quinta-feira, 21 de abril de 2016

A repetição necessária em Drummond

 
[Claudia Rogge - Mosaico humano]

Em outra matéria (01/04/2016), fiz comentários sobre o valor da repetição em textos. Completo o assunto, com um convite para visitarmos o Poema da Necessidade, de Drummond.

Poema da necessidade

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.

[ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. In Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

Leitor/a, depois de ler, imagine o poema sem as repetições... (“Anáforas”, em linguagem técnica.) Tente, por exemplo, algo assim: “É preciso casar João, do mesmo modo como é urgente suportar Antônio e odiar Melquíades. Enfim, é necessário substituir nós todos” (?!).
Toda a arte e engenho do poeta se desvanecem, claro. Por que a repetição de palavras, neste poema, acarreta um forte sentido: quase todos os versos iniciam-se por é preciso + verbo no infinitivo, sugerindo o ritmo constantemente mecânico e as imposições da vida moderna. O “é preciso” reitera a necessidade de render-se às convenções e de viver como a maioria: casar, suportar, odiar, crer, comprar, beber, etc.
Por duas vezes, apenas, quebra-se a angustiosa e mecânica expressão. Da primeira vez, como que para aliviar a tensão, há a sugestão de parada para olhar o passado e inspirar-se na leitura de Baudelaire e de suas Flores do Mal – convenhamos, um autor pouco apaziguador da inquietude humana...
A segunda quebra acontece no final do texto, fechando-o, bem como à obrigação imposta pela vida, com uma solução apocalíptica: o FIM DO MUNDO – assim mesmo, em letras maiúsculas.
Desse modo, as não repetições, em vez de aliviar a opressiva circunstância vivencial do ser poético, apenas apontam para soluções que não solucionam.

A insistência na palavra “pedra”
“Soluções que não solucionam” fazem lembrar outro poema de Drummond: No meio do caminho, em que o poeta retoma o famoso “Nel mezzo del cammin”, com que Dante Alighieri inicia o Inferno de sua Divina Comédia. Aqui estão os primeiros versos, em tradução de Augusto de Campos:
No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.

[ALIGHIERI, Dante. Inferno. Canto I - trecho inicial.
Disponível em: www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet192.htm]


Em Drummond, continua a percepção do obstáculo, mas atualizado e reformulado, pela linguagem modernista mais “dura” e seca, a romper com os cânones poéticos e a linguagem burilada e preciosista de gerações anteriores.
O leitor percebe a dimensão do sofrimento intransponível do viver, bem como a angústia resultante, pela simples e constante repetição da palavra “pedra” – e da frase que a contém.
Por outro lado, o eu lírico declara-se incapaz de se desvencilhar do peso dessa pedra existencial (nos versos 5 e 6, onde a palavra “pedra” é momentaneamente suspensa), mas ela volta a preencher o caminho do poema, como um grude, como um mantra, até o final. É a recriação e multiplicação dos sentidos, pela construção original da Palavra.

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

ANDRADE, Carlos Drummond de.  Alguma poesia. In Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

A reiteração da esperança na palavra “flor”
Em tempos de 2ª guerra mundial e ditadura getulista, Drummond publica, em A Rosa do Povo, poemas que expressam angústia vivencial e preocupação social. É o caso de A flor e a náusea, que tem como início:
Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

No entanto, o final do poema abre-se para a esperança, embora incipiente, na forma de “flor”. Aqui, também, é pelo uso intencional da repetição que a flor-esperança cresce e se afirma:
[...]
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

[ANDRADE, Carlos Drummond de.  A Rosa do Povo. In Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

Um ideia puxa outra, um poema lembra outro... A flor de Drummond me faz lembrar a rosa de Gertrude Stein (do poema Sacred Emily): “Uma rosa é uma rosa é uma rosa” – em que a força da “rosa”, com todos os sentidos e sentimentos que evoca, amplia-se a cada repetição da palavra.
A esses exemplos, certamente o leitor acrescentará outros, com o concurso de seu próprio repertório.

[Claudia Rogge - Mosaico humano]

Reescrevendo Drummond
Concluo, retomando o Poema da Necessidade. Este e os outros do livro Sentimento do Mundo foram escritos nos anos de 1930 a 1940, período pós-recessão econômica, entre duas guerras mundiais e, no Brasil, sob a ditadura de Getúlio Vargas. Some-se a isso, como vimos, o peso das injunções do dia a dia, interpretados poeticamente por Drummond.
Proponho a você, leitor/a, um exercício: recontextualizar o poema, de seu ponto de vista, trazendo-o para nosso tempo /espaço, nosso contexto histórico.
O esqueleto está a seguir. Nele, deixei os verbos – os quais, obviamente, também podem ser alterados.
Poema da necessidade
É preciso casar .........,
é preciso suportar .........,
é preciso odiar .........,
é preciso substituir ..........

