quarta-feira, 16 de março de 2016

Concisão ainda é a questão

Pablo Picasso


Retomo o tema concisão, de matéria anterior (05/03/2016), a partir da brevíssima lição de José Paulo Paes:
Poética
conciso?  com siso
prolixo?    pro lixo
 
[PAES, José Paulo. Disponível em: www.letras.ufrj.br/posverna/mestrado/PascheMEG.pdf]

O mini poema de Paes diz muito. No entanto, quanto de sabor e de informação se perde, às vezes, por se querer um texto demasiado objetivo e enxuto...

Quando a "concisão" beira a insignificância
Nem sempre o texto breve, objetivo e fácil “funciona” comunicativamente. “O contrário de concisão não é [...] ser prolixo, exagerado, verborrágico, difícil de entender. Prolixidade, claro, também é uma forma de elefantíase expressiva. Mas o antônimo da concisão é outro. É a insignificância.”¹(Grifo meu.)
Paradoxo: o texto conciso pode chegar a ter o texto comunicativamente insignificante como seu oposto... mas também seu correlato! O leitor o perceberá, ao ler a crônica que se segue.
Lembro, antes, que:
Em qualquer informe que emitimos, um comunicado sobre um desastre, por exemplo, pode ser muito breve quando ainda não se tem mais detalhes sobre o fato. Mas o espaço para textos longos – com detalhes – deveria ser condicionado ao desejo natural de um leitor ter acesso a informações ampliadas. Por isso, outra distinção a ser feita é que concisão não significa necessariamente escrever pouco.“²
¹Os danos da concisão. Disponível em: revistalingua.com.br/textos/67/artigo249096-1.asp
²Os danos da concisão. Opus cit.
  
Ficção
Não tem jeito mesmo...
“Trinta palavras no máximo; não há espaço para mais”, disse o chefe da redação ao jornalista. Por isso a matéria que apareceu no jornal foi:
Uma mulher escorregou numa casca de banana, numa faixa de pedestres da Bahnhofstrasse. Foi imediatamente transportada para a clínica da universidade, onde foi diagnosticada uma perna quebrada
 A primeira reação surgiu imediatamente, numa carta registrada em que um importador de bananas escrevia: “Protestamos veementemente contra o descrédito dado ao nosso produto. Considerando que, nos últimos meses, vocês publicaram pelo menos 14 comentários negativos sobre países produtores de bananas, não podemos deixar de inferir uma intenção de difamação deliberada de sua parte”.
Por sua vez, o diretor da clínica da universidade também se pronunciou, alegando que a expressão “foi transportada” poderia significar “o transporte de seres humanos como se se tratasse de carga”, o que contrariava totalmente os hábitos de seu hospital. “Além disso”, salientou, “posso provar que a fratura da perna resultou da queda e não, como foi sugerido com intenção malévola, do transporte para o hospital”.
Para finalizar, um membro do Departamento Municipal de Engenharia Civil telefonou, informando ao jornal que a causa do tombo não deveria ser atribuída ao estado da faixa de pedestres. Além disso, como o Comitê de Defesa das Faixas para Pedestres estava prestes a concluir seu relatório, após seis anos de trabalho, perguntava se seria possível – para evitar prováveis consequências políticas – não fazer qualquer alusão a tais passagens nos próximos meses.  
A notícia foi revista e, na manhã seguinte, apareceu com o seguinte texto: Uma mulher caiu na rua e quebrou a perna.
No dia seguinte, os editores receberam apenas duas cartas a respeito. Uma, indignada, era da Associação Não Lucrativa dos Direitos das Mulheres, cuja porta-voz repudiava “vivamente e em definitivo” o texto discriminatório uma mulher caiu, o qual evocava uma associação infeliz com “mulheres caídas” e constituía uma prova de que “mais uma vez, neste mundo dominado pelo homem, a imagem da mulher estava sendo manipulada da maneira mais pérfida e chauvinista!” A carta ameaçava com um processo judicial, boicote e outras medidas.
A outra reação veio de um leitor que cancelava sua assinatura, alegando o número cada vez maior de notícias triviais e sem interesse.

