sábado, 5 de março de 2016

Concisão é a questão



Mário Quintana tem um texto interessante. Vamos ler juntos.
As trinta linhas
Um dia, Álvaro Moreira, já avô, contou-me que seu pai ainda lhe dizia: “Mas Alvinho, por que tu não escreves coisas de mais fôlego?” E ele, espalmando as mãos num gesto de desculpa: “Mas eu não tenho fôlego, Papai...” Depois dessa história, eu não precisava dizer mais nada. Contudo, não me sai da lembrança um professor dos meus tempos de ginásio que, ao dar-nos o tema para a Redação de Português, dizia: “Não adianta escreverem muito meninos, porque só leio a primeira página; o resto, eu rasgo” E assim nos dava, ao mesmo tempo, a primeira e a melhor lição de estilo, obrigando-nos a reter as rédeas de Pégaso e a dizer tudo (que, aliás, não podia ser muito) nas trinta linhas de papel almaço, contando título e assinatura. A ele, pois, ao saudoso major Leonardo Ribeiro, a minha gratidão e a de meus leitores.
[http://uaimundo.blogspot.com.br/2011/02/conversas-com-quem-gosta-de-escrever.html Mário Quintana in: Caderno H.]

Qual a vantagem de escrever pouco?
Pelo texto de Quintana, o leitor menos atento pode até concluir que “escrever pouco” é “escrever bem”. Entretanto, a melhor pista está numa palavra deste trecho: “dizer tudo (que, aliás, não podia ser muito) nas trinta linhas de papel almaço, contando título e assinatura.
Ah!, o pronome “tudo esclarece... tudo: trata-se de não deixar de dizer o que é essencial, mas de dizê-lo usando de concisão. Mas esse termo se presta a várias interpretações. O dicionário nos diz que um texto conciso é aquele resumido; ou também, breve, lacônico; ou preciso, exato. Dentre esses diferentes significados, com qual ficamos? Enfim, ser conciso é falar/escrever pouco? Ou resumidamente? Ou de modo preciso?
Prega-se a concisão como virtude, em manuais e cursos de escrita. Em contrapartida, há os que alertam para “os danos da concisão” – título de matéria sobre o tema, encontrado na internet.¹ A concisão será um mal ou um bem?
No próprio texto “Os danos da concisão”, o professor Carlos Minchillo dá boas pistas sobre o sentido adequado (e desejável):
Concisão não significa texto curto, ainda que seja um recurso para se conseguir reduzir a extensão de um texto. [...] Eliminando certas expressões e jogos verbais que parecem dispensáveis do ponto de vista informativo, pode-se perder muito do sabor do texto
Na mesma página, a linguista Maria Helena de Moura Neves esclarece que a concisão é um valor relativo, dependente do contexto de escrita e recepção do texto:
Segundo Maria Helena, lições de retórica como clareza, propriedade e concisão costumam ser mal compreendidas nos dias de hoje, pois são impostas sem a consideração de certas variáveis, como o público leitor a quem se dirige o texto, o veículo ou suporte em que é escrito, a finalidade e o momento em que ele é redigido.”(Grifo meu.)
De fato: um texto curto e enxuto pode conter a informação necessária e precisa ao leitor, dependendo do veículo de comunicação e do que se quer comunicar. Assim, a boa notícia jornalística, principalmente se escrita “em cima do fato”, é breve, porém, apresenta ao leitor os dados principais quanto ao ocorrido: o que aconteceu, quem esteve envolvido, onde, quando, por que e como aconteceu.



Lições de concisão
As duas imagens que ilustram esta matéria dão conta do que é representação concisa. Na primeira, está claramente representada a atividade de caça, apesar do esquematismo da pintura rupestre. Na segunda – a escultura de Niemeyer para o Memorial da América Latina –, a mão estendida e o mapa em vermelho  permitem ao leitor interpretar a nação que acolhe e, ao mesmo tempo, o sofrimento dos povos latinos. Em palavras do próprio arquiteto: “Suor, sangue e pobreza marcaram a história desta América Latina tão desarticulada e oprimida. Agora urge reajustá-la num monobloco intocável, capaz de fazê-la independente e feliz.²”
Manuel Bandeira, por sua vez, em Poema tirado de uma notícia de jornal, dá-nos aula de concisão, ao unir poesia e notícia:
Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no
            [morro da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu
                                                                       [afogado.

[BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

Então...
Eu e você, leitor, podemos concluir: um texto conciso informa o essencial, sem “encher linguiça”. Os bons redatores de jornais (escritos ou falados) sabem bem disso. E nós, que vivemos em sociedade letrada, a qualquer momento somos solicitados a escrever – um bilhete, uma carta, uma exposição de motivos para requerer determinado emprego –, ou a verbalizar – uma explicação de ausência ao trabalho, uma informação de como ocorreu um acidente doméstico, etc. –, de forma clara, objetiva e sucinta.
Será que estamos preparados?
O professor Chico Viana sugere, como exercício de escrita concisa, trabalhar a partir de provérbios: “O trabalho com provérbios também demonstra o valor da concisão. Eles resumem a sabedoria popular e devem a maior parte do seu efeito ao formato sintético, que os faz atingir mais facilmente as pessoas.”³
Selecionei dois dos exemplos propostos pelo professor, para finalizar nossa conversa de hoje com um pouco de ação. A partir da forma longa e “esparramada” das afirmações abaixo, tente chegar aos provérbios correspondentes:
Aquele que não dispõe de um mamífero carnívoro da família dos canídeos persegue animais silvestres para caçar ou matar com um pequeno mamífero carnívoro, doméstico, da família dos felídeos.”
Quem sente grande afeição por alguém de aparência desagradável, desproporcional ou disforme, terá a impressão de que essa pessoa lhe suscita prazer estético.”
¹Os danos da concisão. Disponível em: revistalingua.com.br/textos/67/artigo249096-1.asp
² Em: www.memorial.org.br/acervo/obras-de-arte/mao.
³ Disponível em: revistalingua.com.br/textos/blog-ponta/concisao-o-menos-vale-mais-304727-1.asp

Continuaremos...
Um abraço.

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