domingo, 7 de fevereiro de 2016

O espírito carnavalesco em escritores brasileiros


Carnaval antigo


Não tem jeito, o carnaval brasileiro – falo aqui de festa, e de festa popular, claro – induz a brincadeiras, vadiagens, pequenas ou grandes malandragens, rendição às fantasias e máscaras.
Esse espírito, que vem de outras eras e países, já estava no entrudo, inspirou o nome da primeira escola de samba brasileira – a carioca “Deixa Falar” (depois “Estácio de Sá”) – e continuou na escolha de fantasias, nos nomes de cordões e blocos, nas letras gaiatas e críticas das músicas carnavalescas.
Em homenagem a esse mesmo espírito – leve, travesso –, trago à apreciação do leitor ou leitora três textos de brasileiros consagrados.
Inicio com a ironia fina de Machado de Assis, comentando, em crônica, o desejo (irrealizado) de soltar as amarras da imaginação e compor uma fantasia para o Carnaval de 1889. 

Bons dias!
(27 de fevereiro)
Ei-lo que chega... Carnaval à porta!... Diabo! aí vão palavras que dão ideia de um começo de recitativo ao piano; mas outras posteriores mostram claramente que estou falando em prosa; e se prosa quer dizer falta de dinheiro (em cartaginês, está claro) então é que falei como um Cícero.
Carnaval à porta. Já lhe ouço os guizos e tambores. Aí vêm os carros das ideias... Felizes ideias, que durante três dias andais de carro! No resto do ano ides a pé, ao sol e à chuva, ou ficais no tinteiro, que é ainda o melhor dos abrigos. Mas lá chegam os três dias, quero dizer os dois, porque o de meio não conta; lá vêm, e agora e a vez de alugar a berlinda, sair e passear.
Nem isso, ai de mim, amigas, nem esse gozo particular, único cronológico, marcado, combinado e acertado, me é dado saborear este ano. Não falo por causa da febre amarela; essa vai baixando. As outras febres são apenas companheiras. . . Não; não é essa a causa.
Talvez não saibam que eu tinha uma ideia e um plano [...]
Mas a falta de dinheiro (prosa, em língua púnica) não me permite pôr esta ideia na rua. Sem dinheiro, sem ânimo de o pedir a alguém, e, com certeza, sem ânimo de o pagar, estou reduzido ao papel de espectador. Vou para a turbamulta das ruas e das janelas; perco-me no mar dos incógnitos.
Já alguém me aconselhou que fosse vestido de tabelião. Redargui que tabelião não traz ideia; e depois, não há diferença sensível entre o tabelião e o resto do universo. Disseram-me que, tanto há diferença, que chega a havê-la entre um tabelião e outro tabelião.
– Não leu o caso do tabelião que foi agora assassinado, não sei em que vila do interior? Foi assassinado diante de cinquenta pessoas, de dia e na rua, sem perturbação da ordem pública. Veja se há de nunca acontecer coisa igual ao Cantanheda...
– Mas que é que fez o tabelião assassinado?
– É o que a notícia não diz, nem importa saber. Fez ou não fez aquela escritura. Casou com a sobrinha de um dissidente político. [...] Vista-se você de tabelião da roça, com um tiro de garrucha varando-lhe as costelas.
– Mas como hei de significar o tiro?
– Isto agora é que é ideia; procure uma ideia. Há de haver uma ideia qualquer que significa um tiro. Leve à orelha uma pena, na mão uma escritura para mostrar que é tabelião; mas como é tabelião político, tem de exprimir a sua opinião política. E outra ideia Procure duas ideias, a da opinião e a do tiro.
Fiquei alvoroçado, o plano era melhor que o outro, mas esbarrava sempre na falta de dinheiro para a berlinda, e agora no tempo. para arranjar as ideias. Estava nisto, quando o meu interlocutor me disse que ainda havia ideia melhor.
– Melhor?
– Vai ver: comemorar a tomada da Bastilha, antes de 14 de julho.
– Trivial.
– Vai ver se é trivial. Não se trata de reproduzir a Bastilha, o povo parisiense e o resto, não senhor. Trata-se de copiar São Fidélis¹...
– Copiar São Fidélis?
– O povo de São Fidélis tomou agora a cadeia, destruiu-a, sem ficar porta, nem janela, nem preso, e declarou que não recebe o subdelegado que para lá mandaram. Compreende bem, que esta reprodução de 1789, em ponto pequeno, cá pelo bairro é uma boa ideia.
– Sim, senhor, é ideia... Mas então tenho de escolher entre a morte pública do tabelião e a tomada da cadeia! Se eu empregasse as duas?
—Eram duas ideias.
— Com umas brochadas de anarquia social, mental, moral, não sei mais qual?
— Isso então é que era um cacho de ideias... Falta-lhe só a berlinda.
—Falta-me prosa, que é como os soldados de Aníbal chamavam ao dinheiro. Uba sacá prosa nanupacatu. Em português: "Falta dinheiro aos heróis de Cartago para acabar com os romanos." Ao que respondia Aníbal: Tunga loló. Em português: Boas noites.
[ASSIS, Machado de. Diálogos e reflexões de um relojoeiro – Escritos recolhidos da “Gazeta de Notícias”. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1956.]
¹ Município do Rio de Janeiro.


