tudo isso já passou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.
[Disponível em: overmundo.com.br/overblog/as-mulheres-poetas-na-literatura-brasileira]

Henriqueta Lisboa 
Cabe, também, na visão do eu poético, a crítica filial.  Afinal, nem sempre há concordância entre mães e filhos... mesmo quando estes ainda são crianças.  
Consciência

Hoje completei sete anos.
Mamãe disse que eu já tenho consciência.
Disse que se eu pregar mentira,
não for domingo à missa por preguiça,
ou bater no irmãozinho pequenino, eu faço pecado.

Fazer pecado é feio.
Não quero fazer pecado, juro.
Mas se eu quiser, eu faço.

[Em: O menino poeta – Obra Completa. São Paulo: Peirópolis, 2008.]

Adélia Prado 
Quando um filho cresce, a distância progressiva nem sempre é apenas física: o poema de Adélia Prado expressa o distanciamento entre gerações, na própria filosofia de vida. 
Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo. 

[http://www.jornaldepoesia.jor.br]


Um desejo, para concluir 
Que o universo de afetos revelado nesses poemas se reproduza e se intensifique em nosso mundo, tão bombardeado por interesses pessoais e egoístas.
Feliz Dia das Mães a todos nós.

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