[GIDEON, Bruno.Seleções do Reader´s Digest, IN: KOCH, Ingedore; TRAVAGLIA, Luiz. A coerência textual. São Paulo: Contexto, 2001.]







Quando a concisão é sinal significante

Um claro exemplo de texto conciso – e significante – é o gênero literário miniconto. Nele, o autor diz o mínimo, não para sonegar informação, mas para provocar o leitor, deixando-lhe a possibilidade de usar a imaginação e preencher os vazios da narrativa,
numa coautoria.
O escritor de miniconto, certamente, conta com os conhecimentos textuais e de mundo do leitor, para que sua mininarrativa floresça em inúmeros outras, diferentes e possíveis, a partir da pequena fonte / raiz apresentada.
Vejamos alguns minicontos.²
Um vida inteira pela frente. O tiro veio por trás.
[Cíntia Moscovich]

Conto de horror
A mulher que amei se transformou em fantasma. Eu sou o lugar das aparições
[Juan José Arreola]

TV no quarto
E os pais na sala, assistindo a um documentário sobre os dramas da adolescência.
[Leonardo Brasiliense]

Aventura
Nasceu
[Luís Dill]

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.
[Augusto Monterroso]

² Em SPALDING, Marcelo. Pequena poética do miniconto. Disponível em: www.minicontos.com.br/?...Pequena%20poética%20do%20miniconto.
 

Um pequeno desafio
Leitor, proponho que, em um momento de descanso, você se dê ao prazer de exercitar sua escrita em um miniconto. Para isso, pode recorrer à própria imaginação; ou, se preferir, alimentar-se no(s) texto(s) que deixo aqui, para, a partir dele(s), criar uma narrativa reduzida, enxuta e capaz de dizer muito, com muito poucas palavras.
Bom trabalho!
 Os textos de partida
Texto1
Numa das ruas que davam na pracinha de Belém, na antiga cidade de Huaraz, havia uma casa dos tempos coloniais que sempre estava fechada e que vivia cercada de mistérios. Diziam que estava repleta de almas penadas, que era uma casa mal-assombrada.
Quando esta história começou, a casa já havia passado por vários donos, desde um avaro agiota até o padre da paróquia. Ninguém suportava ficar ali. Diziam que estava ocupada por alguém que não se podia ver e que em noites de luar provocava um tremendo alvoroço.

Texto2
Era uma vez uma velha que morava nos arredores de um povoado. Uma noite, estava se aquecendo junto ao fogo, tendo como única companhia as chamas ardentes, quando, de repente, ouviu ruídos em seu quarto. Surpresa, disse:
– Eu diria que há ruídos lá em cima... ou será impressão minha?
Depois, ouviu claramente passos que iam de um lado para o outro e, amedrontada, subiu a escada para ver o que estava acontecendo.

Texto3
Dois velhinhos
Dois pobres inválidos, muito velhinhos, estavam esquecidos numa cela de asilo.
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, um podia olhar lá fora.
O outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas que apareciam. Invejosamente, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
– Um cachorro ergue a perninha no poste.
Mais tarde:
– Uma menina de vestido branco está pulando corda.
E depois:
– Agora é um enterro de luxo.
Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, que foi transferido para debaixo da janela.
Não dormiu, antegozando a manhã. Desconfiava que o outro, talvez, nunca revelasse tudo.
Cochilou, acordou, cochilou, até que amanheceu. Sentou-se na cama; imediatamente, espichou o pescoço: ali, no beco feio e sujo, existia um enorme monte de lixo.
[TREVISAN, Dalton. In Mistérios de Curitiba. Record, 1979. Texto adaptado.]

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