Carnaval de Carybé

O cronista Moacyr Scliar aproveita uma notícia da Folha, de 2001: “Ensaios da escola de samba Mocidade Alegre atrapalham sono de moradores da região”, para criar uma situação em que deixa claro o apelo incontrolável da alegria carnavalesca.

Espírito Carnavalesco
Cansado, ele dormia a sono solto, quando foi bruscamente despertado pela esposa, que o sacudia violentamente.
– Que aconteceu? – resmungou ele, ainda de olhos fechados.
– Não posso dormir. – queixou-se ela.
– Não pode dormir? E por quê?
– Por causa do barulho – ela, irritada: - Será possível que você não ouça?
Ele prestou atenção. De fato, havia barulho. O barulho de uma escola de samba ensaiando para o carnaval: pandeiros, tamborins… Não escutara antes por causa do sono pesado. O que não era o caso da mulher. Ela exigia providências.
– Mas o que quer você que eu faça? perguntou e, agora, também irritado.
– Quero que você vá lá e mande eles pararem com esse barulho.
– De jeito nenhum – disse ele. – Não sou fiscal, não sou policial. Eu não vou lá.
Virou-se para o lado, com o propósito de conciliar de novo o sono. O que a mulher não permitiria: logo estava a sacudi-lo de novo.
Ele acendeu a luz, sentou na cama:
– Escute, mulher. É carnaval, esta gente sempre ensaia no carnaval, e não vão parar o ensaio porque você não consegue dormir. É melhor você colocar tampões nos ouvidos e esquecer esta história.
Ela começou a chorar.
– Você não me ama – dizia, entre soluços: – Se você me amasse, iria lá e acabaria com a farra.
Com um suspiro, ele levantou-se da cama, vestiu-se e saiu, sem uma palavra.
Ela ficou à espera, imaginando que em dez ou quinze minutos a batucada cessaria.
Mas não cessava. Pior: o marido não voltava. Passou-se meia hora, passou-se uma hora: nada. Nem sinal dele.
E aí ela ficou nervosa. Será que tinha acontecido alguma coisa ao pobre homem? Será que – por causa dela – ele tinha se metido numa briga? Teria sido assassinado? Mas neste caso, por que continuava a batucada? Ou seria aquela gente tão insensível que continuava a orgia carnavalesca mesmo depois de ter matado um homem? Não aguentando mais, ela vestiu-se e foi até o terreiro da escola de samba, ali perto.
Não, o marido não tinha sido agredido e muito menos assassinado. Continuava vivo, e bem vivo: no meio de uma roda, ele sambava, animadíssimo.
Ela deu meia-volta e foi para casa. Convencida de que o espírito carnavalesco é imbatível e fala mais alto do que qualquer coisa.
[SCLIAR, Moacyr. In O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2002.]