É preciso salvar .........,
é preciso crer .........,
é preciso pagar .........,
é preciso comprar .........,
é preciso esquecer ..........

É preciso estudar .........,
é preciso estar sempre .........,
é preciso ler .........,
é preciso colher .........,
de que rezam ..........

É preciso viver .........,
é preciso não .........,
é preciso ter .........,
e anunciar ..........

Bom trabalho a quem aceitar o convite.
Um abraço.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Repetição em texto: vício ou virtude?

[Yayoi Kusama]
Quem não teve, ao menos uma vez na vida, sua “redação escolar” corrigida e devolvida com a frase “elimine as repetições”? E, nesse caso, chegou a entender mesmo o que precisava rever / retirar no texto?
Nossos professores de língua, muitas vezes, devolvem as “redações” com correções indicando uso abusivo da repetição, seja de termos, expressões ou ideias. Na crônica Minhas férias, que já publiquei aqui (em 21/03/2015), o escritor Luis Fernando Verissimo “brinca” de aluno redator e leva-a ao exagero. Relembro seu início:
Minhas Férias
Eu, minha mãe, meu pai, minha irmã (Su) e meu cachorro (Dogman) fomos fazer camping. Meu pai decidiu fazer camping este ano porque disse que estava na hora de a gente conhecer a natureza de perto, já que eu, a minha irmã (Su) e o meu cachorro (Dogman) nascemos em apartamento, e, até os 5 anos de idade, sempre que via um passarinho numa árvore, eu gritava “aquele fugiu!” e corria para avisar um guarda; mas eu acho que meu pai decidiu fazer camping depois que viu o preço dos hotéis, apesar de a minha mãe avisar que, na primeira vez que aparecesse uma cobra, ela voltaria para casa correndo, e a minha irmã (Su) insistir em levar o toca-discos e toda a coleção de discos dela, mesmo o meu pai dizendo que aonde nós íamos não teria corrente elétrica, o que deixou minha irmã (Su) muito irritada, porque, se não tinha corrente elétrica, como ela ia usar o secador de cabelo? Mas eu e o meu cachorro (Dogman) gostamos porque o meu pai [...]
[VERISSIMO, Luis Fernando. Disponível em: http://keylapinheiro.blogspot.com.br/2011/04/cronicas-de-hmor_10.html]

Pois bem: quantos alunos estão aptos a entender, de fato, o que fazer para melhorar seu texto, quanto a esse aspecto? E, por outro lado, toda repetição é indesejada? E, se não for, como distinguir a repetição viciosa da virtuosa?
O assunto é longo. Não pretendo esgotá-lo, mas apenas pensar um pouco sobre ele, porque o medo de repetir, sem que se saiba bem por que, leva a textos como o que segue:
Primeiros contatos de Cabral com os índios do Brasil -1ª versão
Depois do primeiro dia em terra, Cabral e seus comandados portugueses receberam alguns índios em sua caravela. Logo à chegada, apontaram para objetos de prata e ouro. Este fato fez com que pensassem que havia esses metais preciosos no país. Procederam à troca de presentes, que consideraram bastante vantajosa. Depois regressaram, espantados com a facilidade com que conseguiam fazer-se entender, apenas por gestos.
Pergunto:
- Quem apontou para objetos de prata e ouro?
- Quem pensou que havia metais preciosos, e em qual país – Brasil ou Portugal?
- Quem considerou a troca de presentes vantajosa?
- Quem regressou espantado com a fácil comunicação? E, de quebra, regressou para onde?

