segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Impressões do espaço cidade


Em matéria anterior (25/02/2016), mostrei escritores que escolheram e poetizaram aspectos específicos de São Paulo. Citei, em meu apoio, o poeta português Albano Martins: “uma cidade pode ser / apenas um rio, uma torre, uma rua / com varandas de sal e gerânios /de espuma¹”.
O fragmento é parte do belo poema – Uma cidade –, que merece ser conhecido na íntegra. Por isso, proponho sua leitura.
Uma cidade
Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algodão, esporas
de água e flancos
de granito.
                      Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
aceso

numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.
[Disponível em: citador.pt/poemas/uma-cidade-albano-martins]

O texto “conceitua” liricamente a cidade, por meio de primorosas imagens verbais, que os brancos da página unem ou separam, realçam ou ensombrecem.
Reparem, no primeiro bloco/estrofe: é como se um viajante penetrasse no lugar pela primeira vez, e seu olhar privilegiasse grandes espaços  o rio, a torre e, depois, mudando o foco, a rua. Contudo, em vez de toda a rua, o que o impressionasse fossem imagens de menor volume e perenidade, que o eu lírico registra, a começar pelas “varandas de sal e gerânios de espuma” – referências que indiciam a cidade à beira-mar. As palavras bandeira, cavalo, esporas, flancos podem remeter o leitor a um tempo mais antigo e até heroico; porém, mais que isso, nos versos em que estão presentes, também compõem, em conjunto e metaforicamente, o mar.
No segundo bloco, após a reiteração da expressão “uma cidade” – destacada por seu deslocamento no branco da página –, o olhar poético agrega outros elementos à paisagem, fazendo com que o visitante-leitor perceba mais claramente: é cidade portuária e pesqueira.
Quem lê, se até agora encontrou as pistas de sentido com relativa facilidade, talvez se detenha um pouco mais a partir de “E pode ser um arco-íris à janela...” Então, será interessante interpretar – junto com o eu poético e agregando a experiência pessoal de cada leitor – o poder que um simples gesto, uma atmosfera, o perfume de uma flor têm para evocar / simbolizar um espaço (no caso deste poema, a cidade), reservando-lhe um lugar na memória afetiva.
Nessa perspectiva, cada leitura enriquecerá o poema de significados múltiplos, ao unir ou particularizar as belas e inusitadas figuras verbais que se sucedem: um arco-íris à janela, um manjerico de sol, um beijo de magnólias ao crepúsculo..., compondo as impressões poéticas de uma cidade particular, semelhante, mas não igual à cidade do poeta.
Deixo a quem lê o prazer de ampliar o trajeto de leitura e descobrir outros sentidos no poema, traçando caminhos diferentes por entre suas linhas, vazios e palavras.


Impressões de uma avenida



Uma cidade pode ser / apenas um rio, uma torre, uma rua”... Pode ser, também, um bairro, uma avenida, um viaduto, por que não? São Paulo, que há pouco comemorou seu aniversário, serve como exemplo, pois muitos poetas e compositores elegeram algum de seus encantos para amar e louvar.
Lembro, aqui, uma canção que homenageia uma de suas mais célebres avenidas: a Paulista.  Para uns, lugar de negócios, para outros, de lazer, para outros, ainda, região de manifestações e eventos, não há como negar: de avenida, parece que a Paulista se transformou em símbolo – monumento, mesmo – da São Paulo agitada destes tempos. A percepção de Sampa enquanto metrópole moderna e buliçosa “passa” pela Paulista...
Contrariando ou ampliando essa moderna visão, a música “Paulista”, de Eduardo Gudin e Costa Netto, vem envolta em romantismo. E mostra que, até à semelhança dos grandes lances  – de protesto ou de alegria – de ocorrência frequente por lá, os de amor também podem se iniciar nela: na Paulista. Comprovem-no, ouvindo a voz doce e emotiva de Vânia Bastos.
Paulista
Na Paulista os faróis já vão abrir...
E um milhão de estrelas
prontas pra invadir, os jardins
onde a gente aqueceu uma paixão...
Manhãs frias de abril.

Se a avenida exilou seus casarões,
quem reconstruiria nossas ilusões?
Me lembrei de contar prá você, nessa canção,
que o amor conseguiu...

Você sabe quantas noites eu te procurei,
nessas ruas onde andei?
Conta onde passeia hoje esse seu olhar...
Quantas fronteiras ele já cruzou,
no mundo inteiro de uma só cidade?

Se os seus sonhos imigraram sem deixar
nem pedra sobre pedra prá poder lembrar...
Dou razão, é difícil hospedar no coração
Sentimentos assim.




Meu abraço.

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