Festa de Carnaval no céu

Clarice Lispector escreveu, para o público jovem, “doze lendas brasileiras”, uma para cada mês do ano. A de fevereiro só poderia ter como pretexto... o Carnaval. No texto, a pena elegante e bem-humorada da escritora renova uma narrativa bem conhecida e mostra a inventividade malandra de um dos animais, a fim de não perder a festa – situação oposta àquela do personagem da crônica de Machado. A pitada de irreverência à la Clarice vem na “moral” que finaliza a história.


Fevereiro
Alvoroço de festa no céu

Não é que na véspera do Carnaval houve no céu uma festa para os bichos da selva?
Os convites foram entregues por um beija-flor que delicadamente os deixava em cima de corolas de vitorias régias. O bicho que ia passando via o seu nome no envelope e pulava de alegria: tinha sido contemplado com um programa para o fim de semana!
Mas notaram todos que só recebiam convites os bichos de asa. O que era uma injustiça. Pelo menos foi o que o sapo gordo pensou. Os animais de terra estavam conformados, esperando o dia em que houvesse a festa la na selva mesmo. Mas, como eu disse, o sapo verde não. Todos riam dele e de suas reclamações coaxadas e inúteis.
Ele aproveitou o fim manso de tarde para gritar bem alto e ser bem ouvido.
– Eu também vou!
Os pássaros caçoaram e perguntaram:
– Cadê tuas asas, bicho feio?
Foi então que pensou: devo consultar quem é igual a mim, porém mais velho. E realmente, no brejo que ficava entre samambaias e avencas, encontrou um sapo velho e cheio de sabedoria chamado Quá-quá-quá, este se amedrontou com as intenções do sapo jovem:
– Olhe, é melhor para a sua saúde não sair do chão e ter água por perto.
Então o sapo jovem disse-lhe:
– O senhor é capaz de guardar um segredo? Pois bem, eu vou dançar lá em cima. Basta-me que o urubu feio leve o seu violão.
Qua-qua-qua disse-lhe que não o entendia.
O sapo foi falar com o urubu:
– Você vai levar seu violão, urubu?
O urubu, de violão debaixo da asa, nem se dignou a
responder.
– Senhor urubu, quer me fazer um único favor? o de ver se estou naquela esquina?
O urubu, meio burro, replicou que, já que era um só favor, ele iria. E não carregou o violão. O sapo mais que depressa entrou no violão e ficou lá bem quieto, embora tivesse uma vontade louca de fumar. O urubu voltou para lhe dizer que não o havia encontrado na esquina – mas cadê o sapo? Sumira, pensou. E pensou: agora vou para o céu.
Para encurtar a história, o sapo, dentro do violão, chegou ao céu e mais do que depressa pulou para fora e começou a dançar todo feliz. Os pássaros se espantaram, perguntaram ao senhor sapo como havia chegado. Mas a alma do negócio é o segredo e o sapo só respondeu malcriado:
– É que eu me arranjo sempre!
E entrou de novo sorrateiro no violão para ir embora. Mas o urubu percebeu a coisa e ficou raivoso:
– Espertinho, não é? Pois agora mesmo é que você vai voar, vou te soltar no ar. Então o sapo pediu todo manhoso:
– Está vendo aquela pedra e aquele lago? Pelo amor de Deus, deixe eu cair na pedra porque se eu cair no lago eu me afogo!
– Pois é no lago que eu vou te largar, para você morrer!
O sapo, bem feliz, caiu no lago, e salvou-se.
Moral da festa? Bem, não houve.
[LISPECTOR, Clarice. Como nasceram as estrelas - doze lendas brasileiras. Ed. Nova Fronteira.
Disponível em: portugues.seed.pr.gov.br/arquivos/File/ClariceLispector.pdf]

Nenhum comentário:

Postar um comentário