O texto, assim como está, não traz palavras repetidas. Em compensação, ao contrário da crônica – Minhas férias –, em que as repetições apenas repetiam informações que o leitor estava cansado de saber, este de agora não leva em conta o leitor e não lhe oferece marcas que lhe facilitem a compreensão.
Eis, pois, a pista que temos, por ora: as repetições têm o poder de conferir clareza e compreensão ao texto, eliminando a ambiguidade e facilitando o entendimento leitor. O texto anterior, revisto com essa intenção, pode ser escrito assim:
Primeiros contatos de Cabral com os índios do Brasil - 2ª versão
Depois do primeiro dia em terra, Cabral e seus comandados portugueses receberam alguns índios em sua caravela. Logo à chegada, os índios apontaram para objetos de prata e ouro. Este fato fez com que os portugueses pensassem que havia esses metais preciosos no país. Índios e portugueses procederam à troca de presentes, que os portugueses consideraram bastante vantajosa. Depois, os portugueses regressaram à terra indígena, mostrando-se espantados com a facilidade com que conseguiam fazer-se entender, apenas por gestos.
Melhorando ainda mais o texto, descobrimos nova utilidade da repetição: acrescentar novos dados, ampliando a informação. Como segue:

Primeiros contatos de Cabral com os índios do Brasil - 3ª versão
Depois do primeiro dia em terra, Cabral e seus comandados portugueses receberam alguns indígenas em sua caravela. Logo à chegada, os nativos apontaram para objetos de prata e ouro. Este fato fez com que os europeus pensassem que havia esses metais preciosos no país. Os dois grupos procederam à troca de presentes, que os descobridores de novos mundos consideraram bastante vantajosa. . Depois, os portugueses regressaram ao continente indígena, mostrando-se espantados com a facilidade com que conseguiam fazer-se entender, apenas por gestos.
Para isso, não se usou o mesmo termo, mas outros que a ele se ligam por laços semânticos. Tal correlação pode ser mais bem percebida, se agruparmos os termos:
- índios, indígenas, nativos;
- portugueses, europeus, descobridores de novos mundos;
- índios e portugueses, os dois grupos.

[Yayoi Kusama]

Quando a repetição faz todo o sentido
Por vezes, a repetição diz – e diz muito. Diz de tal modo, que se torna obrigatória, essencial. A artista plástica Yayoi Kusama, com sua obsessão por bolinhas e pontos multiplicados, fez da repetição a própria essência de sua arte. (Algumas de suas obras ilustram esta matéria.)
Os (bons) discursos de intelectuais e políticos, assim como os textos literários, também oferecem, à larga, exemplos do elemento repetitivo como parte constituinte e necessária do dizer.
Rui Barbosa, por exemplo, em célebre discurso (de 1919, época em que era candidato à presidência da república), recorre à reiteração de uma palavra para dar maior veemência à sua crítica:
Mentira toda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde, segundo o Padre Vieira, que não chegou a conhecer o Dr. Urbano dos Santos, o próprio sol mentia ao Maranhão, e diríeis que hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentiras nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira dos caudilhos aos seus apaniguados, mentira dos seus apaniguados aos caudilhos, mentira de caudilhos e apaniguados à nação. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira. Uma impregnação tal das consciências pela mentira, que se acaba por se não discernir a mentira da verdade, que os contaminados acabam por mentir a si mesmos, e os indenes, ao cabo, muitas vezes não sabem se estão, ou não estão mentindo. Um ambiente, em suma, de mentiraria, que, depois de ter iludido ou desesperado os contemporâneos, corre o risco de lograr ou desesperar os vindouros, a posteridade, a história, no exame de uma época, em que, à força de se intrujarem uns aos outros, os políticos, afinal, se encontram burlados pelas suas próprias burlas, e colhidos nas malhas da sua própria intrujice, como é precisamente agora o caso.
[Associação Comercial do Rio de Janeiro. Obras Completas de Rui Barbosa. V. 46, t. 1, 1919.
Disponível em: diariodeumadiretora.blogspot.com.br/2015/04/mentira-rui-barbosa.html]

Quero registrar, ainda, uma crônica de Fernando Sabino. Nela, a avaliação crítica e a denúncia indignada ganham força pela repetição constante de um fato: um homem morreu de fome. Tente, o leitor, retirar a frase que se repete, e verá que o texto perderá grande parte de seu sentido, senão todo.
Notícia de Jornal
Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, 30 anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante 72 horas, para finalmente morrer de fome.
Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos e comentários, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.
Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era da alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.
O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Anatômico sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome.
Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é um homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum. Passam, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.
Não é da alçada do comissário, nem do hospital, nem da rádio patrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.
E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.
E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição, tombado em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.
Morreu de fome.
[SABINO, Fernando. A mulher do vizinho. Rio de Janeiro: Record, 1997.
Disponível em: contobrasileiro.com.br/noticia-de-jornal-cronica-de-fernando-sabino.]

Leitor, leitora,
Faltou falar da “repetição necessária” em belos poemas de um belo poeta... Fica para outra vez.
Um abraço.