segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Pistas poéticas de uma cidade – São Paulo

Anselm Kiefer

Passados os quinze primeiros dias de tranquilidade de janeiro, algo acontece na cidade de São Paulo: mais turistas a visitam, à cata de diversão e cultura; estudantes, ao encontro de cursos; profissionais, objetivando trabalho, mas sem esquecer o lazer – porque o ano mal começou, e ninguém é de ferro...
A metrópole faz por merecer e incrementa o “agito”, pois é seu aniversário, ocasião de se multiplicarem os eventos: exposições de arte, ensaio de escolas de samba, shows musicais, atrações infantis, festivais de arte e gastronomia, acontecimentos múltiplos em bairros tradicionalmente boêmios.
Assim, fica difícil não falar desta São Paulo – ou Sampa, ou, metaforicamente, cidade da garoa (ainda, às vezes), cidade-país, selva de concreto, locomotiva do Brasil (há quem não concorde), pauliceia desvairada (não é, Mário?) o avesso do avesso do avesso do avesso (não é, Caetano?).
Aproveito, então, para rever e reviver literariamente a cidade. Lanço-lhe um olhar, filtrado por outros olhares, atentos e poéticos.
Uma cidade, por vezes, revela-se em miúdos detalhes, mais que em sua totalidade. Como diz o poeta português Albano Martins, “uma cidade pode ser / apenas um rio, uma torre, uma rua / com varandas de sal e gerânios /de espuma”. Que o diga o viajante que vem de fora e se vê marcado por esta ou aquela face de Sampa: um bairro, uma rua, um momento. Ou o nativo, para o qual nada é mais importante que a região onde nasceu, ou a praça que testemunhou namoros adolescentes.
Vamos, pois, leitor/a, em busca dessas impressões tornadas poemas, como pequenas pistas que, em sua singularidade, revelam características do universo / cidade de São Paulo.
¹[Disponível em: citador.pt/poemas/uma-cidade-albano-martins]


Canto de regresso à pátria
Oswald de Andrade
Paráfrase à Canção do Exílio de Gonçalves Dias, o poema do paulista Oswald de Andrade redireciona o sentimento saudosista do país. O eu poético louva São Paulo, não o Brasil: São Paulo e sua rua 15 de novembro, símbolo de progresso e riqueza, no início do século XX.
Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo. 
[ANDRADE, Oswald de. Poesias Reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.]

Às minhas costas
Sérgio Alcides
O progresso, agora, ganha velocidade e modernidade: o metrô, o ar condicionado, a escada rolante. O habitante recebe passivamente (“às minhas costas”) a fria impessoalidade comum às grandes cidades, traduzida pela voz poética de Sérgio Alcides, escritor e pesquisador carioca, mas que morou (ou ainda mora?) na terra paulistana.
As portas do metrô mastigam
o ar condicionado.
Estou em trânsito, com os demais.
Percorremos a rede incorpórea
que há de permanecer.
Não se ultrapassa a linha amarela.
Nada cheira. E a escada rolante
– áspera via – até se alegoriza
ao conduzir-nos de volta ao simulacro
passageiro das avenidas.
Na saída, ponho os óculos escuros. 
[Disponível em: www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142011000100016]

O vento nessa cidade
Paulo Ferraz
Também contemporâneo e conhecedor de São Paulo, Paulo Ferraz privilegia o movimento natural do vento e o personaliza – mas já contaminado pela ação do morador urbano (fumaça, papéis, lixo, enfim). O vento agressivo (“vem sempre na mão contrária”; “pois nessa cidade o vento não aceita ser contestado”) parece reagir vingativamente à fuligem e sujeira que o homem produz, maculando a natureza. 
O vento nessa cidade
vem sempre na mão contrária.

Fumaça, papéis e poeira
pegam carona, sem rumo

(pessoas também, se bem que elas
não se diferenciam muito

de papéis, poeira ou fumaça). O
preto, que à mão só tem dedos,

grava na sarjeta o mapa
de seu tesouro escondido,

já são vistos traços brancos,
mas vamos de olhos cerrados,

pois nessa cidade o vento
não aceita ser contestado.
[Disponível em: www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142011000100016]

Soneto sentimental à cidade de São Paulo
Vinicius de Moraes
O carioca Vinicius de Moraes embala em poesia as contradições da metrópole paulistana, flagrada, qual mulher da noite, no estranhamento apaixonante de sua vida noturna.
Ó cidade tão lírica e tão fria!
Mercenária, que importa - basta! - importa
Que à noite, quando te repousas morta
Lenta e cruel te envolve uma agonia

Não te amo à luz plácida do dia
Amo-te quando a neblina te transporta
Nesse momento, amante, abres-me a porta
E eu te possuo nua e fugidia.

Sinto como a tua íris fosforeja
Entre um poema, um riso e uma cerveja
E que mal há se o lar onde se espera

Traz saudade de alguma Baviera
Se a poesia é tua, e em cada mesa
Há um pecador morrendo de beleza?
[Disponível em: viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia/poesias-avulsas.] 

A poesia é da cidade...
... Mas o poema é seu, leitor/a.
Parafraseei Vinicius ("a poesia é tua") e explico: deixei algumas pistas interpretativas, em cada texto; no entanto, para cada poema, é sua a leitura, e sua a interpretação. Ademais, quem sabe, após sua leitura, surja-lhe o desejo de criar, também, um poema inspirado em sua cidade? Se for o caso, compartilhe conosco!
Um abraço.

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